Guia da Semana

"Minutos Atrás" faz poesia para ver e ouvir

Filme de Caio Sóh adapta peça teatral explorando o realismo fantástico

Alonso observa o horizonte, pensativo. Pensa sobre o tempo que já se foi, o único sobre o qual se pode pensar. Tenta acender um cigarro com uma lupa e não consegue - já se foi sua sorte. Já se foi o sentido da vida e do mundo, recalculados a cada novo pensamento. Voltará à estrada, consciente em sua loucura invisível e sozinho com seus sonhos numa viagem sem fim.

A jornada de Alonso em “Minutos Atrás”, novo longa de Caio Sóh baseado na peça teatral do mesmo diretor, lembra muito a trajetória de Antonius Block no clássico de Ingmar Bergman, “O Sétimo Selo”. Como o cavaleiro, o viajante interpretado por Vladimir Brichta (um mendigo?) busca respostas existenciais enquanto desafia a morte a cada parada.

A carroça do protagonista logo revela um cavalo branco (Paulinho Moska, que atua revezando-se com o animal em pequenas epifanias musicais, ora agressivas, ora melancólicas, com algo de blues diluído no canto da sanfona e do banjo).

Surge ainda outro passageiro, Nildo (Otávio Muller), um homem guardado numa mala de viagem. Os dois parecem saídos de um delírio de Alonso, mas são tão reais quanto se quiser que sejam – tudo ali se descola do concreto com a leveza de um sonho e a densidade de um poema honesto.

É curioso que, segundo Muller e Moska, Sóh não conhecesse a obra de Bergman, nem outras possíveis referências associadas ao seu trabalho, como o dramaturgo Samuel Beckett. Curioso, mas não tão surpreendente: “Minutos Atrás” tem raízes encravadas em solo brasileiro, é uma saga de seca e fome e dor, de amizade e traição, de esperança. É também o conto da ignorância transformada em criatividade, por quem se vira com o pouco repertório que tem (como na adorável cena das galinhas).

Mais do que apenas filosófico, o filme é profundamente sensorial. A fotografia assinada por Rodrigo Alayete é nítida e delicada, tingida de preto-e-branco quando convém. A trilha de Paulinho Moska e André Abujamra é tão caótica e simbólica quanto a carroça dos viajantes. Já o figurino é emprestado do universo teatral e os diálogos poderiam compor um romance.

“Minutos Atrás” chega aos cinemas nesta quinta-feira sem grandes pretensões de bilheteria, mas com uma intenção que já faz valer o ingresso: este filme quer dar ao espectador algo diferente. E quem hoje em dia está disposto a oferecer isso?

Assista se você:

  • Gosta de poesia e/ou teatro
  • Quer ver um filme diferente
  • Procura um filme nacional que não seja pastelão

Não assista se você:

  • Não gosta de poesia
  • Não quer pensar muito
  • Não gosta de realismo fantástico

 

Atualizado em 21 Mar 2014.

Por Juliana Varella
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