Guia da Semana

História e sofrimento

Leia a crítica sobre o longa de Mark Herman, O menino do pijama listrado


Nunca fui fã de best-sellers. Creio que apenas 5% dos que li me acrescentaram alguma coisa, como As Horas, Lavoura Arcaica, O Paciente Inglês e a série de Harry Potter, que tiveram suas páginas transpostas para as telonas, com o devido respeito. Depois de achar os livros O Caçador de Pipas e O Código Da Vinci entediantes, a decepção veio dobrada com suas respectivas transposições feitas para o cinema.

Porém, sou obrigado a assumir minha ignorância de que nunca nem tinha ouvido falar do livro O Menino do Pijama Listrado, do irlandês John Boyne. A adaptação homônima para o cinema, feita pelo diretor Mark Herman (que já havia dirigido o ótimo Laura - A Voz de uma Estrela, em 1998), tem certas qualidades.

Se houvesse uma palavra-chave para descrever todo o filme, acredito que ela seria: olhos. Na Alemanha nazista, o pequeno Bruno, 8 anos, que com seus inocentes - e cintilantes - olhos azuis, descobrirá o "novo mundo" que o cerca.

Quando se muda para uma nova casa com a mãe, a irmã e o pai (oficial alemão recém-promovido), Bruno, entediado e sem amigos, irá em busca de algo que o tirará da vida adulta maçante. Em uma enorme casa rodeada constantemente por soldados do Exército alemão, é na fresta da janela de seu quarto que o menino enxerga "uma fazenda onde todas as pessoas usam pijamas". Seus curiosos olhos dão lugar a uma vontade de explorar o que há além dos portões que o aprisionam.

Um pai capaz de sacrificar tudo em nome do Führer, uma irmã que se rende à propaganda nazista enquanto ainda deveria brincar de bonecas, e uma mãe que, aos poucos, vai descobrindo as atrocidades reais do regime de Hitler.

Bruno, que nem sabe o significado da palavra "judeu", conhece, fora do seu universo, o garoto Schmuel. Do lado de cá do campo de concentração, o pequeno alemão, de aparência impecável e seus costumeiros curiosos olhos azuis. Do lado de lá, Schmuel, da mesma idade, carregando no corpo imundo, nos dentes podres e no olhar constantemente triste, a verdadeira realidade do regime alemão da época, bem diferente da propaganda que os alemães faziam sobre seus "campos de trabalho".

A amizade cresce entre os dois em diálogos tão inocentes que levam aos risos quem assiste, porém sentimos aquele medo sempre crescente de que algo ruim irá acontecer. Em certo momento do filme, acreditamos que a amizade estará ameaçada pelo medo inerente a qualquer ser humano; recordemos, então, como esse medo funcionava quando éramos crianças...

Com um desfecho tenso, a amizade atinge seu ápice e a incredulidade toma conta do espectador. Inocência e/ou coragem? Amizade e/ou curiosidade? Nas mãos do diretor Mark Herman, a direção de arte perfeita e a habilidosa técnica de extrair atuações de atores, até então, desconhecidos, quem rouba a cena mesmo são os garotos Asa Butterfield e Jack Scanlon, que interpretam Bruno e Schmuel, respectivamente.

Com pouco mais de uma hora e meia de filme, Herman consegue arrancar lágrimas sem apelar para o sentimentalismo barato. Um feito que muitos diretores não conseguem com filmes que chegam a ultrapassar duas horas de projeção. Que venha, então, a adaptação de um dos melhores best-sellers que li: A Menina que Roubava Livros. Criança, holocausto e muito drama. E que Mark Herman possa vir de brinde nos créditos da direção. O público agradece.

Quem é o colunista: Um jornalista aficcionado por cinema de A a Z.

O que faz: Dono do blog Dial M For Movies e redator do Portal da Propaganda.

Pecado gastronômico: Lasanha.

Melhor lugar do Brasil: Qualquer lugar, desde que eu esteja com meus amigos.

Para Falar com ele: leonardo.g.freitas@gmail.com

Atualizado em 6 Set 2011.

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