Guia da Semana

Filme pasteuriza cultura indiana

Quem Quer Ser Um Milionário? transforma Índia em cenário exótico e palatável para público ocidental


Desculpem-me os entusiastas de Quem Quer Ser Um Milionário?, mas esta crítica não é elogiosa. O filme, como se sabe, ganhou sete prêmios Bafta, quatro Globos de Ouro e oito Oscars, colocando-se como a produção de maior destaque no cinema comercial deste ano. Primeiro, é bom enfatizar que o Oscar e o Globo de Ouro são premiações voltadas para a indústria cinematográfica norte-americana, mas, devido à força imperialista deste cinema, os filmes vencedores são valorizados e largamente consumidos mundialmente. A história do cinema comprova também que entre a lista de vencedores do Oscar não necessariamente estão os filmes mais relevantes daquele ano, como Cidadão Kane, por exemplo, que recebeu apenas o prêmio de melhor roteiro adaptado, em 1942.


Apesar de Quem Quer Ser Um Milionário? ser baseado no livro Sua Resposta Vale um Bilhão, do indiano Vikas Swarup, realizado com atores amadores indianos (o protagonista é inglês) e filmado em Mumbai, trata-se de uma produção inglesa. Portanto, o longa reflete uma visão estrangeira sobre a Índia. O país, onde 455 milhões de habitantes sobrevivem com menos de 1,25 dólar por dia, foi colônia britânica até, pasmem, 1947. Portanto, como um cineasta pode filmar a pobreza de uma nação da forma estetizada como fez, sabendo que seu país foi responsável por isso? É muito cruel.      


O inglês Danny Boyle parece incoerente quando afirma detestar Cidade de Deus e as comparações feitas entre seu filme e o brasileiro. Em entrevista, César Charlone, diretor de fotografia do longa sobre o bairro carioca, diz que seu amigo e fotógrafo da produção inglesa, Anthony Dod Mantle, gosta muito do longa. Não há como negar que a câmera na mão, os enquadramentos e as cores saturadas que adquirem a favela de Mumbai não são influencias do filme de Fernando Meirelles. Tanto que, uma das críticas que o filme tem recebido na Índia, o de fazer "pornografia da miséria", é outra versão da polêmica da cosmética da fome, levantada na época do lançamento de Cidade de Deus.


Há outros aspectos que aproximam as produções. O desfecho da trajetória do favelado Jamal Malik é o mesmo de Buscapé: a ascensão social justificada pelo caráter. De acordo com a lógica do filme, o correto e sofrido Jamal sabe as respostas por força do destino, assim como Buscapé consegue o trabalho no jornal por não ter se corrompido com o tráfico e a criminalidade. Os longas apresentam soluções individuais para o problema estrutural da desigualdade social nos subdesenvolvidos, Índia e Brasil.


Já que a vida na Índia parece despertar a atenção da Academia, por que não premiar uma produção local? Claro que não. Afinal, não é interessante correr o risco de disputar mercado com Bollywood, a indústria que produz mais filmes no mundo. Premia-se então o conto de fadas pós-moderno de Boyle, que atrai pela forma exótica e palatável que o país é retratado, cumprindo as expectativas do público ocidental e ignorando a cultura indiana.


Se quiser saber mais sobre a Índia e sua produção cinematográfica, em vez de assistir Quem Quer Ser Um Milionário? (ou a novela Caminhos das Índias), recomendo conferir um dos ótimos longas indianos em cartaz na mostra Bollywood e o Cinema Indiano na Cinemateca Brasileira, de 17 a 29 de março.


Quem é a colunista: Jornalista e cinéfila Cyntia Calhado.

O que faz: Repórter do Guia da Semana.

Pecado gastronômico: Pizza, chocolate, açaí...

Melhor lugar do Brasil: Onde se tem paz.

Melhor filme que já assistiu até hoje: Como é impossível escolher um, fico com a obra dos diretores Pedro Almodóvar e Eric Rohmer

Para falar com ela: cyntia.calhado@gmail.com ou acesse seu blog  ou site

Atualizado em 10 Abr 2012.

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