Guia da Semana

Piano para sempre

Há muitos profissionais que levam o instrumento pra toda a vida

Foto: Sxc.Hu

Aconteceu na Virada Cultural, em 2008. Débora Gurgel sentou ao piano, começou a pressionar as teclas e Saudade Mata a Gente foi saindo. Mas a música andou, andou e correu. E mudou. De repente. Uma ponte sonora levou todo mundo de uma canção singela a um ritmo ansioso. Chegou Disparada. Logo, a melodia se denunciou. Surgiu Geraldo Vandré na cabeça, os festivais, a ditadura, as serenatas e a simplicidade do "não preciso disso".

Na plateia, onde sempre vive zumbido, nasceu um silêncio. Débora seguia desenhando trilha sonora. Nenhum pio. Nada. Só as imagens saindo da calda de um piano. Olha lá o rancho na beira do rio com alguém sentindo saudade, a rede pendurada na noite. Faz muito frio. Olha lá alguém dizendo não, a morte, o destino, um homem segurando em cima do cavalo para não cair da vida, a boiada obedecendo ao boiadeiro. Olha lá, um cavalo correndo em disparada na esquina do sertão. 

O som ia limpando o ar. Agora tem mais música no meio, não sei bem qual é. Mas já entrou Disparada de novo. Ninguém pisca. O garçom não se atreve a servir pastel. Chocolate nenhum faz barulho de papel se abrindo.

Ficaram na minha memória aquelas notas pretas e brancas, tão amigas entre si. Irmãs de som, de harmonia, de fluência. Se vou ali na esquina comprar pão, o piano da Débora vai junto. Parece que foi hoje, uma música virando outra, como café mudando de cor quando alguém joga leite. Som saindo sem censura. Sem medo de chegar ao pé do ouvido.

Valeu o show. E se é certo que não dá para lembrar de tudo na vida por falta de espaço na mente, do piano da Débora, não abro mão. Tem lugar marcado para sempre na minha memória. Vou guardar ao lado da imagem dos meus pais, bem ali, perto da formatura da minha irmã e das bodas de meus avós.

Piano para sempre, Débora. Vai tocar assim lá no eternamente. 

Leia as colunas anteriores de Pedro Cavalcanti:

O Rádio que queremos ouvir

Um sonho chamado Jobim


Quem é o colunista: Pedro Cavalcanti.

O que faz: Publicitário.

Pecado gastronômico: Qualquer prato preparado pela minha avó.

Melhor lugar do Mundo: Aqui e agora, como diria o Gil.

O que está ouvindo no carro, iPod, mp3: Ulisses Rocha, Pat Metheny, Chico Saraiva
 
Fale com ele: phmarcos@terra.com.br

Atualizado em 6 Set 2011.

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