Guia da Semana

Mary Costa: Uma princesa de verdade

De Los Angeles


Há 50 anos, estreava um dos grandes momentos da história da animação, com o lançamento de A Bela Adormecida, projeto que começou a ser pensado por Walt Disney no início da década de 50 e não só se transformou num marco para o estúdio do camundongo Mickey, como também foi o modelo no qual os mais importantes artistas da área se inspiraram para criar obras como Toy Story, Shrek e A Era do Gelo.

A festa para celebrar as bodas de ouro de A Bela Adormecida teve a participação de Mary Costa, a atriz e cantora clássica que emprestou a voz para a princesa Aurora, dando-lhe a personalidade que encantou gerações de fãs. O Guia da Semana conferiu o evento e conversou com estrela. Confira!

Gostou da celebração que a Disney armou para o retorno de A Bela Adormecida?
Mary Costa:
Foi uma experiência extraordinária. Quando eu me sentei na platéia, Walt Disney com certeza deveria estar sorrindo. Na minha opinião, está aperfeiçoado. Eu já assisti ao filme muitas vezes, mas ainda não tinha entendido o que é Blu-Ray e Alta Definição. Fiquei deslumbrada. Nunca tinha visto uma reação do público como aquela, porque tudo parecia uma pintura com música. Não consegui dormir depois. Pela primeira vez, me senti satisfeita. Eu não entendo de tecnologia, mas acredito que a tecnologia do Blu-Ray irá fazer com que mais pessoas conheçam o filme.

Por que você acha que as histórias de Walt Disney são tão duradouras? Por que estamos falando sobre você ter feito a voice-over de um desenho...
Mary Costa:
Deixe-me interrompê-lo. Eu não fiz um voice-over. Há oito anos, eu estava em um evento com Marc Davis, dando autógrafos para os fãs, e ele estava muito bem-humorado; ele sempre me fazia dar risada. E uma mulher veio e disse: "Senhora Costa, como você se sente sabendo que fez o voice-over de uma princesa famosa da Disney?". Marc virou e respondeu: "Madame, as vozes são o oceano da animação e, em cima disso, nós fazemos a animação." A Bela Adormecida era a voice-under. Não foi feito como nos dias de hoje. É por isso que meu trabalho com a voz demorou de 1952 a 1955. Quando eu fiz a primeira gravação de voz para o Walt Disney,ele pediu para eu conversar com o MarcDavis, olhar os storyboards, entender a personagem da Rosa. Sua relação com os animais, com suas madrinhas, como ela ri, chora. Ele queria que eu entendesse muito bem a personagem e, sempre que eu ou qualquer outra pessoa fossemos gravar, nós teríamos uma pintura para onde olhar. Porque os animadores dependem da nossa performance para animar. Walt me disse: "Quando você for gravar, eu quero que você pegue todas as cores da pintura e leve para a sua voz e quero que você pinte com sua voz". Então, os animadores animavam de acordo com nossos movimentos.

Vocês gravaram antes dos desenhos serem feitos?
Mary Costa:
Sim.

E faz sentido, porque a animação é muito orgânica.
Mary Costa:
Orgânica é a palavra certa, fico feliz que você tenha dito isso, porque as pessoas sempre acham que é uma voice-over. E as gravações ficaram mais nítidas por causa disso. Eu não cantei com uma orquestra, e sim com o acompanhamento de um piano, em uma faixa separada.Os produtores tinham a faixa somente com a minha voz cantando e, depois, juntaram com a gravação da orquestra, feita na Alemanha. E eles encontraram essas gravações originais. Parece que é a primeira vez que eu escuto isso. Walt estabeleceu uma ética de trabalho comigo, que acho que ele seguiu a vida inteira, que era a de que todo mundo é único. Você recebeu um talento de Deus e não é bom você competir com mais ninguém. A única pessoa com quem você tem que competir é com você mesma, para ser o melhor que você pode. E você também não pode copiar outra pessoa. Então, ele me perguntou: "Você quer mesmo se tornar cantora? É seu sonho? Começa com "S", certo? Então você tem que juntar mais três: determinação, dedicação e disciplina". Por isso é que seus filmes funcionavam. Ele tinha idéias, colocava animadores diferentes, animava coisas diferentes. O Marc Davis fez todo o trabalho de animação para o meu personagem, então, nunca fica diferente.

Qual a cena que você mais gosta ou gostou de fazer?
Mary Costa:
Eu amei ter feito todas as cenas e adoro a cena em que as fadas madrinhas estão preparando tudo para o aniversário. E adoro o cavalo, o chamado do pássaro, eu amo o chamado do pássaro. Eu me divirto com o final da cena no bosque. Ela está deitada no ombro dele, e ele pergunta quando eles vão se ver novamente e ela responde: "Nunca, nunca. Talvez algum dia. (fazendo a voz de Aurora)". Ele pergunta: "Amanhã?". E ela diz: "Não, esta noite!" (risos). Mas eu nunca parei para pensar em uma cena preferida, nunca me perguntaram isso antes. Eu acho que é a imitação do chamado pássaro no bosque - no começo. Quando eu ouvi, me trouxe lágrimas aos olhos, porque quando eu estava na audição, George Bruns falou para eu relaxar e perguntou se eu sabia imitar o chamado de um pássaro. E eu perguntei: "Você tem um pássaro aqui para eu copiar?" (risos).

Você acha, então, que os contos de fadas ainda têm espaço no mundo de hoje?
Mary Costa:
Fiquei dando autógrafos por umas duas horas quando mostramos o filme renovado. Num certo momento, uma moça de uns 35 anos, muito bonita, veio e me disse: "Você não deve se lembrar de mim, porque eu a conheci quando eu tinha 5 anos, mas eu queria lhe apresentar a minha filha". E a menininha estava atrás dela e tinha uns 5 anos. E isso aconteceu mais umas quatro vezes ontem. Eu acho que nunca vai chegar o dia em que o mundo pare de amar os contos de fada. As pessoas terão que se voltar às artes, à escrita. Eu espero que essa nova tecnologia do lançamento chegue para atrair novas gerações.

Leia as matérias anteriores do nosso correspondente:

  • Billy Bob Thornton: Astro se diz um ator por acidente

  • Nick Nolte: Com mais de 70 filmes na carreira, astro critica a mediocridade nas telonas.

  • Forest Whitaker: Eleitor de Barack Obama fala sobre suas ações sociais e seus personagens


    Quem é o colunista: Fábio M. Barreto adora escrever, não dispensa uma noitada na frente do vídeo game e é apaixonado pela filha, Ariel. Entre suas esquisitices prediletas está o fanatismo por Guerra nas Estrelas e uma medalha de ouro como Campeão Paulista Universitário de Arco e Flecha.

    O que faz: Jornalista profissional há 12 anos, correspondente internacional em Los Angeles, crítico de cinema e vivendo o grande sonho de cobrir o mundo do entretenimento em Hollywood.

    Pecado gastronômico: Morango com Creme de Leite! Diretamente do Olimpo!

    Melhor lugar do Brasil: There´s no place like home. Onde quer que seja, nosso lar é sempre o melhor lugar.

  • Atualizado em 6 Set 2011.

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