Guia da Semana

Na garupa de Capitu

Inspirada no personagem machadiano, a protagonista do longa Malu de Bicicleta vive uma história de amor perspicaz nas telonas

Foto: Divulgação/David Peixoto

Malu conhece Luiz Mário na orla do Rio de Janeiro, quando o atropela com a bicicleta

Engana-se quem acha que uma história como a de Capitu e Bentinho, do romance Dom Casmurro, de Machado de Assis, é coisa do passado. O novo filme do cineasta Flávio Ramos Tambellini (Tim Maia, Bufo & Spallanzani, O Passageiro - segredo de adultos), Malu de Bicicleta, retrata uma história de amor envolvente entre uma carioca, Malu ( Fernanda de Freitas), e um paulista, Luiz Mário (Marcelo Serrado), permeada pela desconfiança do desconhecido e do ciúme. O elo entre os dois é a ponte aérea Rio - São Paulo, que inspira uma das grandes questões do filme: como confiar plenamente em alguém que possui uma vida longe da sua?

É no meio dessas dúvidas e conclusões que o Malu de Bicicleta já se consolidou com uma das grandes comédias românticas brasileiras e conquistou prêmios de melhor diretor, melhor ator e melhor atriz no Festival de Paulínea, em 2010, tendo também destaque no Festival do Rio e no Festival de Cuba. O filme, que já está em cartaz no circuito nacional, é baseado no livro homônimo de Marcelo Rubens Paiva, que também assina o roteiro da versão cinematográfica. No comando da trilha sonora está o músico Dado Villa-Lobos, que já fez parceria com Flávio Tambellini em o Bufo & Spallanzani (2000).

As músicas do Malu de Bicicleta realmente dão o tom ao enredo e o destaque fica para a canção original de Fausto Fawcett, Fugitivo Coração, feita em cima da história do filme. O elenco ainda conta com a participação de Marjorie Estiano, Dani Suzuki, Otávio Martins, Daniela Galli, Maria Manoela, Thelmo Fernandes e Marcos Cesana. Em entrevista ao Guia da Semana, o diretor Flávio Tambellini conta detalhes da produção, fala do processo de adaptação do livro para as telas e comenta os contrastes entre as duas cidades que permeiam o romance. Confira!

Guia da Semana: Como aconteceu a adaptação do livro Malu de Bicicleta, do escritor Marcelo Rubens Paiva, para o cinema?
Flávio Tambellini: Quando recebi o projeto já havia um roteiro inicial escrito pelo Bruno Mazeo e o João Avelino. Eu li, gostei, mas queria mostrar mais a minha visão da trama. Acredito que, em adaptação cinematográfica de livro, é preciso colocar-se dentro dele. Assim, convidei o Marcelo Paiva para escrever a história, agora, para o cinema. Sei que isso é complicado para um autor, pois ele costuma ficar preso ao seu texto inicial. No entanto, Marcelo trouxe tudo o que esperávamos para o roteiro, a essência do livro de volta, mas já com outra visão.

Foto: Divulgação/David Peixoto

A Pedra da Gávea, no Rio de Janeiro, é uma das locações do filme que evidencia a parte carioca da história

Guia da Semana: Quais foram os principais obstáculos para transpor a história das páginas do livro para a telona?
Flávio Tambellini: Trabalhei bastante no projeto, pois percebi de cara que precisaria escolher um pedaço da obra para fazer o filme. Foi determinado que o enredo se passaria no tempo atual, elucidando a história de amor entre os protagonistas Luiz Mário (Marcelo Serrado) e Malu (Fernanda de Freitas). A história literária abordava ainda a parte da infância do personagem principal, além de muitos flashbacks que tivemos que cortar.

Guia da Semana: Há quanto você vem trabalhando  nesse projeto?
Flávio Tambellini: Já conhecia o livro, mas a proposta de virar um longa chegou até mim pelo ator Marcelo Serrado, que já conheço há algum tempo. Reli o livro do Rubens Paiva e comecei a trabalhar nele. Estou envolvido há cerca de três anos, mas a partir do momento que começamos a gravar foi tudo muito rápido. Foram apenas quatro semanas de filmagem. O roteiro passou por mais de dez tratamentos, e foram essas idas e vindas que acabou levando esse tempo todo. Acho que roteiro é trabalho em cima de trabalho, até se chegar no resultado esperado. 

Guia da Semana: Você já dirigiu outros dois filmes adaptados de livros, como Bufo & Spallanzani (2000), de Rubem Fonseca, e depois, O Passageiro (2006), de Cesário Melo Franco. Isso traduz certa tendência para esse molde de longas-metragens?
Flávio Tambellini: Foi uma coincidência, mas considero que um livro traz boa estrutura dramática e de personagem que favorece o trabalho. Quando a obra possui uma visão cinematográfica, como as do Marcelo Rubens Paiva, é gostoso porque já recebemos um esqueleto pronto. Ao mesmo tempo é preciso quebrar isso, pois é uma outra linguagem. Tem um lado bacana, mas também há um desafio forte. Adaptar um filme significa abrir mão de algumas coisas, uma vez que é necessário descobrir os fatos que me interessam para conseguir o resultado que espero, caso contrário, origina-se um filme literário.

Guia da Semana: Há algum diretor de cinema que seja referência para você no quesito adaptação de livros ou algum filme que se destaca nesse molde?
Flávio Tambellini: Sem dúvida, Coppola com os filmes Apocalypse Now e O Poderoso Chefão. Foram duas adaptações de livros muito boas.

Guia da Semana: Malu de Bicicleta foi seu primeiro filme que contava com a distribuição garantida antes da finalização. Como aconteceu esse processo?
Flávio Tambellini: Apesar de ser um filme com orçamento baixo, desde o começo trabalhei com a Downtown - que é uma distribuidora renomada - e, dessa vez, não tive que passar por aquela via crúcis de ficar correndo atrás de distribuição. A Rio Filmes aderiu ao projeto no meio de sua produção e, em seguida, foi a vez a Globo Filmes apoiá-lo. O legal do 'Malu' é que ele foi acontecendo sozinho e, aos poucos, ganhando espaço, sem perder sua característica independente. Ele não é um filme de 'mercadão', não é um desses blockbuster brasileiros, pois busca a comunicação. Eu fiz o longa o tempo inteiro pensando no diálogo com o público, mas direcionando um público inteligente, já que fiz questão de não dar tudo pronto.


Em uma típica cena paulistana, o casal, acompanhado por uma amiga de Malu, vai ao cinema

Guia da Semana: O filme aborda a questão do relacionamento amoroso, atrelado ao ciúme, a partir de ângulos diferentes: o carioca, que é mais leve, solto e vivaz, e o paulista, que é mais tenso, mais neurótico e até paranóico. Como foi a construção desses dois tipos de personagens?
Flávio Tambellini: O livro carrega ainda mais nessa dicotomia Rio - São Paulo, mas eu preferi apenas mostrar que a menina do Rio, a Malu, é mais solar, possui a cultura de praia e natureza. Já o paulista Luiz Mário é mais noturno e costuma ficar em ambientes fechados. Procurei transpor o estilo deles para a fotografia do filme. Mas há um fato curioso sobre a trama, pois Marcelo Paiva assume que se inspirou no personagem de Capitu, da obra Dom Casmurro, de Machado de Assis, para compor a Malu do livro.

Guia da Semana: Você tem alguma preferência em trabalhar apenas com atores que já tiveram uma vivência no teatro?
Flávio Tambellini: Para mim os grandes atores vêm do teatro. O Marcelo Serrado é ator majoritariamente de televisão, mas já esteve nos palcos. A Fernanda de Freitas fez a peça Ensina-me a viver, do João Falcão, e foi até premiada. A Marjorie Estiano também costuma fazer teatro. Enfim, acredito que cada pequeno personagem tem que ser um ator bom e é isso que da credibilidade a um filme.

Guia da Semana: A trilha sonora do longa é de autoria do Dado Villa- Lobos. Você teve alguma influência na escolha do repertório?
Flávio Tambellini: Tive interferência total, mas com liberdade de criação para ele. Não disse quais instrumentos ele iria usar, mas precisava falar o clímax de cada cena, para o Dado poder pontuar em cima. Houve sempre uma liberdade dentro do diálogo que a gente desenhou.

Guia da Semana: As imagens do filme caracterizam bem o Rio de Janeiro e São Paulo. Qual foi o critério de escolha dos sets?
Flávio Tambellini: Mesmo sendo um filme basicamente de interiores, eu precisava mostrar os pontos que marcam cada uma dessas cidades. Por isso, optei por passar imagens da Avenida Paulista e do Monumento dos Bandeirantes, quando fala de São Paulo, e as praias, se estiver mostrando o Rio. Na hora que o filme for respirar no exterior, precisava de lugares que as pessoas reconhecessem se tratar da capital carioca ou paulista.

Guia da Semana: Após a divulgação de Malu de Bicicleta e as premiações que o filme já vem colhendo, há novos projetos em vista?
Flávio Tambellini: Já estou na elaboração de um novo filme, escrito por mim e pelo artista plástico Raul Mourão. Vai se chamar Roubo da Chácara do Céu e vai falar de furto de artes. O enredo é baseado no assalto que teve, em 2006, no Museu Chácara do Céu, no bairro de Santa Tereza, no Rio de Janeiro. Estamos em fase de captação de recursos ainda.


Atualizado em 10 Abr 2012.

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