Guia da Semana

Filme B

Um pouco atrasado, À Prova de Morte estreou no Brasil e nosso colunista escreve a respeito


Com três anos de atraso, estreou no Brasil em 16 de julho À Prova de Morte, de Quentin Tarantino. O filme fez parte do projeto Grindhouse, que Tarantino realizou em parceria com o diretor mexicano Robert Rodriguez. Grindhouse era como se chamavam a sessões duplas de cinema nos anos 70, nos Estados Unidos. Exibidas em cinemas baratos, apresentavam sempre dois longas em sequência que, invariavelmente, eram filmes B, de baixo orçamento, gosto duvidoso e que faziam a alegria de jovens da época.

Há alguns anos, Tarantino e Rodriguez se juntaram para homenagear essas sessões e o tipo de filme que apresentavam. Cada um escreveu e dirigiu um nos moldes grindhouse, que pretendiam lançar em cópias únicas. Para serem fiéis ao que pretendiam homenagear, filmaram inclusive trailers de produções falsas, que seriam exibidas entre os filmes (um desses trailers fez tanto sucesso que, ao que tudo indica, vai mesmo virar um longa). Contudo, por diversas questões, no final Tarantino e Rodriguez optaram por lançar os dois trabalhos do projeto separados. Robert Rodriguez lançou Planeta Terror e Tarantino À Prova de Morte.

Já tive a oportunidade de assistir a ambos duas vezes. Planeta Terror é um filme que abusa do nonsense ao investir no filme de zumbis. Escatológico, absurdo e exagerado é o mínimo que se pode dizer dele. Não que não seja divertido (ao menos para os fãs do gênero, ainda que, mesmo dentre esses, muitos desgostem do filme), mas quando comparado com À Prova de Morte, fica simplesmente abaixo da crítica.

O que ainda falta em Rodriguez e sobra em Tarantino quando o assunto é referência "B" pode ser explicado em uma única palavra: elegância. Enquanto que no lado típico de Grindhouse Rodriguez simplesmente empilha referências sem muito critério e com exagerado desleixo, Tarantino pega o fino do gênero, condensa e talha a sua imagem, e nos entrega uma obra irretocável.

O diretor do insuperável Pulp Fiction investe no filme de perseguição dos anos 70, com os carrões envenenados, os muscle cars e seus motores possantes e beberrões, que foram um símbolo de uma época. Mulheres sensuais com shorts jeans, a figura do dublê de filme de ação e seu carro adaptado, está tudo lá. Mas ao contrário de Rodriguez, Tarantino amarra todos os elementos de forma elegante, cadenciada, exibindo seu virtuosismo na construção de diálogos e no controle da tensão.

Na história, Kurt Russel interpreta um dublê de filmes de ação que tem um carro que ele classifica como à prova de morte, pois foi modificado para suportar todo tipo de provação. Num bar de beira de estrada, ele trava diálogos com um grupo de garotas. O que elas não desconfiam é do que há por trás daquele sujeito estranho, que carrega uma grande cicatriz no rosto, e quais são suas intenções.

À Prova de Morte, como o tipo de filme que homenageia, não possui um roteiro elaborado nem grandes reviravoltas na trama. Mas é exatamente sua simplicidade e a maneira como ela é trabalhada por um gênio como Tarantino que faz dele um filme acima da média.

Naturalmente, é preciso um pouco de cultura de filmes B para apreciá-lo e compreendê-lo dentro da gênese a que se propõe. Assim como os requintes de "originalidade" que ele exibe, na intenção de se aproximar dos filmes a que faz referência. Como os "defeitos especiais" que apresenta, imitando os rolos de filmes desgastados e mal conservados da época das grindhouses: riscos na tela, trechos do rolo faltando, som irregular. Tudo para dar o tom certo.

À Prova de Morte condensa todos esses elementos sem nunca perder a medida certa. O faz com equilíbrio e bom gosto, sem também se perder do objetivo, ou seja, sem nunca deixar de parecer um autêntico filme do gênero e da época. Talvez não agrade a todos, especialmente aos não-iniciados nos típicos filmes B dos anos 70. Mas é um filme que ilustra com perfeição o cinema de Tarantino, que retira o suprassumo de um tipo de cinema dito "ruim" e o transforma em obra refinada, sem deixar a simplicidade de lado, mas exibindo sempre um tremendo bom gosto e um incrível domínio da tensão. Vale, como sempre em seus filmes, destaque para a trilha sonora, além da imperdível sequência da lap dance com a atriz Vanessa Ferlito.

Leia as colunas anteriores de Rogério de Moraes:

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Atualizado em 6 Set 2011.

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