Guia da Semana

A Batalha das Valquírias

A jornada vingativa de Max Payne chega aos cinemas brasileiros com drama demais e ação de menos numa adaptação dos jogos acima da média

Los Angeles


Max Payne nasceu no computador, mas sempre teve vocação para o cinema. É um dos primeiros jogos a apostar pesado em tomadas cinematográficas, com bom roteiro e intensidade. O título destoou em meio a tantos produtos meramente violentos e desnecessários. Essa mentalidade guiou o diretor irlandês John Moore (responsável pelo remake de A Profecia), que criou uma trama elaborada e deixou de lado o exagero habitual em termos de violência e cenas de ação. É uma faca de dois gumes, que provou o gosto da vitória nas bilheterias norte-americanas, mas desagradou parte de seu eleitorado. A parte positiva aconteceu em grande parte pela presença de Mark Wahlberg como o personagem principal.

A vida de Max Payne se transformou num inferno quando sua esposa e sua filha foram mortas. Desde então, ele passou de detetive de ponta a vingador solitário, sempre investigando o caso e procurando os culpados. O filme aborda o momento definitivo em que as peças começam a se encaixar nesse quebra-cabeça sanguinário. Logo de cara, Max Payne deixa claro que não há barreiras em seu caminho e pobres dos bandidos que tentam roubá-lo dentro de uma estação de metrô.

A ação começa. Payne resolve o problema rápido e agressivamente. Sem mortes, sem piedade. Ele consegue o que quer e prossegue em seu caminho. Esse é o tom do longa-metragem, cujos trailers e campanha de marketing prometem algo carregado de ação, tiroteios e câmeras inovadoras, mas entrega um drama bastante tenso. John Moore defende que sua obra evitou exageros, portanto, procurou mesclar estilos para não ser mera transposição dos desafios do jogo para a tela. Nesse aspecto, foi bem sucedido, porém aí está seu ponto fraco. Afinal, como entregar a adrenalina esperada por quem jogou sem concentrar esforços na ação em si?

Para realizar seu objetivo, Moore criou um novo sistema batizado como Ghost Cam, capaz de gravar mil quadros por segundo. Diferente do bullet time, de Matrix, essa novidade ajudou (e muito) nas principais tomadas de ação e não só deixou o gosto de quero mais, como pareceu ter sido subutilizada. Cerca de quatro seqüências claramente usam a criação de Moore. E só.

A maior contribuição do diretor para a história foi a inclusão de elementos da mitologia nórdica na trama para valorizar a existência de uma droga secreta que serve como pano de funda para a busca de Payne e responde a uma série de mortes inexplicáveis. Há limite entre os mundos e somente os guerreiros podem cruzar a barreira da sanidade. Portanto, são capazes de vislumbrar as Valquírias em sua incansável missão de resgate dos valentes tombados em campos de batalha. Em versão mais sombria, que a habitual caracterização sexy na qual a entidade aparece como mulher belíssima e belicosa, as Valquírias de Max Payne surgem como espíritos por vezes raivosos, por vezes impassíveis. Moore entende que os limites entre esses mundos, na verdade, não existam e que a tal droga sirva apenas como placebo nas mentes dos merecedores. Mas, o conceito fica sutil demais em meio à existência quase infernal que acompanha o surgimento de tais seres.

No meio de tudo isso, Max Payne continua quebrando tudo e todos até descobrir quem matou sua família. A revelação, claro, assusta e surpreende, assim como a presença de Mila Kunis como Mona Sax, uma matadora impiedosa que se une a Max depois da morte da irmã, vivida por Olga Kurylenko, a nova Bond Girl. Bastante diferente da versão do jogo, Sax é a Valquíria em carne e osso. Salva Payne nas horas mais complicadas, mas não avança e, além disso, frustrando expectativas e entregando um papel que desafoga tanto o personagem principal quanto o roteiro, carregado de diversos momentos de incerteza.

Max Payne se tornou indeciso em termos de gênero ao tentar agradar a todos, mas não se torna descartável entre as adaptações de jogos. Foi considerado por muitos a melhor das adaptações mesmo antes de sua estréia e, considerando-se a baixa qualidade das tentativas anteriores, pode até merecer o título, mas deixou muitas lições para sua continuação, que acontecerá invariavelmente. Fique depois dos créditos para conferir.

Mark Wahlberg é o maior chamariz e se sai bem nas cenas de tiroteio, para variar, além de ter funcionado perfeitamente para dar vida a esse sujeito amargurado e vingativo. Violência precisa ser tratada com violência em seu mundo e é isso que ele faz. Mesmo sem, em boa parte do filme, precisar atirar em tudo que se move.


Quem é o colunista: Fábio M. Barreto adora escrever, não dispensa uma noitada na frente do vídeo game e é apaixonado pela filha, Ariel. Entre suas esquisitices prediletas está o fanatismo por Guerra nas Estrelas e uma medalha de ouro como Campeão Paulista Universitário de Arco e Flecha.

O que faz: Jornalista profissional há 12 anos, correspondente internacional em Los Angeles, crítico de cinema e vivendo o grande sonho de cobrir o mundo do entretenimento em Hollywood.

Pecado gastronômico: Morango com Creme de Leite! Diretamente do Olimpo!

Melhor lugar do Brasil: There´s no place like home. Onde quer que seja, nosso lar é sempre o melhor lugar.



Atualizado em 6 Set 2011.

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