Guia da Semana

Tenho eu que ser doutor?

É possível viver de música em um país como o Brasil, principalmente agora com a pirataria e a Internet?

Foto: Getty Images

Viver de música no Brasil. Será que isso é possível? Lembro-me da voz rouca do Tom Jobim dizendo andar sempre com uma pasta cheia de arranjos debaixo do braço para competir com o aluguel. Se certa dificuldade financeira regia até o cotidiano do nosso grande maestro soberano, o que será então dos músicos ainda lutando por um lugar no palco? Não é nada fácil tocar a vida para quem toca por aí.

Foi numa estação do metrô de Nova Iorque que um som chamou a minha atenção. Misturado ao barulho do trem, aquela música não me soava estranho. De repente, a ficha caiu dentro do meu ouvido. 1x0, do Pixinguinha. Em seus vinte e sete anos, o violonista esbanjava agilidade. Um homem de terno, gravata, Laptop e iPhone jogou um dólar na caixa do violão. Ganhou um sorriso de troco. Depois foi a vez de uma senhora arremessar algumas moedas como quem cumpre o seu dever. Ficou sem sorriso. E antes de aplaudir, várias mãos engordaram a caixa do músico com notas dos mais variados valores. 1x0 para o violonista. No metrô de Nova Iorque, dá para se viver de música.

Falando em moeda, vamos agora olhar para o outro lado dela. Tocar no metrô, debaixo da linha do Equador é meio complicado. Primeiro, porque não tem muito metrô. Segundo, porque alguém pode pedir o seu violão em vez de pedir uma música. Os barzinhos também são uma opção para se viver de som. Mas o couvert artístico não dá nem para pagar o do restaurante. Um dos melhores violonistas sete cordas do país me disse que só não ficou sem teto, porque um amigo lhe emprestou sua casa. Quando um jovem músico coleciona dólares no metrô de Nova Iorque, enquanto a sua referência musical mora de favor em São Paulo, tem algo errado aí.

Experimente anunciar na mesa do almoço a sua escolha pela faculdade de Música. O resultado são cinco pessoas engasgadas e duas gritando na sua orelha o seguinte mantra: "música não dá dinheiro, meu filho". Talvez o pai do Paulinho da Viola tenha razão. Nessa terra de doutor, ser músico é pedir para ter dor de cabeça. Nem tango argentino é tão triste quanto a situação financeira dos músicos nesse país.

Falo isso porque tenho alguns músicos na família. Tio maestro, tia cantora. O primeiro virou empresário, montou uma escola em Bauru. A outra trabalha como corretora de imóveis. Vejam só, são dois músicos a menos no palco. A cortina continua fechada para eles.

Já me disseram que para ganhar dinheiro com música por aqui, tem que tocar ou com o Caetano ou com o Gil. Eles pagam bem. Claro que eles pagam bem, são dois cérebros reconhecendo a importância dos músicos e, acima de tudo, da música em nosso país. Exemplos a serem seguidos para que mais gente siga a carreira musical.

A tecnologia faz muita coisa hoje. Ela só não cria. Porque isso vem lá de dentro, de uma peça chamada talento, apertada pelo parafuso da inspiração. Em tempos de máquinas trabalhando pelo homem, talvez prevaleça a criação. A tendência é a valorização da arte. Porque a Apple nunca vai lançar um iPod compositor.

Tenho eu que ser doutor? Vamos torcer para que em pouco tempo a resposta seja não.

Quem é o colunista: Pedro Cavalcanti.

O que faz: Publicitário.

Pecado gastronômico: Qualquer prato preparado pela minha avó.

Melhor lugar do Mundo: Aqui e agora, como diria o Gil.

O que está ouvindo no carro, iPod, mp3: Ulisses Rocha, Pat Metheny, Chico Saraiva
 
Fale com ele: phmarcos@terra.com.br

Atualizado em 6 Set 2011.

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