Guia da Semana

Golpe cinematográfico

Lançamento do filme Vips adiciona ficção à (já inacreditável) história de Marcelo Rocha do Nascimento, considerado um dos maiores golpistas do país.

O helicóptero sobrevoa uma linda praia, que depois percebemos ser a área de um resort. Pilotando a aeronave está Marcelo Nascimento da Rocha (Wagner Moura), que se prepara para pousar no local e iniciar seu mais ousado golpe: passar-se por herdeiro da companhia aérea Gol durante o Recifolia, o carnaval fora de época da capital pernambucana, em 2001. Essa é a cena de abertura e o principal arco dramático de Vips, longa-metragem do diretor Toniko Melo, com roteiro assinado por Bráulio Mantovani (de Cidade de Deus e Tropa de Elite), que estreia nos cinemas em 25 de março.

Na história, acompanhamos a vida de Marcelo que, desde pequeno, gosta de imitar as pessoas e de se passar pelos outros. Ele mora no Paraná com a mãe, uma cabeleireira, e tem o grande sonho de aprender a voar e tornar-se piloto como o pai. Assim, foge de casa e viaja ao Mato Grosso do Sul, onde consegue trabalho num hangar. Lá, aprende a pilotar aviões e logo está trabalhando com contrabando, sempre assumindo novas identidades. Depois de conseguir bastante dinheiro, Marcelo preparou-se para o maior golpe de sua vida, que aconteceu no episódio do Recifolia.

Apesar de ter como base a verdadeira história do golpista Marcelo Nascimento da Rocha, contada no livro Vips - Histórias Reais de Um Mentiroso, de Mariana Caltabiano, tanto o diretor quanto os roteiristas optaram por dar outro viés para o que é mostrado. "Graças a Deus que ficcionamos, porque gosto bem mais do personagem que o Wagner faz do que o da história real", explica o diretor Toniko Melo.

Ele até concorda que as histórias vividas pelo verdadeiro Marcelo sejam mais pitorescas e engraçadas, porém, acredita que, se filmasse apenas o que realmente aconteceu, mostraria nada mais do que um simples golpista. "No nosso caso, trata-se de um cara que quer algo e busca alguma coisa. Acho que isso é o melhor". Vips ganhou o prêmio de melhor filme, melhor ator (Wagner Moura), melhor atriz (Gisele Fróes) e melhor ator coadjuvante (o argentino Jorge D'elia) no Festival do Rio de 2010.

Construção do Personagem

Fotos: Divulgação
 
A mãe de Marcelo Nascimento da Rocha (Gisele Fróes), observa o filho em recortes das colunas sociais.

O ator Wagner Moura diz que se encantou pela história e tentou se desvencilhar ao máximo da figura que ficou conhecida do grande público. "Ao ler o roteiro, vi a história de um cara que está se buscando e não tem a noção de realidade da maioria das pessoas", explica o ator. "Essa busca é de todos nós. E achei linda essa procura, porque é um menino brilhante, inteligente e esperto, mas que talvez não tenha conseguido canalizar tudo isso para algo bom".

Para Wagner Moura, uma de suas cenas favoritas no filme, e que mais definem o personagem, é quando ele volta de uma temporada no Paraguai, onde era piloto de avião do narcotráfico, e tem um diálogo revelador com a mãe, interpretada por Gisele Fróes. "Ela diz para ele: por que você é assim? E ele pergunta: assim como?". Segundo o ator, essa ligação do personagem com a mãe tem muita importância, no sentido de mostrar como o olhar dela determina a personalidade do filho. "O olhar da mãe para esse menino é muito torto. Ela não percebe, mas o Marcelo pergunta, claramente: Me diz quem eu sou. E ela não entende, ou não sabe responder. Não sei".

O ator conta que, mesmo interpretando um personagem real, optou por não conhecer  Marcelo Nascimento da Rocha. "Achei que não era o caso, pois o caminho que fiz ao fazer o filme foi [contar] a história de um menino que se procurava, e não a história de um estelionatário". Quem parece não ter ficado muito feliz com este novo viés dado foi o verdadeiro Marcelo. De acordo com uma reportagem sobre ele, publicada na revista Trip deste mês, seus advogados declararam que "o cliente estuda a hipótese de ingressar com um processo contra o diretor, para que este se retrate publicamente e declare que a história do filme baseia-se na vida de Marcelo e no livro VIPs".

Bastidores

Fotos: Divulgação/Roger Gobeth
 
O diretor Toniko Melo e o ator Wagner Moura no set de gravação.

Durante o longa-metragem, que tem muitas cenas aéreas, Wagner Moura aparece pilotando desde aviões até helicópteros. Para as filmagens, o diretor Toniko Melo conta que Moura aprendeu até a taxiar um avião em meio a pista de pousos e decolagens. No entanto, ressaltou que, nas imagens dos voos reais, quem estava no comando era outra pessoa. "Naquela cena de pouso com vento cruzado [por exemplo] é um piloto da esquadrilha da fumaça, um craque naquilo".

Enquanto falava, o diretor foi interrompido pelo ator que, de forma bastante humorada, contou, orgulhoso, que em todas as cenas em que o avião está em solo, ele é quem está no comando. "E sozinho, pois não tem um cara abaixado ali. E tenho condições técnicas e psicológicas de decolar um avião. Só teria que ter alguém para pousar", disse, provocando risos nos presentes.

Em outra cena, o ator pode ser visto dando uma canja de cantor, fazendo as vezes de Renato Russo num cover da banda Legião Urbana. Durante a entrevista, ele assume que cantou mesmo e que é sua própria banda, chamada Sua Mãe, que se apresenta no filme. "Eu não perco a oportunidade de colocar a minha banda para trabalhar", diz, aos risos.

Espírito Esportivo

Fotos: Divulgação
 
Renato Jacques (Roger Gobeth) e Marcelo Nascimento da Rocha (Wagner Moura) no Recifolia.

Durante quatro dias, o verdadeiro Marcelo Nascimento da Rocha foi paparicado por ricos e famosos no camarote do Recifolia. Inclusive, chegou a dar duas entrevistas para o apresentador Amaury Jr., como se realmente fosse filho do dono da companhia aérea Gol. O apresentador, mostrando bastante espírito esportivo, topou reproduzir esse episódio em uma das cenas do filme.

Wagner Moura elogiou a disponibilidade dele em participar do projeto, mas disse que nunca o viu como referência quando trabalhava fazendo os mesmos tipos de entrevistas para um canal de televisão de Salvador (BA). "Era um programa onde entrevistava as celebridades que iam para o carnaval. Não era exatamente uma profissão, que eu quisesse ser um Amauri Jr. Era um emprego que estava ganhando dinheiro, mas fiz e foi um barato".

Astro internacional

No final da entrevista para divulgar Vips, Wagner Moura respondeu sobre sua estreia no cinema norte-americano. Recentemente, ele foi anunciado como o vilão de Elysium, novo filme do diretor sul-africano Neill Blomkamp, de Distrito 9 (2009).

Apesar de não poder falar muito sobre o projeto, por questões contratuais, ele revelou que as filmagens irão começar ainda em julho deste ano. "O que posso dizer é que o roteiro e o personagem que me ofereceram são muito bons. O outro filme do Neil, Distrito 9, tem muito a ver com o Tropa de Elite. É uma obra política e popular ao mesmo tempo. Ele [o cineasta] me viu em Tropa 2, gostou, fez a proposta, eu achei bacana e topei".

Atualizado em 10 Abr 2012.

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