Guia da Semana

Hellboy II : Mitos e ação!

De Los Angeles


Hellboy é um personagem com vocação para o cinemão. Sem nenhum compromisso sério com o formato ou escolas de estilo, ele pode se dar ao luxo de ser apenas um festival de bons efeitos e piadas sob medida para o público jovem, mas superficialidade está longe de ser uma das qualidades de Guillermo Del Toro, responsável pelo personagem no cinema. Poucos são os filmes capazes de mergulhar na mitologia sem se tornarem caricaturas pobres e descartáveis, aliás, tudo ali pode ser fantástico, mas não há nada de descartável em Hellboy II - O Exército Dourado, nova aventura estrelada por Ron Perlman.

O início de Hellboy II recorre aos contos de fadas e à imaginação infantil para contar uma história antiga. Em tempos imemoriais, homens lutavam contra as forças da natureza, pelas quais foram sobrepujados. Mas, por conta da bondade do rei élfico, a raça humana poderia continuar a viver e a habitar a superfície do planeta, contanto que respeitasse as florestas. Lá habitariam os seres mágicos que venceram a grande guerra. Redundância dizer que as promessas foram esquecidas e os homens consumiram árvores e prados em sua expansão inescrupulosa. Mas, em tempo, tudo isso é apenas uma história de ninar.

Ao mesmo tempo em que Del Toro distrai a mente de um Hellboy pré-adolescente, ele convoca o público a entrar naquele universo. Essa brincadeira é resultado de um momento genial ao fazer tudo isso com bonequinhos de madeira e sem derramar uma gota de sangue. Logo de cara, o diretor mostra total familiaridade com o caminho que vai trilhar e, ao espectador, resta entrar de cabeça nesse passeio.

Ron Perlman novamente impecável no papel teve mais chances para ampliar seu trabalho com Hellboy em termos dramáticos e cômicos. Esse é um dos conceitos mais interessantes sobre esse herói que sabe contemplar seus desafios e sempre encará-los com seu bom-humor peculiar. Quem mais poderia encarar demônios do submundo durante um porre de cerveja barata e ainda contar piada durante o processo?

Hellboy II respeita os conceitos do quadrinho por Mike Mignola com a mesma reverência que trata a mitologia antiga presente em seu roteiro. Elementos provenientes da Irlanda, Gales e da Escandinávia são apenas alguns dos presentes na miscelânea composta por Del Toro, que já tomou o mundo de assalto com sua alegoria fantástico-social em O Labirinto do Fauno. Em meio há tudo isso está Hellboy, um demônio que escolheu proteger a Humanidade que o rejeita, mesmo quando o "Vermelhão" salva o dia.

A versão adulta de Hellboy continua essencialmente idêntica ao jovenzinho que se vê no começo do filme. Ele ainda busca seu lugar ao sol e, em vez de trilhar algum caminho óbvio por redenção ou algum outro clichê hollywoodiano, livra os humanos de criaturas agressivas e malévolas que só "existem" em histórias de terror ou filmes "B". Desta vez, sua tarefa é impedir que o príncipe Nuada - filho do rei do conto de fadas - destrua nossa raça.

A proposta de Nuada é interessante: por que defender um povo que não cumpre suas promessas, discrimina sem pudor e ainda se considera digno de habitar, e destruir, o planeta? Esse questionamento afeta profundamente tanto personagem quanto espectador, especialmente num momento em que Hollywood resolve defender a ecologia e chamar a atenção para a responsabilidade humana para com a natureza. Hellboy nunca seria afetado por promessas de riqueza ou poder como heróis efêmeros criados para servir a roteiros pré-fabricados, portanto, em seus dogmas pessoais e ideologias, é que o conflito deve acontecer. E o mais importante é notar que nada desse dilema pessoal afeta a quantidade de pancadas, cenas de ação e piadas características do personagem.

O clima de magia parece ter possibilitado algo raro hoje em dia: um filme de ação que promove uma reflexão válida, mas sem fazer uso de meras frases de efeito ou elementos dramáticos cuja única função seja reforçar tais idéias. Tudo, assim como o mundo proposto por Nuada, acontece de forma orgânica. Ou, na ausência de termo melhor, natural. Fosse só ação, seria uma fita dispensável. Só intelectual, tornar-se-ia tediosa e insuficientemente densa. Ele faz pensar e dá o tempo certo para isso, mas sempre lembra o espectador de que está diante de um dos filmes mais eletrizantes da temporada.

Hellboy precisa fazer suas escolhas e tem seus grandes momentos. Num deles, o personagem enfrenta a criatura que deu origem à história de João e o Pé de Feijão. É um show de acrobacias, edição sob medida e poesia, afinal, como destruir um ser capaz de semear a vida por onde quer que passe, mas que, assim como o herói, não tem mais espaço no mundo urbano? Duras escolhas.

Quem não encontra problemas é o público, que é conduzido por maestria por uma grandiosa crítica moderna, com toques de magia e respeitando, dentro do possível, os limites dos fãs de quadrinhos. Hellboy II - O Exército Dourado é aquele tipo de filme que tem boas bilheterias, garante a venda de DVDs e ainda vira hit de IBOPE quando chega à TV. Para assistir, delirar e, claro, pensar um pouco.


Quem é o colunista: Fábio M. Barreto adora escrever, não dispensa uma noitada na frente do vídeo game e é apaixonado pela filha, Ariel. Entre suas esquisitices prediletas está o fanatismo por Guerra nas Estrelas e uma medalha de ouro como Campeão Paulista Universitário de Arco e Flecha.

O que faz: Jornalista profissional há 12 anos, correspondente internacional em Los Angeles, crítico de cinema e vivendo o grande sonho de cobrir o mundo do entretenimento em Hollywood.

Pecado gastronômico: Morango com Creme de Leite! Diretamente do Olimpo!

Melhor lugar do Brasil: There´s no place like home. Onde quer que seja, nosso lar é sempre o melhor lugar.

Atualizado em 6 Set 2011.

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