Guia da Semana

A suprema felicidade?

A visão do cineasta sobre as maneiras que os brasileiros demonstram sua felicidade, mesmo não sendo de forma plena

Foto: Divulgação


Sou fã de Vinícius de Moraes, mas nunca concordei com uma de suas frases mais célebres: "Tristeza não tem fim, felicidade sim". Na minha opinião, tristeza e alegria são sentimentos efêmeros de igual importância que denotam o estado de espírito de uma pessoa. A felicidade, por sua vez, é uma condição fundamental para a vida: ou você vive e, portanto, é feliz - mesmo triste ou alegre -, ou entrega a vida a uma condição de infelicidade que se assemelha à morte.

No novo longo (ops!), longa de Arnaldo Jabor, a felicidade do povo brasileiro é apresentada através de inúmeras manifestações populares: seja a anarquia do carnaval, a insanidade do artista, a doença social ou o romantismo melancólico de alguns bairros e personagens clichês do Rio de Janeiro.

Ora, Jabor sabe melhor do que ninguém que, se as pernas de Garrincha não fossem tortas, não entortariam os adversários...Jabor sabe que, se Aleijadinho não fosse aleijado, talvez não tivesse o poder de superação que o transformou num dos maiores artistas brasileiros. Jabor sabe que o brasileiro ama reconhecer em seus semelhantes o seu poder de superação: daí a eleição de Lula e Dilma (que, nesta ordem, deixaram a pobreza e os porões do DOPS para ocupar a presidência).

Jabor parece ter inveja de quem consegue conquistar as coisas na gambiarra. Para pessoas como ele, o Brasil é terra que assusta, que contém cenas fortes que deflagram injustiças, mortes, sexo, vícios e paixões. Mas agora, ele ri de tudo isso, pois sabe que essas cenas fortes estão ficando cada vez mais escassas em nosso país, graças ao crescimento econômico e desenvolvimento social que alcançamos nos últimos vinte anos. Jabor, com esse filme cheio de seios nus, apresenta o epílogo desse Brasil velho (e, consequentemente, do Cinema Velho...quer dizer, Novo) e se dá por vencido: ele diz, quase sem querer, "amigos, apesar de odiá-los e não entendê-los, eu fui feliz".

O Brasil de hoje, que tenta restringir instintos e vícios - seja através do Estatuto da Criança e do Adolescente, da Lei Seca, das leis antitabagistas ou até mesmo através da profissionalização das prostitutas, é a imagem de um país que Jabor gostaria de ter vivido a vida toda. E é tão chato quanto as suas sobrancelhas céticas. Mas, por baixo da carranca dura, mora no peito desse crítico o mesmo coração capaz de escrever o belo livro de crônicas "Amor é prosa, sexo é poesia".  Por isso, acredito que Jabor tenha saudade do Brasil que conheceu em sua adolescência. Só isso justificaria tamanha necessidade de nos mostrar a beleza que se esconde por trás de certos dramas, a ponto de exagerar nos monólogos e nos encharcar com tantas nostalgias. Afinal, ele sabe que neste país politicamente correto que está nascendo (e que de certo modo, ele ajudou a construir), não há espaço para certos amores, certos odores, certas dores rodriguianas que o tempo levou.

 

Jabor tenta entender desde pequeno a felicidade de um povo triste e subdesenvolvido e agora nos pune por ter nascido no país do cruzeiro, apresentando-nos um filme que, assim como a vida, nos incita o riso, o choro e o tédio. As cenas de melodrama fortuito passados na telona são até coerentes, pois nosso povo adora uma novela: é bagunceiro, é espalhafatoso, é debochado e falastrão. Nesse momento, reconhecemos no filme o crítico mordaz que transforma o ceticismo em um estilo de vida. Como esse povo, esse mesmo povo que batuca, se esfaqueia, se lambe, se entrega de mão beijada, pode ser assim tão feliz? Como pode o povo brasileiro fazer alguém como Jabor ser tão feliz? Se essa não é a Suprema Felicidade, eu não sei mais sobre o que esse filme fala.

Quem é o colunista:"Sou um bandido corrompido pelas paragens do bem, muito além do homem descrito como poeta".

O que faz: Escritor, jornalista e ator. Autor de nove livros e peças de teatro. Faz palestras em escolas de todo o Brasil. É apresentador do programa "Rio Cultural", da Rádio Rio de Janeiro.

Pecado gastronômico: Todos, principalmente cerveja quando sai com os amigos!

Melhor lugar do mundo: Sua casa, principalmente na hora de escrever e/ou quando os parentes e os amigos o visitam.

O que está ouvindo no carro, iPod, mp3: É muito fã de Chico Buarque. Também gosta de música clássica, ópera, rock e MPB.

Para falar com ele: jproriz@gmail.com, ou no seu site.

Atualizado em 6 Set 2011.

Compartilhe

Comentários

Outras notícias recomendadas

17 filmes para assistir no NOW durante o feriado de Carnaval

De terror a animação, confira filmes que vão te entreter nesse feriado

Logan: "filme definitivo" do Wolverine chega aos cinemas

Longa marca a despedida de Hugh Jackman do personagem que viveu por 17 anos

Um Limite Entre Nós: filme indicado ao Oscar chega ao Brasil em cima da hora

Longa traz Denzel Washington e Viola Davis em atuações singulares

13 filmes indicados ao Oscar que você pode assistir em casa agora mesmo

Do premiado “A Chegada” ao emocionante “Fogo no Mar”, veja quais são os filmes do Oscar para assistir no NOW

Confira os melhores momentos da passagem de Hugh Jackman pelo Brasil

“Silêncio”: 3 motivos para ver o novo filme de Scorsese (e 3 para pensar duas vezes)

Longa traz Andrew Garfield e Adam Driver como padres jesuítas