Guia da Semana

Uma fábrica de Alemães

Tréplica: o colunista responde às considerações dos leitores sobre a coluna anterior


Foto: TV Globo/Kiko Cabral

Em resposta ao meu texto anterior, Como Vender um Peixe Amanhecido, o leitor Guilherme Voluti postou o seguinte comentário: "Enquanto estava no terreno das abstrações, perfeito. Entretanto, considero que foram profundamente infelizes as considerações a respeito do espetáculo citado. Pareceu criança birrenta desdenhando da bola nova do amiguinho, bola essa que o mesmo adoraria ter mas não pode".

Cada um tem direito às suas opiniões e não deixa de ser importante ver como as pessoas reagem ao gênero de produção que critico - no caso, representado no artigo pelo espetáculo Às Favas com os Escrúpulos -, no entanto gostaria de tecer alguns comentários sobre a parte de querer ser o dono do apito.

Esse gênero e produção existe e há bastante público para ele, afinal crescemos com o formato novela e filmes hollywoodianos, que traz na maioria das vezes uma fórmula representada da realidade semelhante ao real.

Meus interesses no teatro não têm a ver com essa direção de trânsito que se vê nos grandes palcos nem com fama e estrelato. Desisti durante anos de atuar porque não gosto da difícil exposição do ator e da parte da curiosidade da imprensa sobre a vida dos artistas. Também não gosto de dar entrevistas e de aparecer diante das câmeras.

Mas há uma função social no teatro, que é ser um canal de comunicação com as pessoas, de diálogo com a sociedade. E quando critico o espaço dado pela mídia a produções caça-níqueis que seguem a mesma fórmula utilizada pelas novelas ao ver a audiência diminuir - ou seja, coloca-se na trama um pouco de temática social para fingir que existe uma função nobre-, o que reclamo na verdade é a eliminação da opinião profunda nos grandes veículos em prol da superficialidade.

Não deixa de ser um paradoxo que, justamente em uma era considerada da informação, esta apareça quase como uma nota, como pílulas informativas sem muito aprofundamento. Nos jornais há o espaço das colunas, em que os conceitos são transmitidos; os livros têm pouco espaço de comercialização na mídia, a não ser best-sellers; no que se refere a filmes, fala-se muito de blockbusters e pouco de cinema de arte; na música, parece que a mídia só conhece rock, pop e MPB; no teatro, muita farofa e pouca lingüiça.

Em suma, com a informação colocada no foco, ela se tornou apenas mais um produto para ser exposto na prateleira, e, como tal, precisa ser popularizado. Como se faz para popularizar um produto? No caso da informação, segundo a ótica atual, basta diminuir seu aprofundamento e criar um mote interessante. Isso parte do princípio de que as pessoas hoje estão exclusivamente atrás de entretenimento, o que é uma verdade parcial.

Populariza-se o sertanejo, ele vira febre e depois é esquecido; então vamos ao axé, vira hit e depois é colocado em seu lugar; depois vem o funk carioca, novamente tornado febre e posteriormente deixado nas prateleiras para poucos usuários.

Essa engrenagem comercial segue o mesmo princípio de sustentação das empresas em um mundo globalizado, que para conseguirem sobreviver correm atrás de fusões, megaincorporações e outros pingüins de geladeira.

Apesar de não concordar com isso, com essa sustentação desesperada da máquina, tudo bem. É esta a sociedade em que vivemos. Mas fazer isso com a cultura é um crime. É uma espécie de assassinato viver em um mundo em que basta abrir o olho para ouvir uma música quebra-coração, mas para ver algo mais relevante é preciso escavar inúmeras paredes.

Portanto, Guilherme, não, essa bola eu não quero pra mim, mas há muita gente interessante escondida por aí atrás de Coelhos, Sangalos e Faustos da vida. Ou tudo bem vivermos essa fabricação constante de Alemães?

Leia as colunas anteriores de Cesar Ribeiro:

? A platéia invade os camarins

? Estamos todos felizes?

? Os progressistas não ouvem bossa nova

? Um axé bem cuidado ainda é um axé

? Alguém viu as orelhas de Van Gogh?

? Como vender um peixe amanhecido

Quem é o colunista: Cesar Ribeiro.

O que faz: diretor da Cia. de Orquestração Cênica.

Pecado gastronômico: comidas gordurosas & óleos adjacentes.

Melhor lugar do Brasil: metrópoles com multidão, sirenes & fumaças.

Fale com ele: acesse o blog do autor

Atualizado em 6 Set 2011.

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