Guia da Semana

Destaque de 2009

Zack Snyder fala de seus trabalho e mais recente, lançado no início de 2009, Wathcmen

De Los Angeles


Embora não seja unanimidade entre os críticos, os aficionados por histórias em quadrinhos e cinema têm um ditado quando assunto é adaptar grandes títulos para o cinema: In Snyder We Trust (Confiamos em Snyder). A frase foi retirada da nota de um dólar - In God we Trust - e se refere ao diretor Zack Snyder, que segue numa carreira meteórica depois de refilmar Madrugada dos Mortos, de George Romero, e de encarar o desafio de levar 300, de Frank Miller para o cinema. Snyder é o homem responsável pela até então impossível tarefa de transformar Watchmen, de Alan Moore, em filme. Apaixonado assumido e considerado uma "enciclopédia" para os atores com quem trabalha, o diretor parece ter acertado a mão, novamente, com Watchmen.

Zack Snyder conversou com o correspondente Fábio Barreto e falou sobre seu novo filme, a pressão dos fãs e, claro, sobre o momento atual dos quadrinhos no cinema. Confira!

Fábio Barreto: Por quê demorou tanto para Watchmen ser adaptado?
Zack Snyder :
Watchmen levou 20 anos para achar seu lugar no universo, eu acho. Esse trabalho é tão relevante que pudemos dizer que é "a graphic novel mais celebrada de todos os tempos" no trailer. Quem vai dizer o contrário? (risos)

Há muitos desafios envolvendo um filme desse porte?
Zack Snyder :
É conceitualmente difícil fazer algo assim. Ainda bem que não precisei escrever e vender a ideia para o estúdio. Eles tinham tudo na mão e me ligaram perguntando se queira transformar aquilo num filme. Em princípio eu achei melhor não, mas era impossível recusar o convite agora que me convidaram. Quando recebi o roteiro logo de cara perguntei: "onde está Nixon? Cadê 85?" Tive que lutar por esse tipo de coisa. Mas aí é que ficou interessante, pois não havia pressa nesse projeto, por isso consegui conquistando cada alteração aos poucos. Tenho certeza de que se tivesse mostrado o roteiro que eu queria filmar logo de cara, eles teriam dito não e cancelariam tudo!

Por que nunca deu certo antes?
Zack Snyder :
Várias razões pelo que eu sei. Por exemplo, a versão da Paramount estava pronta para começar a filmar com a versão do Paul Greengrass. Eles pararam tudo por conta da mudança de regime político. Há uma questão de evolução e timing nisso tudo. Dá para imaginar esse filme sendo feito há 20 anos? Não soa muito bem. No fim das contas, é uma história de época, mas precisa de distanciamento para poder imaginar Richard Nixon como presidente e como teria sido o aparecimento dos superseres policiando o mundo. É algo muito diferente. Na verdade, o público de cinema precisava ser educado para algo como Watchmen. Se a adaptação tivesse acontecido em 1985 o resultado seria qualquer coisa menos um exercício intelectual.

Mas o que aconteceu com Hollywood? Você?
Zack Snyder :
Não, de jeito nenhum. Na verdade, foram 20 anos de filmes adaptados dos quadrinhos para chegar até esse ponto. E agora sabemos que esse é o tipo de cinema que dá dinheiro. Hoje há uma cultura treinada para compreender esse gênero, então de tempos em tempos eles sabem que um novo herói com novos problemas (previsíveis, na maioria das vezes) vai chegar às telas. Mas eles sabem que tudo isso pode ajudar a compreender melhor o nosso mundo. Entretanto, Watchmen enfrenta uma situação diferente, pois tudo que o público aprendeu durante esse tempo todo sobre superheróis parecia informação inútil, mas agora esses conceitos podem ser aplicados quando se assiste ao filme. Tudo que Batman e Super-Homem fazem, como reagem e etc. Esse tipo de pergunta não é respondida rapidamente na graphic novel. Há tempo para pensar e, mais importante, Watchmen levanta mais questões morais. Tudo é muito mais maduro e literariamente evoluído nesse material, o que destoa do monte de respostas prontas que muita gente costuma entregar para resolver os roteiros.

Tem lido muitos quadrinhos?
Zack Snyder :
Estou fazendo três filmes ao mesmo tempo. Não dá pra ler muito. Preciso rever meus conceitos. (risos)

300 atraiu muitas críticas e Watchmen, mesmo antes de estrear, já está provocando bastante controvérsia. Está pronto para a porrada?
Zack Snyder :
Estou pronto sim. E gosto. Especialmente no caso da fantasia do Ozymandias, que as pessoas estão comparando à roupa do Batman de Joel Schumacher, pois tem mamilos. É, eu sei disso! Mas o que você acha que isso significa? Não acha que há algo a ser dito ali? A relação entre cinema e quadrinhos não é gratuita, nada acontece de repente. Tivemos inúmeros conceitos até chegar na versão final e sempre temos em mente que precisa passar a mensagem que queremos. Então, podem reclamar e debater. É isso que eu quero. É a mesma coisa que aconteceu quando muita gente acusou 300 de ser anti-iraniano. Bom, para isso não há solução, mas acho que posso esclarecer o "problema do mamilo".

Você está brincando de Deus? (risos)
Zack Snyder :
Não, não estou. (risos) É que críticos têm esse hábito de achar que não devemos fazer algumas coisas. Ouvi que eu era maluco ao refilmar Madrugada dos Mortos, afinal, era George Romero; depois veio Frank Miller, e fui chamado de alucinado novamente; agora vem Watchmen. É tudo muito doido.

Você se considera um nerd?
Zack Snyder :
Gosto de Guerra nas Estrelas? Gosto! Posso citar quase todas cenas de Guerra nas Estrelas sem pensar muito? Posso! Será que sou nerd? Você me diz! (gargalhadas)

O visual parece ser muito complexo. Qual o segredo para recriar tudo aquilo sem mudanças significativas?
Zack Snyder :
Tudo é muito orgânico, no sentido de parecer de verdade. Pense na Owl Ship, no design da nave, ela parece real. Algumas coisas viram fetiche para os fãs e o povo pira. Quer um exemplo? O esconderijo do Night Owl estar numa estação de metro abandonada! Dá para pirar só com a idéia! É bacana demais!

Trabalhou muito com previews?
Zack Snyder :
Sim, bastante. Isso ajuda a visualizar a transição. Fiz mais de dois mil desenhos para 300, por exemplo.

O conceito atômico ainda faz sentido no mundo atual?
Zack Snyder :
Não, ele é real. A ideia de aniquilação global ainda está por aí. Pode servir como metáfora para muita coisa que acontece no mundo de hoje. E o objetivo é fazer com que as pessoas pensem nisso.


Quem é o colunista: Fábio M. Barreto adora escrever, não dispensa uma noitada na frente do vídeo game e é apaixonado pela filha, Ariel. Entre suas esquisitices prediletas está o fanatismo por Guerra nas Estrelas e uma medalha de ouro como Campeão Paulista Universitário de Arco e Flecha.

O que faz: Jornalista profissional há 12 anos, correspondente internacional em Los Angeles, crítico de cinema e vivendo o grande sonho de cobrir o mundo do entretenimento em Hollywood.

Pecado gastronômico: Morango com Creme de Leite! Diretamente do Olimpo!

Melhor lugar do Brasil: There´s no place like home. Onde quer que seja, nosso lar é sempre o melhor lugar.

Atualizado em 6 Set 2011.

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