Guia da Semana

O show de Roberto e Caetano para Tom Jobim

Quando anunciado que Roberto Carlos e Caetano Veloso fariam um show juntos para comemorar os 50 anos da Bossa Nova, houve quem perguntasse o que eles teriam em comum. Caetano sempre disse que a Bossa Nova abriu a cabeça da sua geração e assim foi possível surgir a Tropicália. A Bossa Nova enterrou quase de vez o samba canção, o samba de batida tradicional e a voz potente tão ao gosto de Orlando Silva. Abriu a porta para que tudo fosse cantado de outra maneira, de uma maneira moderna como se dizia na época. Roberto Carlos, embora fosse o Rei do Iê iê Iê começou a carreira copiando João Gilberto, entre outros cantores.

Perceba que na carreira de Roberto ele é muito mais um bossa novista cantando rock baladas do que propriamente um roqueiro. Fazer rock e cantar rock era para o seu parceiro Erasmo Carlos. A sutileza de sua voz fez com que Luis Carlos Paraná, compositor e dono do Jogral, uma casa noturna da nova geração de compositores daqueles idos anos 60, convidasse Roberto Carlos para defender sua composição Maria, Carnaval e Cinzas no festival da Record. E existe uma relação pessoal entre Caetano e Roberto. Roberto foi visitar Caetano no exílio onde compôs para o amigo Debaixo dos Caracóis de seus Cabelos.

O Show em homenagem aos 50 anos da Bossa Nova foi na verdade, uma homenagem a Tom Jobim que junto com Vinicius de Moraes e João Gilberto deram forma ao movimento. O resto é coadjuvante. Não dá para comparar Chega de Saudade com a letra do barquinho vai, o barquinho vem. Ou Insensatez, Ligia e Corcovado com Bolinha de Sabão. Então o show foi Tom Jobim. A cortina abre com o áudio de um show gravado ao vivo nos anos 60 onde Tom, Vinicius e João Gilberto se convidam para cantar o amor. A cortina abre e estão lá Caetano e Roberto cantando Garota de Ipanema. Caetano, com terno cinza, cabelo curto e óculos ao lado de Roberto, com um terno azul e um cabelo duro e reto como se estivesse sido alisado a ferro. Era a primeira apresentação para o público de São Paulo. Estavam nervosos. Uma preocupação desnecessária, já que o público estava ali para gostar do show.

Enquanto cantavam Garota de Ipanema e Wave, Caetano dava seus pulinhos desengonçados tão tradicionais em suas apresentações ao passo que Roberto Carlos mantinha sua habitual postura de segurar o pedestal e microfone com as mãos. O dueto é interrompido. Caetano e Roberto chamam atenção para o pianista Daniel Jobim, neto de Tom Jobim que toca e canta Águas de Março. Já no final da música, Caetano entra em clima de molecagem devidamente ensaiado e encerra cantando o refrão. Era a hora da apresentação de Caetano que entra cantando Por toda Minha Vida, Ela é Carioca, Inútil Paisagem, O que Tinha de Ser e "Meditação" acompanhado por uma orquestra de cordas e de músicos sob a regência de Jaques Morelenbaum.

As cordas, sempre presentes nos grandes arranjos da Bossa Nova davam um ar nostálgico as canções e certa dramaticidade quando a letra pedia. Ao fundo, Daniela Thomas responsável pelo cenário, ia exibindo imagens do Rio de Janeiro, palmeiras na praia e um pombo voando. Ao lado esquerdo, uma figura masculina que se supõe ser de Tom Jobim. As imagens exibidas não eram bem definidas.
Caetano sai do palco e a orquestra toca uma música pouco conhecida de Tom, Surfboard.

Roberto Carlos entra cantando Insensatez sob regência do maestro Eduardo Lages que o acompanha há muito tempo. Roberto justifica que vai cantar em espanhol por que gravou assim em um dos seus discos para língua hispânica. Acentuando ainda mais o clima de fossa canta Por Causa de você uma parceria de Tom Jobim e Dolores Duran. Insensatez em espanhol mais Por Causa de Você era um momento de "dor de cotovelo" e de amor desesperançado faltando só cantar Namoradinha de um amigo Meu. Fica a impressão que Caetano e Roberto escolheram músicas mais ao seu feitio de cantar.

Caetano se esmerava no canto e Roberto na emoção que a música continha. A direção do show utiliza um truque para trazer Roberto Carlos de volta a Bossa Nova. Exibe um trecho de programa exibido na TV Globo onde Tom Jobim ao piano começa a cantar Ligia e Roberto acompanha. É a grande deixa para Roberto Carlos cantar a mesma canção sem causar traumas. Roberto vai de Corcovado, "Samba do Avião e Eu sei que vou te Amar e recita o Soneto da Fidelidade. Toda apresentação também acompanhada por cordas dá um outro tipo de dramaticidade bem ao gosto de Roberto. Os dois voltam a cantar juntos e o público aplaude. Como estão em dupla era inevitável que cantassem Teresa da Praia que fez sucesso nas vozes de Dick Farney e Lúcio Alves num momento pré - bossa nova. E seguem com Chega de Saudade, A Felicidade e Se Todos Fossem Iguais a você. O ritual do show foi cumprido.

O público pediu bis e os dois voltaram. Foi um espetáculo onde Roberto e Caetano trocaram energia para uma platéia fria.

O bis saiu, o público aplaudiu, os dois se divertiram no palco numa rasgada troca de elogios e não mereciam um público tão frio.

Quem é a colunista: Lázaro Oliveira, jornalista. Trabalha no Vitrine e no Entrelinhas, ambos na TV Cultura

Pecado gastronômico: Comida japonesa ou cozinhar o que tem vontade para a família e amigos

Melhor lugar do Brasil: Quando não em casa, a bela cidade de Paraty!

Como falar com ele: lazaro.o@uol.com.br


Atualizado em 6 Set 2011.

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