Guia da Semana

Sobre homens e política

Espetáculo de Caio Trindade sai do lugar-comum e aborda temas com ética e paternidade

Leme, Neschling e Chirolli: a trindade em cena
Foto: Divulgação

"Não importa o que fizeram com você. O que importa é o que você faz com o que fizeram com você." A frase de Sartre resume o dilema do personagem de Pedro Neschling no espetáculo Trindade, em cartaz no Teatro Aliança Francesa.

A trama, que chega aos palcos paulistanos após uma temporada no Rio de Janeiro em 2004, é ambientada em 1909, ano em que o país enfrentava um turbilhão político pela sucessão presidencial, disputada entre um militar, o Marechal Hermes da Fonseca e um civil, o escritor Rui Barbosa.

Neschling, que recentemente fez par romântico com a personagem de Marjorie Estiano na novela Páginas da Vida, vive o jovem médico Emílio, criado na casa do rigoroso e ultra direitista general Pestana - personagem de Luciano Chirolli - onde sua mãe foi trabalhar após a prisão do seu pai, que era ligado ao movimento anarquista.

Paternidade e política
Foto: Divulgação
O médico conhece então o jornalista Tito Martins, vivido por Guilherme Leme, militante da causa operária que diz ter convivido com o seu pai na cadeia. Os dois começam a se encontrar e são descobertos pelo general, que não gosta de ver seu protegido envolvido com anarquistas. As coisas pioram quando o rapaz descobre que Tito é Vitor Gonzáles, o pai que ele julgava morto.

Apesar do contexto histórico e do forte tom político, a montagem do diretor e autor Caio de Andrade, que em 2001 escreveu e dirigiu Os Olhos Verdes do Ciúme aborda uma questão universal, a paternidade. Afinal, pai é aquele que cria ou quem dá a vida?

"Confuso como o fato de descobrir que tem dois pais de temperamentos e ideologias tão diferentes, Emílio terá que pesar os dois lados e encontrar o seu próprio caminho" , comenta Andrade. A peça, porém, se isenta de trazer uma resposta para a questão. "Trindade procura trazer questionamentos para o público, e não um veredicto" , complementa.

Além do elenco reformulado para a temporada paulistana - a versão carioca contava com Herson Capri e Pedro Garcia Netto -, outra novidade é a trilha sonora, totalmente repaginada, que apresenta músicas de bandas como Muse e Radiohead. "A escolha de grupos mais modernos acabam aproximando o público jovem e fazendo um contraponto interessante ao momento histórico em que a peça acontece" , afirma Andrade.

Leme em cena: trilha renovada e contexto histórico
Foto: Divulgação

O espetáculo marca também a estréia de Neschling nos palcos paulistanos. "Estou ansioso, mas feliz. Já acompanho o trabalho do Caio há muito tempo e fico contente em estar em uma peça que aborda temas tão importantes, como a ética e a paternidade" , comenta.

Engana-se, porém, quem imagina que o maior trunfo de Trindade seja o jovem galã. Na contramão das - muitas - peças que retratam o universo feminino e seus dilemas, a montagem apresenta uma temática pouco retratada nos espetáculos em cartaz na cidade. "Neste universo masculino, a discussão em torno da ética, da escolha de caminhos, acaba se tornando muito mais visível do que a questão afetiva, mais freqüentemente atrelada às mulheres" , afirma o diretor.

Segundo o dicionário, trindade é um "conjunto de três entidades, seres ou objetos de igual natureza" . Na trama, o personagem de Neschling procura descobrir justamente uma terceira via - a sua - em meio a dois personagens de naturezas opostas. Acompanhar o que Emílio faz "com o que fizeram dele" pode ser um interessante contraponto às montagens baseadas na velha fórmula das relações entre homens e mulheres.

Atualizado em 6 Set 2011.

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