Guia da Semana

Fé em xeque

Uma das obras primas de Bergman reflete questionamentos religiosos do diretor



De 1956, O Sétimo Selo é baseado na peça O Retábulo da Peste, que Ingmar Bergman escreveu para seus alunos da Escola de Teatro de Malmö. O longa, filmado em 35 dias, acompanha a trajetória do cavaleiro Antonius, que acaba de voltar das Cruzadas com seu escudeiro, e é surpreendido pela figura da Morte. Diante da notícia que irá morrer, o protagonista propõe que seu destino seja decidido em uma partida de xadrez.

Este prolongamento da vida faz com que o personagem resolva fazer uma última boa ação - ajudar um casal de atores - ao mesmo tempo em que ele entra em um processo de dúvidas, incertezas e angústia sobre a fé e Deus. Afinal, ele matou em nome do catolicismo, mas vê as injustiças cometidas pela Inquisição, a Europa assolada pela peste negra e pela fome e um fanatismo religioso extremamente destrutivo. Como poderia existir Deus em tal cenário?

No livro Imagens, o diretor reconhece que O Sétimo Selo está impregnado de suas concepções religiosas em diferentes períodos da vida. Os questionamentos do protagonista são reflexos de Bergman que, como filho de pastor luterano, teve uma educação muito rígida, marcada por visitas frequentes à igreja e pelos sentimentos de culpa, pecado, castigo, perdão, confissão e indulgência.

Antonius carrega resquícios da fé infantil de Bergman, que podem ser observados por seu o hábito de rezar e de se confessar, o medo da morte e a crença em uma vida para além deste mundo. Mas, ao mesmo tempo, o personagem busca o conhecimento como forma de se libertar dos dogmas religiosos, como a existência de Deus, que ele tanto coloca em dúvida. O cavaleiro tem como antagonista Jons, seu escudeiro, personagem extremamente racional, que não acredita em nada além da vida na Terra. 

A proposta do jogo de xadrez não é casual, ela reforça a tentativa do personagem de se livrar da lógica do misticismo. Além de suas peças serem alegorias da estratificação da sociedade medieval, o resultado de uma partida de xadrez depende exclusivamente da habilidade dos jogadores. Trata-se, portanto, de um jogo que exalta o livre-arbítrio, e não o acaso ou destino, como os dados. Já a construção desmistificada da personagem da Morte, um homem com o rosto pintado de branco - como o de um palhaço - que conversa e até fazia brincadeiras, é uma tentativa de combater as representações religiosas da figura com ironia.

A família dos atores Jof e Mia representam a ideia de que o homem é um ser sagrado, que o diretor afirma ser seu conceito de religiosidade na maturidade. Com uma certa inocência e alegria infantis, eles divertem o público do vilarejo, cantam, dançam e brincam. A cena em que os personagens comem morangos silvestres e leite é emblemática, pois demonstra a fascinação do cavaleiro com aquela vida simples e sem preocupações que vivem os artistas. Não por acaso, eles são os únicos que sobrevivem. Talvez seja o tipo de concepção de vida que Bergman gostaria que prevalecesse no mundo. 

Uma das sequencias mais marcantes de O Sétimo Selo, que se tornou célebre, é a que os personagens são conduzidos pela Morte em uma dança. Curiosamente, ela não foi realizada pelos atores, que já haviam ido embora quando Bergman decidiu chamar assistentes de produção e turistas para realizar a cena, aproveitando o formato das nuvens no céu. A dança final pode ser interpretada como a conscientização dos personagens em relação à morte, pois, se não houver nada depois da vida, deve-se celebrar este último instante, mas caso exista, não há porque temer, por isso eles abandonam o medo e vão felizes ao encontro deste lugar misterioso. 

Leia as colunas anteriores de Cyntia Calhado:

O cinema brasileiro no Divã

Che embrulhado para presente

Filme pasteuriza a cultura indiana

Quem é a colunista: Jornalista e cinéfila Cyntia Calhado.

O que faz: Repórter do Guia da Semana.

Pecado gastronômico: Pizza, chocolate, açaí...

Melhor lugar do Brasil: Onde se tem paz.

Melhor filme que já assistiu até hoje: Como é impossível escolher um, fico com a obra dos diretores Pedro Almodóvar e Eric Rohmer

Para falar com ela: cyntia.calhado@gmail.com ou acesse seu blog  ou site

Atualizado em 6 Set 2011.

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