Guia da Semana

Um minuto e 12 anos de silêncio

Assistir a um show no Brasil pode ser algo perigoso. Significa pagar caro, não usufruir de estrutura alguma e contar com a sorte para sobreviver

Foto: Sxc.Hu


Eu não sou um grande fã de shows. Não gosto de aglomerações, de nenhum tipo. Trabalho no 16º andar e, no elevador, a placa diz que a lotação é de 24 pessoas. Quando estou nele e conto 12 pessoas, começa um pai nosso na minha cabeça. Santificado seja o vosso nome, pois não há meio de colocar outras 12 ali.

Shows à la João Gilberto, com banquinho, violão, lugares marcados e público selecionado, até arrisco! Os que vêm na caixinha, em DVD, com encarte, então, são fantásticos. Mas aqueles em estádios, parques, praias e arenas montadas, fujo deles como o diabo da cruz. Para que pessoas como eu parem de ser afugentadas pelos grandes shows, já passa da hora de uma discussão mais ampla sobre a realização deles.

O que você fazia em 8 de novembro de 1997? E em 23 de maio de 2009? Sorte sua que, nessas datas, não resolveu ir a show algum, seja em um tradicional Clube de Regatas Santista (em um previsível empurra-empurra sobre uma rampa), seja em Jaguariúna, durante um quase inofensivo rodeio.

A data de 1997 é a do show dos Raimundos, em Santos. Para os santistas, como eu, o dia em questão é praticamente um 11 de setembro: quase todo mundo lembra onde estava e o que fazia no momento em que soube da notícia, da mesma forma como quase todos conheciam alguém que estava no show ou algum dos oito jovens pisoteados na
tragédia. Só para constar, eu retornava de uma viagem de formatura de 8ª série.

Os mais críticos culpariam, em primeira instância, o público, a tribo, se valendo do alvo fácil da juventude adepta do "sexo, drogas e rock´n roll". Mas não é bem assim que a coisa funciona, como mostra um evento recente. O rodeio em Jaguariúna também fez suas vítimas. Quatro mortes, em condições muito parecidas com as ocorridas no show dos Raimundos. Falta de estrutura, sinalização, informação, policiamento e bom senso. Excesso de desorganização, público e de gente querendo ganhar dinheiro fácil, limpo e (involuntariamente) sujo de sangue.

O que há de comum em ambos os casos? Sem dúvida alguma, a ganância. Em todas as instâncias: quem vendeu mais ingressos do que devia, quem deu alvará quando não devia, quem talvez tenha recebido propina por isso, quem contratou menos policiamento do que o necessário, quem disponibilizou menos fiscais e funcionários do que o bom senso pedia. E isso tudo no melhor estilo Sergio Naya de ser brasileiro: se há alguma chance de lucrar mais com a tragédia alheia, que venha a tragédia.

E ao público, o que resta? Que toma chuva, gasta dias e horas na fila, é empurrado, mal tratado por porteiros, recebe informações imprecisas e tenta, ainda, divertir-se no show? Torcer para que, nesse país, aprendam com os erros. Infelizmente, de 1997 a 2009, parece que nada mudou.

A organização afirma que não há clima para remarcar as apresentações e o dinheiro será devolvido - e devem estar pensando serem os mocinhos da história com tamanha benfeitoria. Jóia, hein? Isso devia constar no verso do ingresso: "caso alguém (que não você) morra em um dos shows, a gente devolve seu dinheiro depois". Acolhedor e tranquilizante, não?

Leia as colunas anteriores de Rafael Gonçalves:

Não basta ter boa voz?

Pânico no Palco

Grammy 2009 - Eu já sabia
Quem é o colunista: Countryboy louco por Michael Jackson. Umroqueiro apaixonado por Big Bands. Um bluesman que ouve Haydn eStrauss para dormir.

O que faz: Jornalista do Guia da Semana, compositor, violonista e cantor.

Pecado gastronômico: Chocolates, churrasco (feito por mim) e molhode alho caseiro da vó!

Melhor lugar do Brasil: Qualquer um que comporte a equação praia +violão + amigos.

O que ele ouve no carro, em casa e no IPod: Darius Hucker, Fito yFitipaldis, Django Reinhardt.

Fale com ele: rafagt@hotmail.com acesse o site da sua banda!

Atualizado em 6 Set 2011.

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