Guia da Semana

Está no sangue

Documentário de Eryk Rocha mostra acontecimentos da Tríplice Fronteira, formada pelo Brasil, Bolívia e Peru

Foto: wikipedia.org

Dizem que "filho de peixe, peixinho é". O cineasta Eryk Rocha é uma grande prova viva disso, pois tem nos genes o talento e preocupação social do pai, o mito Glauber Rocha, principal expoente do Cinema Novo nos anos 60. Claro que os tempos são outros, o contexto social mudou em muitos aspectos. Porém, muitos problemas permanecem estagnados no Brasil e no mundo.

Em seu terceiro longa, o diretor de Rocha que Voa (2002) e Intervalo Clandestino (2006) parece ter tentado escapar do conceito que pregava Rocha-pai e partiu com a câmera na mão, porém sem nenhuma ideia na cabeça. A princípio é isso que observamos quando assistimos Pachamama, documentário que tem Rocha-filho como diretor, diretor de fotografia e condutor da câmera na mão. E a câmera na mão em sua busca trouxe a ideia à cabeça de Eryk. 

Ao cruzar o Brasil rumo à Bolívia e ao Peru, o objetivo de Eryk era justamente desvendar o que acontece na Tríplice Fronteira formada pelos dois países junto com o Brasil. Em 2007, sem roteiro e com uma curiosidade político-social que, segundo sua narração no prólogo, busca "trajetos, encontros, acasos, debates, aprendizagem, expectativas e pensamentos", o diretor de 32 anos construiu um filme preciso sobre um assunto que possui tantas vertentes e poderia se perder em seu próprio contexto. Conseguiu manter a linha de pensamento e concebeu Pachamama.

Começando pelo Peru, Eryk percorre vilarejos como Puerto Maldonado, Mazuko, Cuzco e Ccatcca, discutindo a independência do Peru pelos espanhóis e a exploração desses europeus na época da colonização. O processo aconteceu de forma muito similar com a Bolívia, com uma revolta da população atual devido à fome, aos processos sociais e econômicos e, especialmente, à ilegalidade da produção de coca, que emprega muitos peruanos e bolivianos.

O produto, usado pelos trabalhadores, é mascado, dando disposição e tirando o sono e a fome, o que ajuda no trabalho pesado nas minas de ambos os países, além de ser utilizado como planta medicinal e objeto de adoração aos deuses da cultura indígena daqueles países. E é daí em diante que surge o ponto crucial de Pachamama: os movimentos sociais indígenas e a luta que se transformou em uma espécie de guerra civil, especialmente na Bolívia.

Passando pela capital La Paz e províncias como El Alto, Cerro Rico de Potosí e Santa Cruz de La Sierra, Eryk vai descobrindo na Bolívia uma busca pelo resgate da identidade indígena, uma ânsia de liberdade, de recuperação da raça frente às comunidades nativas, que querem um reino inca, como antigamente.

Porém, a questão é complexa, com diferenças étnicas, econômicas e sociais - como é o caso da próspera Santa Cruz de La Sierra - ao mostrar um país heterogêneo visto com maus olhos pelos nativos, que veem no presidente Evo Morales um líder que busca implementar um socialismo ditatorial, comparado pelos cidadãos ao regime cubano dos irmãos Fidel e Raul Castro. 

Porém, é curioso - e animador - observar dois países em que o povo entende sua política interna (e externa). A crítica ao imperialismo dos EUA, como era de se esperar, não demora a emergir em Pachamama, quando o presidente boliviano critica o fato de a plantação de coca ser proibida no país, enquanto a norte-americana Coca-Cola apropria-se legalmente desta matéria-prima. E nessa discussão de política, direitos e luta social - especialmente a reforma agrária - Eryk Rocha traz planos de câmera ousados, experimentais, com momentos eficientes e propícios. Alternando silêncios, sons ambiente e músicas locais, o filme é uma miscelânea de imagens de costumes, etnias e pensamentos, não desperdiçando os momentos de beleza e contemplação tanto do povo como das paisagens naturais.

Em tempo, o título do documentário refere-se à Pacha Mama, deusa ligada à produção, à terra, àquela que dá o alimento necessário à sobrevivência. Em um filme de final melancólico, porém esperançoso, Pachamama desvenda uma parte de duas nações tão próximas do Brasil, mas, paradoxalmente, tão iguais e tão diferentes em seus aspectos e em sua busca pela própria identidade.

Leia as colunas anteriores de Leonardo Freitas:

Elas fazem o show

Cinema iraniano
 
Alguém que fez história

Quem é o colunista: Um jornalista aficionado por cinema de A a Z.

O que faz: Dono do blog Dial M For Movies.

Pecado gastronômico: Lasanha.

Melhor lugar do Brasil: Qualquer lugar, desde que eu esteja com meus amigos.

Para Falar com ele: leonardo.g.freitas@gmail.com

Atualizado em 6 Set 2011.

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