Guia da Semana

A outra retomada

Salas lotadas e produções nacionais rivalizando com grandes filmes estrangeiros, 2010 deu nova cara para o cinema brasileiro

Talvez o melhor adjetivo para descrever o cinema nacional este ano seja 'histórico'. Não é para menos: nesses poucos mais de 340 dias, o público dos filmes produzidos aqui ultrapassou 23 milhões, superando os 22 milhões de espectadores de 2003 (ano recorde, até então). O carro-chefe desse recorde e, sem sombra de dúvidas,  Tropa de Elite 2, que não se intimidou com os blockbusters, levou mais de 10 milhões de espectadores às salas e segue, mesmo depois de seis semanas de lançamento, entre os cinco mais vistos.

De 1º de janeiro até hoje, foram quase 70 estreias nacionais, algumas delas incríveis sucessos de bilheteria, outras retumbantes fracassos, como Lula, o Filho do Brasil. No balanço geral, surgiram nas telonas filmes com temáticas espíritas, como Chico Xavier e Nosso Lar, que levaram juntos quase 7,5 milhões de pessoas para as salas. Outro segmento foi voltado para o público teen, que atualizou a linguagem e chegou mais próximo ao universo adolescente. Confira a lista que selecionamos dos grandes destaques brasileiros de 2010.

Expectativa frustrada

Sob críticas e aplausos, o longa Lula - O filho do Brasil estreou no território nacional em 650 salas, no dia 1º de janeiro. Dirigido por Fábio Barreto e baseado no livro homônimo escrito pela jornalista Denise Paraná, o filme narra a história do Presidente da República, do seu nascimento até a morte de sua mãe, quando ainda era um líder sindical.

As críticas negativas, a visão pouco realista sobre a personalidade de Lula, somado à sombra do longa hollywoodiano Avatar, fizeram com que o filme levasse para as salas pouco menos de 1 milhão de pessoas - afastando a expectativa otimismo inicial em 12 milhões. Apesar disso, a película foi anunciada como a produção brasileira a disputar uma vaga no Oscar 2011 como Melhor Filme Estrangeiro.

Cara jovem


As melhores Coisas do Mundo é baseada no livro Mano, de Gilberto Dimenstein


Gênero pouco explorado no país, a temática adolescente voltou a estar presente neste ano, agora com uma nova abordagem. Adaptado do livro homônimo de Ismael Caneppele, Os Famosos e os Duendes da Morte apresenta ao público um menino de 16 anos, fã de Bob Dylan, que busca, por meio da Internet, fugir da letargia do pequeno vilarejo em que mora. O primeiro longa de Esmir Filho, conhecido pelo curta-metragem Tapa Na Pantera, ganhou o prêmio de melhor filme no Festival do Rio e foi exibido nos festivais de Berlim e Locarno (Itália). 

Já em As Melhores Coisas do Mundo, Laís Bodanzky leva às telonas o relato da vida de um jovem e seus amigos, que estudam em um colégio de classe média paulistano e enfrentam os dilemas característicos da adolescência. Inspirada na série de livros Mano, de Gilberto Dimenstein, a película levou oito prêmios no Festival de Cinema de Pernambuco, incluindo o de melhor filme, ator (Francisco Miguez), roteiro, direção, crítica e fotografia.

Documentários

Para quem não esteve, uma boa chance de vivenciar um momento único; para quem conviveu com a época, um documento rico e importante que rememora momentos áureos da música popular brasileira. É nesse clima que o documentário Uma Noite em 67 narra o festival da TV Record daquele ano. Dirigido por Ricardo Calil e Renato Terra, o filme mostra grandes nomes da MPB dando seus primeiros passos na música, como Gilberto Gil, Chico Buarque, Edu Lobo e Caetano Veloso. A película empolgou o público dos Festivais de Paulínia e É Tudo Verdade, em São Paulo.

Em outro documentário, durante a Ditadura Militar, um grupo de 13 homens quebra a rigorosa censura vigente no Brasil. Dirigido por Tatiana Issa e Raphael Alvarez, o documentário Dzi Croquettes conta a história dos homens, peludos e escrachados, que subiam ao palco travestidos arrebatando fãs. A película saiu do Festival do Rio em 2009 como o melhor documentário segundo o júri popular oficial e levou o prêmio do público na Mostra de São Paulo, no Cine Fest Goiânia, no Torino GLTB Film Festival, e no Los Angeles Brazilian Film Festival.

Filão religioso

Com o empurrãozinho de dois dramas de temática espíritas, o cinema brasileiro descobriu uma importante ramificação e reencontrou um forte potencial para seguir na rota de crescimento. O primeiro da lista foi Chico Xavier, dirigido por Daniel Filho e baseado no livro As Vidas de Chico Xavier, de Marcel Souto Maior. O longa estreou em 2 de abril, quando o médium espírita completaria 100 anos de idade. A película levou quase 3,5 milhões de pessoas para o cinema.

Já Nosso Lar, dirigido por Wagner de Assis, foi baseado em um dos livros psicografados pelo médium Chico Xavier e abordou assuntos como evolução e segunda chance. Para as filmagens, o protagonista Renato Prieto (famoso por atuações em teatros e filmes com essa temática) chegou a emagrecer 18 quilos para o papel. O filme que atraiu o maior investimento nacional, com R$ 20 milhões, atraiu um público de quatro milhões.

Cinema autoral


O longa Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo mistura a linguagem de documentário e ficção

O geólogo José Renato precisa fazer uma longa viagem pelo sertão nordestino, para definir o possível percurso de um canal, que tem por objetivo amenizar o problema da seca na região. A construção, que pode ser um alívio para muitas pessoas, traz um problema para aqueles com quem cruza no caminho, já que moram na região que será alagada. Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo é uma obra experimental realizada pelos cineastas Marcelo Gomes e Karim Aïnouz. A sua premiére mundial aconteceu no Festival de Veneza.

Com seu jeito singular de ver a realidade e provocando uma aguda crítica social, o diretor Sérgio Bianchi voltou à cena depois de quatro anos para lançar Os Inquilinos. O longa narra a história de uma família que mora no bairro periférico de Brasilândia, de São Paulo e vê sua rotina mudar com a chegada de jovens vizinhos suspeitos de pertencerem à criminalidade. O filme foi selecionado para a 33ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo e foi destaque no Festival do Rio em 2009.

Recorde absoluto

Tido como a grande aposta de 2010, Tropa de Elite 2 não frustrou as expectativas de crítica e público. Na sequência dirigida por José Padilha, Capitão Nascimento (Wagner Moura), o personagem mais popular do cinema nacional, larga a farda do BOPE e se transforma em Subsecretario de Inteligência do Rio de Janeiro. O êxito no combate às drogas esconde a atuação das milícias, formada por policiais corruptos que submetem a segurança pública a interesses particulares.

Sem nenhum tipo de incentivo fiscal, a produção teve um orçamento de R$ 19 milhões e um esquema de distribuição especial, para evitar a pirataria. A película já atraiu mais de 10,6 milhões de pessoas ao cinema, tornando-se o segundo filme mais visto no Brasil das últimas duas décadas, atrás apenas de Titanic, com 16 milhões de espectadores. No início de 2011, o filme terá sua estreia internacional no Sundance Film Festival, o principal festival de cinema independente nos Estados Unidos.

Fotos: divulgação

Atualizado em 6 Set 2011.

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