Guia da Semana

Confiança hipócrita

Nosso colunista escreve sobre o longa O Bem-Amado, em que discursos de um político corrupto são o grande destaque



Em 1962, Dias Gomes escreveu a peça Odorico, o Bem-Amado ou Os Mistérios do Amor e da Morte, que contava a história do emblemático Odorico Paraguaçu - um político corrupto, conquistador e hipócrita, porém, repleto de carisma e com um discurso capaz de deixar pessoas de queixo caído pela eloquência e confiança com que falava. Quarenta anos depois, será que a história remete aos dias de hoje? Sim, como se tivesse sido escrita em 2010.

Após duas famosas transposições para a televisão (uma novela em 1973 e uma minissérie com mesmo elenco exibida entre 1980 e 1984), O Bem-Amado - título reduzido em ambas as versões - se tornou uma das mais populares histórias de sátira e denúncia à corrupção política já feitas no Brasil.

Eis que, 26 anos depois da despedida na televisão, a história chega às telonas pelas mãos do competente diretor pernambucano Guel Arraes. Expert em histórias de humor e denúncia social, o diretor brasileiro já havia levado O Auto da Compadecida e Lisbela e o Prisioneiro ao cinema com roteiro afiado e ritmo vertiginoso.

Com O Bem Amado, que chegou aos cinemas brasileiros em 23 de julho, Arraes reconta, de forma atualizada, a história de Odorico (Marco Nanini, hilário), o político eleito da pacata cidade fictícia de Sucupira, na Bahia. As locações, entretanto, foram em Alagoas, no município de Marechal Deodoro.

Tendo como fiéis escudeiros o secretário Dirceu Borboleta (Matheus Nachtergaele) e as irmãs Dulcineia (Andréa Beltrão), Doroteia (Zezé Polessa) e Judiceia (Drica Moraes), Odorico precisa inaugurar sua primeira e única obra como novo prefeito: um cemitério. O problema é que não morre ninguém na cidade. Para solucionar o problema, ele conta com diversas artimanhas que incluem até mesmo contratar o perigoso matador Zeca Diabo (José Wilker), assassino de seu predecessor.  Nesse ínterim, tem de lidar com o jornalista Vladimir de Castro (Tonico Pereira), que sabe da corrupção de seu governo e almeja tirá-lo do poder e assumir o posto de governante.

Com roteiro de Cláudio Paiva e Arraes, responsáveis por sucessos do humor como TV Pirata e A Grande Família, o filme mantém o tom de época (os anos 60) e traça um panorama sarcástico da corrupção política entre a fictícia Sucupira e o Brasil da época de Jânio Quadros e João Goulart, prestes a cair na época do Regime Militar que assolou o Brasil por 21 anos.

As estratégias de Odorico para conseguir que um morto na cidade solidifique sua glória como prefeito trazem a marca inconfundível de Arraes, cujos filmes contêm o diálogo dinâmico, o ritmo rápido entremeado de cortes nas cenas e a ótima edição que não perde o ritmo da narrativa. E o político tem nas engraçadas irmãs Cajazeiras três mulheres que sonham em ser a primeira dama da cidade, seja na romântica Dulcineia, na resguardada Doroteia ou na espevitada Judiceia, a libidinosa, alcoólatra e mais nova do trio.

Com os neologismos do seu inigualável vocabulário, Odorico não fala, discursa. É o típico político que faz uso das palavras para conquistar a todos, sem exceção. E cria expressões enfeitadas para impressionar, como "mal-caratistas", "emboramente", "construimento" e "sigilento". Quem não entende, claro, fica boquiaberto com a "inteligência" do prefeito. E ele segue ganhando fama e inimigos no caminhar da carruagem.

Além disso, o filme traz outros personagens curiosos, como o bêbado Chico Moleza (Edmilson Barros) e o cético jornalista Neco (Caio Blat), que se apaixona pela doce e ousada Violeta (Maria Flor) - filha de Odorico que estuda na capital. Neco e Violeta representam, inclusive, a juventude que, mesmo com a revolução sexual e cultural da época, não deixam o cunho político de lado. A ideia não chega a ser aprofundada e mostra o povo de Sucupira por meio do bêbado Molenga, único que não é próximo de Odorico, ou seja, uma referência ao povo submisso, volátil e enganado, já que se torna coveiro do cemitério que nunca recebe seu salário.

José Wilker, que tem curta participação como o temido Zeca Diabo, mostra um personagem sombrio, de voz imponente, olhar fixo, mas ao mesmo tempo, o herói que o povo precisa para fazer a justiça necessária que políticos e forças armadas despreparadas são incapazes de prover.

Leia  as colunas anteriores de Leonardo Freitas:

Para todas as idades

De encher olhos e coração

50 anos de cinema

Quem é o colunista: Um jornalista aficionado por cinema de A a Z.

O que faz: Dono do blog Dial M For Movies.

Pecado gastronômico: Lasanha.

Melhor lugar do Brasil: Qualquer lugar, desde que eu esteja com meus amigos.

Para Falar com ele: leonardo.g.freitas@gmail.com

Atualizado em 6 Set 2011.

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