Guia da Semana

Comparações

Nosso colunista analisa algumas das grandes produções de Quentin Tarantino


O que move o cinéfilo é a paixão, a paixão pelo cinema. E, como tal, esse amor pela sétima arte nos empurra muitas vezes para o acalorado debate. E nada causa mais discussão acalorada entre aficionados por cinema do que listas e comparações. Quem nunca elaborou sua lista dos dez ou cinco mais? Vale de tudo. Dos melhores filmes, atores ou diretores até listas segmentadas por gêneros como melhor terror, ficção científica ou comédia. Ou, mais específicas ainda, como lista de piores finais, cenas mais engraçadas, figurino mais estranho ou elenco mais equivocado. A inevitável discordância que listas como essas causam entre os cinéfilos é, no fundo, a graça que sustenta a validade de suas elaborações, a despeito de sua clara superficialidade e pouca utilidade.

Nessas discussões inflamadas e sempre muito divertidas, uma que sempre anima uma roda de cinéfilos é aquela que não dá margem para se ficar em cima do muro ou pensar muito, tem de ser bate-e-pronto: Truffaut ou Godard? Antonioni ou Passolini? Dzga Vertov ou Vsevolod Pudovkin? Platoon ou Apocalipse Now? O Silêncio dos Inocentes ou Seven? Indiana Jones ou De Volta Para o Futuro? Antonio Banderas ou Brad Pitt? Tenente Ripley ou Sara Connor? E, assim, vai-se ao infinito.


Dia desses me mandaram uma dessas à queima-roupa: Pulp Fiction ou Bastardos Inglórios? Qual o melhor filme de Quentin Tarantino até agora? Claro que minha resposta gerou polêmica na roda. E é a partir dela que escrevo a coluna de hoje.


Para quem ama cinema, nada melhor do que poder acompanhar a carreira de um grande diretor desde o início. E, para minha geração de cinefilia, Tarantino é um desses casos raros. Mas antes de dizer qual foi minha resposta à pergunta, quero dar uma sapecada em outros filmes do diretor, que para alguns fãs poderiam ou deveriam estar nesta disputa.


Cães de Aluguel, estreia de Tarantino, pode mexer com os brios dos mais puristas. Ali está, condensada e afiada, a essência do diretor: violência, diálogos improváveis, referências cinematográficas e roteiro com reviravoltas. Embora seja um filme marcante, do tipo que chega chutando tudo e mostrando a que veio (e a sequência em que Michael Madsen corta a orelha de Kirk Baltz ao som de Stuck In The Middle With You, dos Stealers Wheel, é exemplar e memorável), falta-lhe ainda o tempero certo, o refinamento que só o tempo daria ao diretor.


Jackie Brown, numa lista minha, ficaria nas últimas colocações, à frente somente de coisas muito ruins como Um Drink no Inferno (se bem que no caso de Um Drink... a breve aparição de Salma Hayek como Satânico Pandemonium quase faz valer o filme). Gosto muito de filmes que recriam o blaxploitation e Jackie Brown vai nessa direção. Mas o filme tem um ritmo que não me agrada e acaba sendo um pouco longo demais.


Do projeto Grind House, em parceria com Robert Rodrigues, a parte que coube a Tarantino figura entre meus favoritos do diretor. À Prova de Morte não é um filme com referências, é a própria referência em forma de filme. É nele que fica mais nítido o nível de refinamento a que chegou Tarantino. Embora seja um filme quase sem roteiro, tudo nele funciona, justamente, porque não se pretende mais do que fazer uma homenagem a um tipo de cinema B dos anos 70, o filme de perseguição de carros. Mas nas mãos do diretor, o que é só uma brincadeira vira um exemplo claro de talento, cadência e sintonia. Ainda mais quando contraposto ao outro filme do projeto, dirigido por Rodrigues, o fraco e quase nonsense Planeta Terror. Destaque para a "lap dance" protagonizada pela atriz Vanessa Ferlito. Simplesmente memorável.


Chego ao que pode ser o maior ponto de discórdia entre os apreciadores de Tarantino: Kill Bill 1 e 2. Este talvez seja o trabalho de Tarantino que mais fãs arrebatou. Adoro Kill Bill 1, que tem um ritmo mais intenso e cenas de luta impecáveis. Kill Bill 2 me parece mais cadenciado, tem os melhores diálogos e o perfeito anticlímax no embate final entre a Noiva e Bill. Mas não. Não alcança Pulp Fiction ou Bastardos Inglórios.


Bastardos Inglórios está entre as melhores experiências que tive no cinema. Da abertura - "Once upon a time in Nazi-occupied France" -, até a cena final, tudo exala cinema. As referências a John Ford e seu Rastros de Ódio, a aula de suspense aprendida com Hitchcock, o western spaghetti de Sergio Leone, a trilha sonora repleta de Ennio Morricone. Bastardos Inglórios é sublime e violento, é referência pura, bem amarrada, numa trama tão deliciosa quanto improvável. E que só Tarantino poderia proporcionar. É uma obra de arte indiscutível e poderia facilmente figurar como a obra-prima de Tarantino.

Mas...


Mas há Pulp Fiction. A disputa é acirrada, digna de gigantes, mas pendo pelo filme que definiu como nenhum outro o cinema tarantinesco. Em Pulp Fiction, tudo parece encaixar melhor - apesar de seu roteiro não-linear. Na verdade, é essa ruptura com o tempo narrativo, sua circularidade fragmentada, que mais faz funcionar o filme como um todo.
 
Tudo que há nos outros filmes de Tarantino está em Pulp Fiction, mas ali tudo é novo e tudo se desenha de uma forma nova. É como se houvesse uma perfeita simbiose entre elenco, trilha sonora, diálogos e direção. Não é o filme perfeito, porque não existe filme perfeito. Mas é um filme tão bem montado, e provocativo, e polêmico - com sua estética da violência e "glamourização" das drogas -, que é impossível não gostar tanto dele. Por isso ele é meu favorito. Por isso ele ganha de todos. Ao menos para mim.

Leia as colunas anteriores de Rogério de Moraes:

Novas invenções para o cinema

Perda Ausência e Regresso

Pelo Cinema e Pela Cultura

Quem é o colunista: gordo, ranzinza e de óculos.

O que faz: blogueiro, escritor e metido a crítico de cinema.

Pecado gastronômico: massas.

Melhor lugar do Brasil: qualquer lugar onde estejam meus livros, meus filmes, minhas músicas, meus amigos e minha namorada.

Fale com ele: rogercodegm@gmail.com ou acesse seu blog

Atualizado em 1 Dez 2011.

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