Guia da Semana

Anticristo apela para a violência e estética do choque

Novo longa do diretor dinamarquês revela incapacidade de aprofundar o tema da culpa católica

A experiência de assistir a Anticristo é chocante. Assim como em Dançando no Escuro e Dogville, o diretor Lars von Trier, famoso por levar os atores ao limite da estafa psicológica, parece ter o mesmo objetivo com os espectadores - submetê-los ao sofrimento. Porém, seu mais recente lançamento não apresenta o experimentalismo estético que foi o grande trunfo das produções anteriores.

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O filme também destoa da proposta do Dogma 95, um dos únicos movimentos do cinema contemporâneo, responsável por tornar o diretor conhecido internacionalmente. Longe do engajamento de revelar o real e negar os efeitos especiais, que marcaram a produção de Os Idiotas, o cineasta dinamarquês mescla cenas realistas com o uso de artifícios visuais e fotografia estetizada em Anticristo

Já no prólogo, que inicia o filme, há uma cena de sexo hiperestilizada, em preto e branco e câmera lenta, ao som da ária da ópera Rinaldo de Handel. Enquanto o casal tem a relação sexual, seu filho cai da janela do quarto e morre, gerando um processo enlouquecedor de luto e intensa culpa na mãe, interpretada por Charlotte Gainsbourg. Na tentativa de ajudar a mulher, o racional e arrogante psicanalista, vivido por Willem Dafoe, resolve forçá-la a enfrentar seus medos. Para isso, os dois vão para o Éden, casa isolada na floresta onde ela passou o último verão com o filho escrevendo sua tese sobre o feminicídio.  

A trama, rica em simbologias, é um embate entre misticismo, filosofia, história, psicanálise e cristianismo. Vale lembrar que o título do filme é o mesmo do livro em que Nietzsche realiza contundente crítica a moral cristã. No final, esta moral, a violência e a misoginia se impõem soberanas, levando a personagem a interiorizar uma espécie de natureza feminina maligna, justificativa usada historicamente para o assassinato de milhares de mulheres. O ato final do marido também reforça os valores desta sociedade preconceituosa e moralista.     

Porém, todos estes questionamentos são reduzidos no momento em que o longa adere a estética do choque gerada por um certo registro hiperbólico da violência. Durante as crises de depressão e ansiedade decorrentes do luto, a mulher usa o sexo e a violência como forma de punição. Este processo chega ao ápice quando a personagem, em transe, comete atos bárbaros, chegando a perfurar a perna do marido com uma barra de ferro e cortar o próprio clitóris. O grau de violência explícita e sadismo dessas cenas, similar ao de Jogos Mortais, fazem o filme passar do drama psicológico ao terror realista. 



O uso estetizado da violência em Anticristo torna-se bastante evidente na comparação com A Professora de Piano, de Michael Haneke, e Gritos e Sussurros, de Ingmar Bergmar, longas que também abordam a repressão sexual feminina. Em ambos, mulheres realizam mutilações genitais, mas a força das cenas não é consequência do uso do primeiríssimo plano no corte, como acredita Lars von Trier. Haneke, inclusive, discute a violência em vários de seus filmes, como é o caso de Violência Gratuita, crítica contundente ao uso indiscriminado deste recurso no audiovisual.

Para aqueles que acreditam nas declarações em que o diretor dinamarquês afirma ter realizado o longa como forma de expurgar os demônios de uma fase depressiva, a violência estremada e a sensação de caos que ronda a trama se justificam. Se a terapia funcionou, resta esperar que Lars Von Trier deixe o caminho fácil do choque e retome a linha do experimentalismo estético em suas próximas produções.

Atualizado em 14 Jan 2014.

Por Cyntia Calhado
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