Guia da Semana

Tempos de mudança

Colunista se aprofunda no tema

Foto: sxc


Em menos de um ano tenho novamente um encontro marcado com caixas de papelão, plásticos bolhas e uma bagunça generalizada que acompanha sempre quem tem que deslocar todas as coisas que você conseguiu juntar até então na sua "vidinha" de um espaço para outro. Agora que tenho uma espécie de diário virtual, posso me dar o prazer de divagar minhas idéias, relatar minha rotina e relacionar com fatos que possam interessar ou fazer com quem os leitores pensem a respeito. Assuntos que estão assim tão pertinho da gente e por distração ou falta de atenção deixamos de analisar um pouquinho mais a fundo.

Tenho o costume de juntar acontecimentos, do passado, de hoje, de agora a pouco, e gosto de criar associações entre eles. Pra mim nenhum assunto é raso.

Enquanto abria a primeira gaveta e me preparava para a difícil missão de escolher o que ia, e o que não ia me acompanhar na próxima casa, eu achei uma pasta com diversos programas de peças de teatro (eu guardo todos, inclusive os canhotos dos ingressos!). Entre eles estava o da peça "Norma". Era uma peça linda, poética e me marcou muito, entre tantos motivos que me fizeram gostar dela, lembro muito de uma frase que a personagem da Ana Lucia Torre falava, era mais ou menos, assim: - A minha vida inteira cabe dentro de caixas e caixinhas.

Muitos usam como terapia arrumar uma gaveta ou o seu guarda-roupa. As mulheres quando resolvem tirar o que tem dentro da bolsa então...

Independente da discussão de ser ou não materialista, ser agarrado a bens materiais, abandonar algo que você guarda a um certo tempo passa a ser um símbolo de desprendimento. Tenho manias absurdas (tudo bem que depois que um amigo me confessou que só consegue sair do banheiro depois de contar todos os azulejos, me acho tão normal ....Não que ele não seja!) e uma delas é guardar papéis e roupas que por algum motivo marcou um certo momento da minha vida. Não sei vocês, mas quando estou numa conversa no telefone, aquelas intermináveis, não consigo ver um papelzinho do lado com uma caneta e não começar a fazer desenhos ou rabiscos esquisitos. Adoro! Passa o tempo, enfim, tenho um monte desses guardados, todos com um nome embaixo da pessoa que conversei. Roupa então, não consigo me separar de várias, cada uma que eu guardo, eu penso: nem se eu quisesse dar pra alguém iam aceitar! Brincadeira, tanta gente sem ter o que vestir... Ah não, sem dramas. Não é essa a questão!

O fato é que cada mudança seja ela física como a que estou descrevendo, ou emocional (eu falei que gosto de criar associações) deixam marcas, é um sinal de abandono. Essa mudança específica pra mim representa hoje algo além de um simples deslocamento. Quis criar uma espécie de ritual. A frase de Norma me impulsionou um pouco nisso. Claro, que outros acontecimentos pessoais também, mas pensar que tudo o que a gente viveu fique resumido a objetos materiais guardados numa caixa de papelão, realmente é bem desesperador. Quero deixar minha passagem registrada de outra forma, com a minha arte, por exemplo.

Senti-me um pouco fútil enquanto via quantas coisas desnecessárias eu guardava. Mas parei de me julgar porque aquilo representava algo pra mim, um símbolo de uma época, a lembrança de alguém especial, um tempo que eu queria ter registrado comigo. Eu sou aquariano, nostálgico, eu assumo! Tenho medo dos meus textos ficarem datados, cito muito coisas antigas, mas não tem como não ficar melancólico vendo fotos impressas. Hoje é tudo tão imediatista, as máquinas digitais embora facilitem e antecipem o tempo de angústia em saber se você ficou bonito ou não, eu adorava a ansiedade na espera pela revelação. Tenho uma caixa cheia delas, ficam sempre guardadinhas, diferentes das que estão no meu computador que volta e meia eu olho. Nas mudanças acabo sempre percorro minha vida inteira olhando as fotos uma por uma.

O cesto de lixo ia ficando cada vez mais cheio, as caixas com a mudança do meu quarto nem tanto. Vida nova, eu pensei. Roupas antigas ficaram pra trás, caixas de sapato com fotos e negativos foram comigo, os bilhetinhos com desenhos de telefonemas, cartas e qualquer papel com aparência um pouco amarelada ficaram.

Peguei um bloco novo e separei pra colocar na mesinha que ficará o telefone. Todo em branco.

Quem é o colunista: Guilherme Gonzalez, administrador e ator do Pará para a Terra da Garoa.

O que faz: Um apaixonado pelas artes que largou a vida da administração para viver do teatro

Pecado gastronômico: comidas de mães.

Melhor lugar do Brasil: Praia de Pipa (RN) fora de temporada e bem acompanhado.

Fale com ele: gonzalezguilherme@hotmail.com

Atualizado em 6 Set 2011.

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