Guia da Semana

Tremendão na área

Com 68 anos de vida e 50 de carreira, Erasmo Carlos fala sobre as expectativas de seu novo trabalho, o álbum Rock´n´Roll

Foto: Marcus Oliveira


Os cabelos brancos não negam que o tempo passou. Mas a irreverência, os óculos grandes, as pulseiras e o inconfundível "Bixo" remetem ao nome de um dos protagonistas de um dos grandes movimentos jovens do Brasil. Autor de músicas eternizadas no país, Erasmo Carlos, ao contrário de seu parceiro Roberto, não planejou nenhuma festa para comemorar os 50 anos de carreira. Ele quer é fazer som, e da pesada.

Retomando as origens clássicas, o Tremendão, que ajudou a moldar a cara do cenário nacional em uma época que se criticava o uso da guitarra elétrica, acaba de lançar o CD Rock'n'Roll com 12 composições inéditas. Levando uma vida sossegada, mas sem deixar de lado a boemia, Erasmo contou com algumas parcerias e jogou na rede todas as canções para os seus ouvintes.

Veja o "papo firme" com o pai do Rock nacional que, ao contrário do que se pensa, renega esse título.

Guia da Semana: Quais as expectativas para o lançamento desse novo CD, retomando suas origens do rock?
Erasmo Carlos: São ótimas. Era um disco que eu estava me devendo e os fãs vêm cobrando bastante. Sempre gravei rock´n´roll mas, como sou compositor brasileiro, sofro muitas influências, da MPB principalmente, e às vezes tiro umas férias por essas praias e gravo um ou dois rocks. Mas esse disco é todo calcado em rock. Também, porque é o primeiro disco que fiz debaixo para cima. Fiz as bases de bateria na minha casa, depois mostrei ao Liminha (produtor), que teve sensibilidade e me levou ao estúdio para fazer a mesma coisa com ele no baixo e uma guitarra. Com o cru feito, o disco foi nascendo. Além disso, é o meu primeiro disco jogado a novas mídias.

Guia da Semana: E você pretende estender uma turnê Brasil afora?
Erasmo: Sim. Na segunda quinzena de agosto a gente começa a pegar a estrada. Já vamos iniciar os ensaios e pretendo rodar o Brasil todo. Pretendo ficar na estrada pelo menos um ano e meio ou dois com esse álbum.

Guia da Semana: Você compôs as 12 faixas do disco e contou com algumas parcerias. Como foram essas experiências?
Erasmo: Eu fiz, em média, 25 músicas. Mas aí, pensei, para colocar letra em tudo você acaba se repetindo. Então, como eu tinha ótimos temas acumulados, resolvi usar algumas e dar outras para alguns autores. Fiz por e-mail com o Sérgio Motta. Ele estava em Portugal e começamos a trocar ideias. Eu mandava música, ele mandava letra. Com o Nando, nós fizemos uma parceria no CD do Zeca Pagodinho e já combinamos de produzir alguma coisa. O Chico Amaral eu já conhecia como parceiro do Samuel, no Skank, mas o empresário deles fez a ponte entre a gente e ele fez duas letras para o disco.

Foto: Divulgação


Guia da Semana: Essa história de compor em parceria por e-mail, é melhor?
Erasmo: Facilita muito, porque você pensa com calma, sozinho. Escreve, manda e cada um acerta do seu modo, sem a responsabilidade da presença da pessoa. Pessoalmente, eu só faço composições com o Roberto, porque é a única pessoa com quem me sinto bem para fazer isso, pois me acho muito educado. Fico com vergonha se eu falar alguma coisa e a pessoa não gostar.

Guia da Semana: Na música Olhar de Mangá você afirma que "Toda mulher tem olhar de pidona. Até de olhos fechados, na hora da entrega". Esse verso representa algo em especial para você?
Erasmo: De repente fala, bixo. Nela eu queria falar da mulher. E é muito fácil pegar um violão e dizer que as estrelas estão com ciúme dela, o céu está lindo como ela, e toda essa coisa. Não. Eu gosto de quebrar a cabeça e procurar um paralelo totalmente distante, que é o que me faz amar ainda mais o meu trabalho. Achar um tema e desenvolver algo totalmente diferente em torno dele. Para falar do olhar da mulher, eu me lembrei dos quadrinhos japoneses, porque eu acho que, além do peito e da bunda, existe o olhar, e ele é fundamental em uma conquista. Partindo disso, fiz uma listagem de mulheres da história, atrizes, deusas mitológicas e fui encaixando na música. Já o olhar de pidona, ele está lá. Mesmo quando ela fecha os olhos no momento em que se entrega para o seu amado. É um mini-orgasmo por dentro. (risos)

Foto: Marcus Oliveira


Guia da Semana: Seu CD está disponível no site e no MySpace. Você acredita que a internet é a melhor forma de divulgar um trabalho hoje?
Erasmo: Eu ainda não sei, estou experimentando. Hoje em dia, a velocidade da informação é tão grande. Quando você compra uma coisa nova, ela já está velha. Tem essa questão de pirataria, CDs não vendem mais, os programas de TV não têm mais espaço para música ao vivo, as rádios cobram jabá, a imprensa não dá o devido valor a quem merece. É comum vermos coisas de fora e os daqui ninguém dá valor. Essa babação de ovo me incomoda muito, porque quando vou lá fora não vejo nada disso que tem aqui no Brasil. O legal da internet é que um cara que está em um local totalmente fora do eixo, consegue divulgar o trabalho dele rápido em um site. Imagina isso em 1958? O Raul Seixas, por exemplo, começou praticamente junto com Erasmo, Roberto e Tim Maia, só que na Bahia. Para que ele viesse para Rio e São Paulo custou uns seis anos e perdeu todo o boom da Jovem Guarda.

Guia da Semana: Muitos dizem que você é o pai do Rock'n'Roll no Brasil, você se considera realmente um dos primogênitos?
Erasmo: Isso dá bolo, bixo! Essa parada de pai, rei, eu estou fora dessa praia. Eu sou um compositor que canta, só isso. As pessoas são simpáticas, isso é tudo uma gentileza e o amor que têm por mim, mas eu dispenso esse tipo de coisa. Não quero essas responsabilidades. Quero ser um operário da canção. Se possível, bem remunerado. (risos)

Guia da Semana: Depois de 50 anos de carreira, o que ainda falta conquistar?
Erasmo: Sinceramente, eu não quero conquistar mais nada, só quero mesmo é manter. Conquistar as coisas é muito fácil, mas manter, aí é que está o problema. Não tenho planos. As coisas sempre foram acontecendo na minha vida, e eu vou levando. Então, quero continuar seguindo meu caminho e desejar que as coisas aconteçam. Só agradeço, a cada dia, tudo que eu tenho e consegui com meu trabalho. Antigamente, eu ganhava um troféu e era um incentivo. Hoje em dia, é um reconhecimento pelo meu trabalho.

Confira mais sobre a entrevista realizada com Erasmo Carlos!

Atualizado em 6 Set 2011.

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