Guia da Semana

Peixe, pássaro ou homem?

Ivaldo Bertazzo confronta os movimentos corporais das espécies em seu novo espetáculo. Confira entrevista exclusiva do coreógrafo sobre seu mais recente trabalho

Foto: Divulgação


Você já parou para pensar qual é a sua relação com as outras espécies de animais? E como seria a sua vida se você pudesse se movimentar como um réptil ou se conseguisse respirar nas profundezas dos oceanos? Estas e outras questões são discutidas no novo espetáculo de Ivaldo Bertazzo, Corpo Vivo - Carrossel das Espécies, que integra um projeto desenvolvido em parceria com o SESC-SP e que inclui também o lançamento do livro Corpo Vivo - Reeducação do Movimento, além de uma série de palestras e workshops.

No palco, os 16 bailarinos da Cia. Teatro Dança Ivaldo Bertazzo representam, por meio da dança, da música e de textos, a evolução da espécie humana, comparando-a com a dos répteis, pássaros, peixes e quadrúpedes. Com roteiro de Marília de Toledo, Corpo Vivo também traz momentos de interatividade para que o público perceba a importância do próprio corpo como o instrumento de todas as ações vitais ao ser. A seguir, o coreógrafo fala sobre a proposta e a concepção do espetáculo. Confira!

Guia da Semana: Como surgiu essa ideia de confrontação das espécies que permeia seu novo espetáculo?
Ivaldo Bertazzo: Na verdade, o trabalho da minha escola é sobre o processo evolutivo do homem. Nós trabalhamos tudo o que o homem realizou como desenvolvimento: rastejar, engatinhar, ficar em pé. Ao longo da vida, o ser humano tem de reciclar seus gestos fundamentais.

Guia da Semana: Qual é a proposta dessa concepção?
Bertazzo: Apesar de ter esse encantamento com as espécies, a minha preocupação é o humano. O ser humano é indiscutivelmente uma síntese de todas as outras espécies. Enquanto embrião na barriga da mãe, ele foi um peixe. Quando nasce, passa por uma fase mais réptil. Depois, transforma-se em um quadrúpede. Ao chegar em pé, ele é um bípede que flutua no espaço. O espetáculo mostra que uma das chaves de sobrevivência da espécie humana é o imaginário que ela possui. A possibilidade poética de representação. O homem pode brincar de ser diversas formas. A apresentação reforça a ideia do livro, que é extremamente técnico. Acredito que o público vai sair com um certo prazer de lutar contra as suas dificuldades corporais.

Guia da Semana: O que fez com que o homem utilizasse os movimentos corporais de uma forma inadequada, que resultou nessas dificuldades?
Bertazzo: Uma extrema fixação na posição ereta. Por causa de um excesso de verticalidade, há uma anulação de outros tipos de manifestações. O homem fica o dia inteiro na vertical e, com isso, vai se achatando. Eu raramente prego um botão de pernas cruzadas no chão, por exemplo. Parece que nós não desfrutamos de locomoções que são necessárias ao corpo humano. Então, o espetáculo mostra a necessidade de usarmos os níveis em diferentes posições.

Foto: Divulgação



Guia da Semana: No espetáculo, há uma figura de um monge que dedica à existência e não apenas à filosofia. O que essa figura representa?
Bertazzo: O espetáculo já começa com a figura desse monge que diz que poderia atingir a iluminação, mas está com um joanete que o incomoda. Ou seja, é uma brincadeira para mostrar que é normal que a matéria perca sua formosura e que você sofra com ela. O ser humano está caminhando para uma longevidade, mas o corpo não. O monge representa a luta cotidiana de todos. Ele mostra que um monge trabalhando em um mosteiro não é diferente de ninguém. Todo mundo tem de lutar da mesma forma nas suas conquistas e enfrenta os mesmos problemas ao longo da vida.

Guia da Semana: Quais instrumentos e métodos você utiliza para que o público se dê conta da importância do corpo como o instrumento de todas as ações cotidianas, que passam despercebidas, mas que são vitais ao ser humano?
Bertazzo: O texto e diferentes gamas de movimento. Homens de diversas nacionalidades desenvolveram gestos nas suas culturas dançantes completamente diferentes. Como aconteceu com a roupa, a culinária e o som de cada cultura. Então, mostramos diferentes leques de possibilidades motoras inventadas pelo humano. O homem fez isso porque tem a liberdade criativa.

Foto: Divulgação


Guia da Semana: O espetáculo traz para o palco uma das principais reflexões do homem: a preservação e a degeneração do corpo. Como essa relação é trabalhada na apresentação?
Bertazzo: Como uma precaução. O humano construiu uma onipotência e, por isso, ele não se prepara pra possíveis desequilíbrios e degenerações. A discussão é essa. Talvez eu dê conta de informar isso. Eu também não sei se isso vai acontecer. Quando a gente estreia um espetáculo, a grande surpresa é essa.

Guia da Semana: Como é o processo de preparação para as apresentações?
Bertazzo: É muito árduo. Uso muitas ferramentas, como rodas e mandalas. Há também muitos estudos de locomoção das espécies. Há uma associação de diversos trabalhos para conseguir dar conta dessa compreensão. O cavalo no pasto é lindo, mas ele não consegue pregar o botão da camisa ou pintar a unha do pé. O humano tem um desenvolvimento psicomotor refinado que não podemos negligenciar.

Confira a resenha do evento.

Saiba mais sobre a trajetória de Ivaldo Bertazzo.



Atualizado em 10 Abr 2012.

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