Guia da Semana

Poeta marginal

Após 20 anos de sua morte, o legado do artista desregrado continua presente, influenciando cantores e o público. Conheça a história de Cazuza, o ícone do rock brasileiro dos anos 80

Fotos: divulgação


Há duas décadas, deixava o palco da vida uma das vozes mais debochada e anárquica da música brasileira. Cantor de pop-rock-romântico, Agenor de Miranda Araújo Neto liderou uma das principais bandas de rock dos anos 80: Barão Vermelho. A habilidade com as palavras, aliada à atitude rebelde e transgressora sintetizavam uma geração que acabava de sair da ditadura e, sob a influência da cultura pop, pregava o desbunde. Ele que assumiu em público a bissexualidade e lutou até os últimos instantes contra a Aids, teve uma carreira efêmera, mas não menos idolatrada.

Menor abandonado


Filho da costureira Lucinha Araújo e do produtor musical João Araújo, Agenor nasceu em 4 de abril de 1958, no Rio de Janeiro. Adotou o apelido Cazuza desde pequeno e só aceitou o nome de batismo após descobrir que era homônimo de seus compositores prediletos, Cartola. Com a vida atribulada dos pais - que precisavam sair frequentemente à noite para resolver assuntos profissionais, cresceu apegado a avó materna, habituado aos mimos de filho único e ao sol da praia de Ipanema.

Desde pequeno tinha muita afinidade pela música. Com ajuda do pai, começou a trabalhar na gravadora Som Livre ainda adolescente, onde ajudava na triagem de cantores novos e na assessoria de imprensa. Posteriormente, concluiu um curso de fotografia nos EUA e ingressou na faculdade de jornalismo, mas largandou no primeiro semestre. Foi somente no teatro que achou seu principal papel, deixando de lado o jeito acanhado e tímido para soltar a voz nos palcos.

Porque a gente é assim?



Graças a um convite do cantor Léo Jaime, conheceu um grupo de jovens que precisavam de um vocalista para montar uma banda de rock. Roberto Frejat na guitarra, Dé no baixo, Maurício Barros nos teclados e Guto Goffi na bateria logo se impressionaram com a voz berrante e rouca, e aprovaram as letras que falavam de amor. Barão Vermelho, que até então só tocava covers, despontou no cenário musical com um repertório próprio.

Em 1982, à revelia do pai, gravou em dois dias o primeiro álbum ( Barão Vermelho). Caetano Veloso gostou e incluiu a música Todo amor que houver nessa vida em seu show. Apesar disso, o trabalho não foi bem aceito pela crítica, muito menos pelas rádios que não tocavam as faixas do grupo. O segundo álbum ( Barão Vermelho 2), manteve a qualidade do repertório e atraiu um público maior, arregimentado pelas músicas Vem comigo, Carente profissional e Pro dia nascer feliz. Esta última, consolidou a parceria Frejat-Cazuza, que  continuaram a fazer letras juntos mesmo após o vocalista partir para a carreira solo.


Frases

"Ser marginal foi uma decisão poética, foi o único caminho que tive."

"O disco Só se for a dois, me permitiu usar uma coisa não rock n' roll. Eu tenho esse lado de cantor de churrascaria..."

"Os marginais estão mais perto de Deus. Toda ovelha desgarrada ama mais, odeia mais, sente tudo mais intensamente, embora eu mesmo não me sinta assim."

"Antigamente, trabalho para mim era diversão. Eu queria me mostrar. Cantava para arranjar broto e para provar para o meu pai que eu era bom. Eu queria era comer todo mundo. E consegui!"

"Sou um latino apaixonado, nada racional, as ideias pintam e me aprisionam. Depois que vou trabalhá-lhas eu sofro, choro, viro noite."


Solidão que nada


Somente com a música-título feita por encomenda para o filme Bete Balanço, de Lael Rodrigues, que a banda atingiu o grande público. A canção do LP lançado em setembro de 1984 estourou - ao lado de Maior abandonado- atingindo 100 mil cópias em apenas seis meses. Aos poucos, Cazuza foi ganhando a fama de poeta do rock brasileiro. Sua atitude irreverente e as declarações polêmicas fizeram centralizar nele a atenção do grupo, destacando-se do resto. A banda ficou pequena demais para Agenor e, em meio a brigas e desentendimentos, abandonou o grupo no mesmo ano.

Lançado em 1985, o primeiro álbum sem a companhia dos parceiros recebeu seu apelido e tinha a sonoridade mais limpa e MPB que a do Barão. O hit Exagerado estourou nas rádios e era a personificação do cantor, poeta e boêmio. Junto, Codinome Beija-flor e Medieval II caíram na boca e no gosto do público. Enquanto idolatrava Janis Joplin, Rolling Stones e Jimi Hendrix, Cazuza levava uma vida particular desregrada e intensa, regada a álcool, drogas e promiscuidade.

O tempo não para



Antes de estrear o show Só se for a dois, em março de 1987, Cazuza adoeceu e fez uma bateria de exames. A confirmação da presença do vírus HIV no seu organismo apareceu pela primeira vez e, com ela, uma doença que daria uma nova guinada à sua vida. No mesmo ano, ganhou com Chico Buarque - a quem considerava seu ídolo - o prêmio de melhor letrista da Associação Brasileira dos Produtores de Disco. 

Mas a doença apresentava suas marcas. À medida em que piorava, o primeiro artista a assumir em público a Aids apresentava uma aparência magra e debilitada. Contrapondo o estado clínico, Cazuza produzia cada vez com mais vontade, rapidez e densidade. As letras não exploravam mais as melodias de baladas pop-românticas, mas explicitavam uma forte crítica social ao país. De uma maneira diferente mas com a mesma garra, o artista buscava, assim como a maioria da população, lutar para se manter vivo.

Em junho de 1989, terminou o derradeiro trabalho já em cima de uma cadeira de rodas. Burguesia trazia dois discos: um prevalecendo o gênero rock, o outro, a MPB. Viajou no final do ano para Boston, nos EUA, onde ficou internado até março do ano seguinte. Com a doença em estado avançado, já não tinha o que fazer. Morreu em 7 de julho de 1990, a sua  sepultura está no cemitério de São João Batista, próxima a de personalidades como Carmen Miranda, Ary Barroso e Clara Nunes.

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- Saiba mais


Livros

Preciso Dizer Que Te Amo - Todas As Letras Do Poeta
Editora Globo (2001)
Lucinha Araújo e Regina Echeverria produziram o livro que reúne 205 letras do compositor, das quais 78 permaneciam inéditas até então

Cazuza: Só As Mães São Felizes
Editora Globo (1997)
Lucinha Araújo narra, através de depoimento dado a Regina Echeverria, a vida e os conflitos de seu filho Cazuza. O livro teve tanto sucesso que ganhou adaptação para o cinema. 


Filmes
Cazuza - O Tempo Não Para (2004)
Columbia Tristar Films
Baseado no livro Cazuza - Só As Mães São Felizes, o filme com a direção de
Sandra Werneck e Walter Carvalho, conta a trajetória do artista que marcou a geração dos anos 80.

Cazuza, Sonho de Uma Noite no Leblon (2001)
PolyGram
Digirido por Sérgio Sanz e Marcelo Maia, o documentário traz as melhores histórias do cantor contadas por amigos: Cássia Eller, Ney Matogrosso, Ezequiel Neves, Frejat, entre outros.

 

 

 

Atualizado em 6 Set 2011.

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