Guia da Semana

Encher os Olhos

Já elaborou sua listinha de melhores filmes de 2009? Colunista fez a sua, mas afirma que não é preciso fazer uma lista, pois filme bom é filme que a pessoa gosta. E pronto!



Chega o fim de ano e todos começam a elaborar suas listas de melhores do ano. Há listas para todos os gostos, desde filmes em geral até de gêneros específicos. Particularmente, não gosto muito de elaborar listas. Cansa-me fazê-lo, dá muito trabalho pensar, lembrar, pôr em ordem. E eu sou, como já se sabe, um preguiçoso assumido.

No fim de tudo, filme bom é filme que a gente gosta e pronto. Sem pensar muito. O que vale é o filme encher os olhos. Falo daqueles filmes que nos tomam a retina, que a deixam úmida ou seca, que dilatam a vista e o coração. São filmes que nos deixam plenos de algum sentimento. E qualquer sentimento vale, desde que seja cheio. Claro que há aqui um certo reducionismo, mas como aqui ele serve aos meus interesses, deixemo-lo de lado.

Neste ano de 2009 vi cinco filmes que me encheram os olhos, que me inflaram de sentimento, que ficaram se repetindo diante de mim; suas cenas, suas emoções. Assim, meio sem querer, acabo por eleger meu top 5 de 2009. Não sob a ótica de melhor ou pior, muito menos em medidas de ordem e escala. Talvez não estejam entre os melhores do ano nas listas que estouram por aí, mas estão na minha. Sempre estarão. Eis meus cinco:

Bem-Vindo (Welcome), de Philippe Lioret, conta a história de um jovem iraquiano que vai a pé desde seu país até a França, para entrar clandestinamente na Inglaterra. Depois de tentativas frustradas através de navios de carga, resolve tentar ir a nado, atravessando o Canal da Mancha. Tudo isso para reencontrar a namorada. É então que ele é ajudado por um professor de natação francês, que se solidariza com seu empenho em rever o amor de sua vida. O filme enche os olhos pela forma como constrói aos tropeços, entre avanços e recuos, a amizade e a solidariedade entre ambos, sempre de uma maneira arredia. Um por estar desobedecendo a lei ao ajudar um imigrante ilegal, o outro pela natural desconfiança. É emocionante quando o professor admite sua admiração pelo rapaz, ao perceber que o jovem atravessou milhares de quilômetros a pé para buscar a namorada, enquanto ele, ao ser abandonado pela esposa, por quem ainda é apaixonado, não teve coragem nem de atravessar a rua para trazê-la de volta. E tem o mar. Sua grandiosidade, seu imenso desafio. O mar, como a imensidão engolidora de sonhos inalcançáveis.

O Lutador (The Wrestler), de Darren Aronofsky. Muito se falou do retorno de Mickey Rourke com este filme que beirava sua biografia, tamanha ralação entre a vida real do ator e a vida do personagem que interpreta. Mas isso é pouco. O Lutador enche os olhos pela derrocada irreparável que o tempo e a vida muitas vezes nos reserva. Enche os olhos pela tristeza do olhar de Randy tentando se reconciliar com a filha que o despreza. Enche os olhos pela total ausência de perspectiva dele e de seu mundo, de seu universo e daqueles que o cercam. A melancolia que reverbera em todo o filme faz-nos plenos desse sentimento de desabafo, especialmente quando Randy, antes de entrar no ringue para aquela que pode ser sua última luta, diz: aquele é o único lugar no mundo onde não me machucam. A vida bateu duro em Randy e isso está visível em cada traço de seu rosto, porque quem o interpreta também apanhou demais da vida. E esta simbiose anacrônica é mesmo de encher os olhos.

Feliz Natal, de Selton Melo talvez não seja exatamente de 2009, mas estava ainda em cartaz quando o vi em janeiro último. Por isso vale para a lista. Difícil descrever o rio de coisas que calam em Feliz Natal. Calam, porque não são ditas, mas de tão palpáveis que surgem na tela, na história, quase se pode senti-las, quase se pode dizê-las. Depois de muitos anos ausente, Caio retorna à casa da família para passar a noite de natal. A decadência, o desequilíbrio mal dissimulado das relações apodrecidas entre irmãos, pais e filhos, preenche os silêncios do filme, transbordam nos diálogos oblíquos, então presentes no cinismo dos que seguem vazios, embora se julguem plenos. É um filme que enche os olhos pela fotografia morna da noite de natal, pela tristeza inerente ao protagonista, por seu deslocamento no mundo e na família. Para uma estreia como diretor, Selton Melo se revela profundamente amargo e a forma como nos desvela essa amargura em seus personagem é também de encher os olhos.

À Deriva, de Heitor Dhália. O que enche os olhos no terceiro filme de Dhália é sua evolução como diretor. Se em Nina ele estava cru e em O Cheiro do Ralo faltou-lhe refinamento, em À Deriva ele nos enche os olhos com uma fotografia de textura intensa, que serve à perfeição para representar o rebuliço à flor da pele de Filipa, uma adolescente em plena fase de transição, tendo de lidar com os hormônios e o fim do casamento dos pais. Tudo isso em plenas férias de verão em Búzios, nos anos 80. O desalinho crescente do mundo de Filipa, interpretada com grande intensidade pela estreante Laura Neiva, é mostrado de forma sublime pelo diretor. Da ironia áspera à ruptura irreparável de uma relação e de uma família, vemos Filipa e suas angústias, suas reações desconcertadas, tão comuns em qualquer juventude sem norte. É de encher os olhos ver o crescente disso tudo, através de uma fotografia e de um cadenciamento narrativo irretocável.

Wall-E. Quem me conhece sabe que não sou fã de animações. Claro que as vejo quando posso, porque sei que todas são engraçadas, divertidas e um ótimo meio de se ver a evolução dos recursos digitais de animação. Mas sempre as coloco no fim das minhas listas de prioridades. Por isso, quase sempre as vejo em DVD. E qual a razão dessa minha má vontade? Fórmula é a resposta. Quase todas as animações dos últimos anos usam uma fórmula (muito boa, admito), que diverte e faz rir sempre. Mas são fórmulas e fórmulas me cansam facilmente. Não com Wall-E. Ousado é o mínimo que se pode dizer desta animação da Pixar. Foge à fórmula, pois em boa parte de sua duração não há diálogos e muito pouca ação. E é justamente isso o que enche os olhos. Wall-E é um personagem "chapliniano", cômico e terno em sua solidão. Descobre o amor, encanta-se, dedica-se, entrega-se inteiro. A ousadia da Pixar em criar um personagem assim, em cujo silêncio repousa sua graça - manifesta por gestos, expressões e atitudes - sem dúvida enche os olhos até de quem torce o nariz para animações.

Agora é esperar a nova safra de cinema em 2010 e torcer por bons filmes. Bom ano e bons filmes a todos.

Quem é o colunista: gordo, ranzinza e de óculos.

O que faz: blogueiro, escritor e metido a crítico de cinema.

Pecado gastronômico: massas.

Melhor lugar do Brasil: qualquer lugar onde estejam meus livros, meus filmes, minhas músicas, meus amigos e minha namorada.

Fale com ele: rogercodegm@gmail.com ou acesse seu blog

Atualizado em 10 Abr 2012.

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