Guia da Semana

"Depressão em tela grande"

Foi dessa maneira que a diretora do filme Como Esquecer definiu o longa, que mostra diferentes caminhos para lidar com o sofrimento das perdas

Foto: Divulgação

Ana Paula Arósio, como Júlia, e Arieta Corrêa, na pele de Helena, formaram um dos casais homossexuais do filme Como Esquecer

Sem a menor intenção de fazer parte das listas de filmes de auto-ajuda , Como Esquecer é o verdadeiro reflexo dos diversos modos humanos de encarar a dor da perda. É uma trama densa e instigante, que expõe pessoas comuns enfrentando os desafios de superar as feridas do passado e tentando encontrar uma nova chance de felicidade. Porém, quem pensa que vai encontrar a fórmula para ultrapassar da melhor maneira seus sofrimentos, engana-se. A proposta do filme é uma reflexão sobre o tema.

Pelo menos, foi essa a intenção da diretora Malu Di Martino ao costurar as histórias dos personagens centrais. Ela já tem história no cinema nacional, mas Como esquecer - que estreou no último dia 15 - é o seu primeiro longa de ficção. Até então, Malu tinha feito os médias-metragens Ismael e Adalgisa e Sexualidade, com linguagem mais documentária, e o longa Mulheres do Brasil, que ainda conservou resquícios desse estilo cinematográfico.

Casting de primeira

O longa traz Ana Paula Arósio e Murilo Rosa interpretando dois amigos, Júlia e Hugo, que tentam reconstruir suas vidas após perderem seus amores. Ela é uma professora universitária de literatura inglesa, que sofre intensamente após o fim do seu relacionamento de dez anos com sua namorada, Antônia, o que a torna uma pessoa fria e ácida. Ele é ator e tenta recuperar-se, sempre optando pelo otimismo, da morte do seu namorado, Pedro.

Ambos os personagens são homossexuais, mas isso aparece apenas como pano de fundo da trama, sem influenciar nenhum viés. O filme ainda mostra as desventuras de Lisa, vivida por Natália Lage, ao ser abandonada grávida pelo namorado. Arieta Corrêa e Bianca Comparato também estão no elenco. Elas são as únicas que não sofrem por alguém e oferecem um tempero a mais na história.

Foto: Divulgação

Ana Paula Arósio, Murilo Rosa e Natália Lage são os protagonistas do filme, que acabam se unindo na trama pelas perdas que cada um sofreu

Versão de quem fez

A diretora Malu Di Martino conversou com o Guia da Semana e elucidou os principais pontos altos do filme, assim como falou também sobre a produção de Como Esquecer.

Guia da Semana: Como foi a construção do enredo de Como Esquecer?
Malu: O filme é baseado no livro Como Esquecer - Anotações quase inglesas, de Myriam Campello. Ganhei a obra há quatro anos de uma amiga, que ao me presentear, afirmou que o livro daria um filme. O mote da história é exatamente o mesmo, apenas condensei alguns personagens em um só e outros eu mudei pequenas características; mas foram só detalhes para transformar em linguagem cinematográfica.

Guia da Semana: A orientação sexual dos protagonistas fica de plano de fundo para o sofrimento que eles estão passando. Sua intenção era realmente mostrar que todas as relações amorosas possuem as mesmas características?
Malu: No livro, os personagens são homossexuais e não vi motivos de alterar isso ao transformar a obra em filme, até porque esses sentimentos são iguais para qualquer adulto. Em momento algum nós nos preocupamos com a orientação sexual dos personagens.

Guia da Semana: A maioria dos filmes do gênero propõe um novo amor como a 'cura' para o sofrimento amoroso. Outro diferencial de Como Esquecer é que ele não possui essa abordagem e fala justamente do período após a perda. Qual a razão desse viés?
Malu: Júlia, a personagem de Ana Paula, faz a difícil - e muito madura - escolha de não transferir para outra pessoa a responsabilidade do seu sofrimento interno. Acho que é importante esperar passar essa fase sozinha para não jogar expectativas em cima dos outros e acabar criando mais mágoas.

Guia da Semana: A amizade, retratada de maneira muito poética, é uma das veias condutoras do filme. Como foi a construção dessa relação entre Júlia e Hugo?
Malu: Um dos pontos fortes do filme, em minha opinião, é a amizade. Isso porque, mesmo que você escolha não transferir seu sofrimento para outra pessoa, são seus amigos que vão ajudar-lhe na hora de ultrapassar essa diversidade. Eles têm paciência de aguentar tudo, sem cobrar nada, simplesmente pela compaixão inerente à amizade. Construir essa relação entre Ana Paula e Murilo foi muito prazerosa, pois ambos estabeleceram uma relação de apoio, carinho e cumplicidade até mesmo fora de cena.   

Foto: Divulgação

A diretora Malu Di Martino acompanhou de perto cada etapa da produção do filme Como Esquecer, desde a costura do enredo, a estruturação dos personagens nos ensaios até cada take da gravação

Guia da Semana: Como era o clima das gravações? A atmosfera de tristeza que permeia o filme em nada afetou o humor da equipe?
Malu: Como ficamos ensaiando por um mês e meio - 30 dias no estúdio e 15 na casa que locava as gravações -, por pelo menos oito horas diárias, criamos intimidade, afinidade e confiança de uma maneira muito intensa. Isso foi essencial para a composição dos personagens e das cenas, que são muito importantes no cinema.

Guia da Semana: De onde veio a inspiração da trilha sonora de Como Esquecer?
Malu: Eu adoro música e tinha algumas que considerava extremamente essenciais para o filme, mas, que por serem de grandes intérpretes, seriam meio inviáveis financeiramente. Esse foi o maior empecilho colocado pela produtora Elisa Tolomelli, mas que conseguimos driblar pedindo auxílio e algumas isenções para as gravadoras. Destaco as músicas Retrato em Branco e Preto, de Elis Regina, e Coming Home, de K. D. Lang, por traduzirem exatamente o que estava passando pela cabeça e pela alma da personagem naquele momento. Há também a bela trilha sonora oficial criada por Bia Paes Leme.

Guia da Semana: Como foi dirigir Ana Paula Arósio e Murilo Rosa em papéis que fogem do estereótipo que eles estão acostumados a fazer?
Malu: Para eles foi um desafio, aliás, desafio é a melhor coisa que pode acontecer na vida de um ator. Eles são camaleões e quanto mais diferentes forem os personagens de suas outras atuações, melhores eles se sentem. Os sofrimentos que eles precisaram passar em cena foram muito fortes, mas não senti nenhuma dificuldade por parte deles. Já tinha trabalhado com Murilo no meu primeiro filme e adorei trabalhar, pela primeira vez, com Ana Paula. Nem nos meus melhores sonhos imaginei trabalhar com uma atriz à altura dela, pois Ana mergulha por completo no universo do personagem.

Guia da Semana: E para você, como esquecer a pessoa amada após um final sofrido de relacionamento?
Malu: Eu não tenho essa fórmula. (risos) Tampouco o filme propõe isso. Essa questão é muito pessoal e o Como Esquecer mostra esse dilema de maneira clara, pois temos três personagens lidando com a perda, e cada um, de uma maneira diferente. O que propomos é uma reflexão sobre esse sentimento, que todo mundo já passou ou ainda vai passar.


Atualizado em 10 Abr 2012.

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