Guia da Semana

O grafite domesticado?

A expressão que antes era vista como poluição visual nos muros do centros urbanos, chega a um dos museus mais cobiçados da América Latina.

O mundo muda. De acordo com o seu tempo, mas muda. Prova disso é que até uma ou duas décadas atrás o grafite era uma arte marginal - quando era considerado arte -, que não caberia em outro local que não os muros da cidade, os quais os grafiteiros eram acusados de sujar. Hoje o grafite está no MASP, um dos museus de arte mais cobiçados da América Latina. Em cartaz até 5 de fevereiro, a mostra De Dentro Para Fora/De Fora Para Dentro reúne seis artistas do que hoje é chamado de street art ou arte urbana em solos tupiniquins.

Munidos de 600 latas de spray, 700 litros de tinta látex e materiais diversos, Carlos Dias, Daniel Melim, Ramon Martins, Stephan Doitschinoff, Titi Freak e Zezão cobriram 1,5 mil metros quadrados da galeria subterrânea do espaço. Para uns, uma mostra como essa é a prova maior de que o grafite está sendo domesticado, para outros, é a consagração de mais uma expressão artística. De um jeito ou de outro, uma coisa não pode passar despercebida: o grafite está em evidência.

Zezão

Foto: Divulgação

Com um trabalho profundo e complexo, que remete ao abstrato e à arte conceitual, José Amaro Capela, mais conhecido como Zezão, é um dos nomes de maior destaque do grafite nacional. Crescido em meio ao punk, ao skate e à pichação, Zezão já trabalhou como motoboy e motorista de caminhão pelas ruas de São Paulo, cidade onde nasceu em 1971. Em um texto acerca do artista, Baixo Ribeiro, da Galeria Choque Cultural, afirma que foi a partir dessas vivências que Zezão "aprendeu a ver beleza onde a maioria das pessoas só consegue enxergar lixo, sujeira e desolação". Boa parte de seus grafites está nas galerias pluviais que levam aos rios paulistanos, entre eles o Pinheiros e o Tietê - pra lá de poluídos. Esses trabalhos se tornaram suas marcas registradas.

Sua obra está em diálogo direto com uma urbe cujos espaços públicos estão relegados a um segundo plano, com seus rios destruídos e com o lixo produzido por mais de dez milhões de pessoas. Além do grafite, Zezão produz em plataformas como fotografia, vídeo, instalação e performance. Seu currículo inclui exposições em Los Angeles, Paris, São Paulo e Praga. É sem dúvida um dos nomes mais importantes da arte urbana brasileira.

Titi Freak

Foto: Divulgação

Descendente de japoneses, Titi Freak, pseudônimo de Hamilton Yokota, começou a trabalhar com arte nos estúdios de Maurício de Souza, da turma da Mônica, quando ainda era adolescente. O profissionalismo e o senso estético adquirido a partir dessa experiência fizeram com que ele se inserisse no mercado como designer e ilustrador. Em 1995, com mais de 20 anos de idade, Titi Freak conheceu o grafite. A partir disso, o artista começou suas experiências pelas ruas de São Paulo, onde mesclava sua excelência técnica com a improvisação típica da arte urbana. Suas influências perpassam referências típicas da cultura pop, como as HQs, os mangás e o imaginário da moda, e vão até clássicos como Picasso, Portinari e Matisse, compondo um estilo que fala a públicos de diferentes idades e procedências.

Nascido em 1974, Titi Freak já teve suas obras exibidas na galeria Acervo da Choque e tem um livro publicado, FREAK, com imagens de sua trajetória artística.

Carlos Dias

Foto: Divulgação

Também conhecido como ASA (Ao Seu Alcance), Carlos Dias é um artista cuja motivação é fazer uma arte profunda e expressiva, mas que permita a qualquer pessoa senti-la. Nascido em Porto Alegre, em 1974, Dias viveu boa parte de sua vida em São Paulo, onde participou de diversas manifestações de cultura jovem nos anos 80 e 90. Entre elas, o skate, o punk, a street art e o grafite em si, todas com forte influência sob seu trabalho. Povoada por personagens surreais distribuídos por cenários caóticos, sua obra é marcada pelas cores fortes que permeiam um mundo psicodélico, pop e expressionista.

Carlos Dias já participou de diversas exposições ao redor do mundo, inclusive uma coletiva intitulada São Paulo, que ocorreu em Los Angeles. Além das artes visuais, em que atua em diferentes suportes, Dias já tocou em bandas como Againe, Caxabaxa, Polara e escreveu músicas para grupos pop como CPM 22 e Cansei de Ser Sexy.

Daniel Melim

Foto: Divulgação

Pós-graduado em artes visuais, Daniel Melim aprendeu a pintar fazendo grafite e intervenção urbana. Natural de São Bernardo do Campo, na Grande São Paulo, Melim nasceu em 1979 e já expôs na Choque Cultural, no Museu Afro Brasil, representou o Brasil na Bienal de Valência e participou da coletiva The Cans Festival, promovida pelo britânico Bansky - um dos grandes nomes da arte urbana mundial.

Tendo o estêncil - técnica de pintura sobre máscaras com imagens vazadas - como uma de suas principais características, Melim é um artista que valoriza a composição de suas obras, levando em conta questões como a distribuição das massas de cores e as texturas de suas imagens. Sua pesquisa artística remete a compêndios de clichês publicitários antigos, que simbolizam um mundo exageradamente feliz. Melim transforma esses clichês em estêncil e os aplica sobre diferentes plataformas de texturas. Atualmente, o artista está trabalhando no Projeto Limpão, que consiste em ocupar todo um morro de sua cidade natal com pinturas nas fachadas das casas e nos corredores e praças locais.

Ramon Martins

Foto: Divulgação

Formado em artes plásticas pela Escola Guignard de Minas, Ramon Martins é o mais novo dos artistas da exposição. Paulistano nascido em 1980, Martins funde a experimentação do estúdio com o espírito das ruas. Versátil, ele passeia pelo grafite, performance, instalações, esculturas e pintura em telas. Com influência de arte africana e indiana, o trabalho de Martins tem toques de sensualidade e características pop-psicodélicas.

Entre os projetos dos quais participou, destaca-se o R.U.A - Reflexo on Urban Art - Lines, Colours and Forms of Brazilian Urban Art, em Rotterdam. Na ocasião, ele e outros artistas brasileiros, como Speto e Onesto, pintaram grandes murais nas ruas da cidade holandesa.

Stephan Doitschinoff

Foto: Divulgação

Crescido em meio a manifestações religiosas diversas, Stephan Doitschnoff, também conhecido como Calma, traz em suas obras as influências dessas crenças tanto quanto as marcas deixadas pela cultura do skate e dos movimentos punk e hardcore de São Paulo, onde nasceu em 1977. Durante os anos noventa, o artista fazia capa de discos de bandas e trabalhou como assistente do cenógrafo Zé Carratú, pintando cenários para diversos shows. Ele começou a produzir arte de rua através da aplicação de pôsteres, adesivos e estêncis. De sua obra, emergem questões simbólicas e existenciais como redenção, culpa, paz, salvação, transcendência e outras em que o limite entre a arte e o sagrado é bastante tênue.

Um dos projetos mais conhecidos de Stephan se deu em Lençóis, no interior da Bahia, onde viveu de 2005 a 2008. Ele pintou diversas fachadas da cidade. De casebres e bares à igreja, os túmulos e a capela do cemitério local. O trabalhou deu origem ao documentário Temporal. Além disso, a editora alemã Gestalten publicou o livro The Art of Stephan Doitschinof.

Serviço

Endereço: MASP - Avenida Paulista, 1578.
Data: Até 5 de fevereiro.
Horário: De terça a domingo, das 11h às 18h; quinta, das 11h às 20h.
Preço: R$ 15,00 e R$ 7,50 (meia); grátis às terças.
Mais informações: (11) 3251-5644.


Atualizado em 10 Abr 2012.

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