Guia da Semana

Nova era do 3D

Experiência radical de imersão, o longa lança debate sobre a relação do homem com a natureza, além de criticar duramente o imperialismo norte-americano



Sem dúvida, Avatar foi o grande blockbuster de 2009. Forte candidato a abocanhar vários Oscar este ano, repetindo o feito de Titanic, longa anterior de James Cameron, lançado em 1997. Desde então, o diretor vem trabalhando neste épico de ficção científica que conta a história de Jake Sully (Sam Worthinghton), ex-fuzileiro naval paraplégico que é enviado a Pandora, lua que orbita o sistema solar de Centauro, com o objetivo de se aliar à comunidade nativa - os na´vis - e ajudar os humanos a obter um mineral raríssimo que pode resolver o problema de falta de energia na Terra. O militar vai como Avatar, um híbrido de terráqueo no corpo de um habitante local, e acaba se apaixonando por Naityri (Zoe Saldana), filha dos líderes do planeta encarregada de ensinar a cultura para o estrangeiro. 

Os na´vis são seres azuis de três metros de altura, olhos grandes e dourados e rabos de cavalo com uma espécie de membrana na ponta, com a qual eles se conectam com o mundo, em um mecanismo que remete à bio-porta de eXistenZ, de David Cronenberg, ou ao orifício das costas dos personagens de Matrix, dos irmãos Wachowski. Assim como Neo, em Matrix, Sam é o Escolhido, o que faz com que ele se diferencie dos demais Avatares, por razões de ordem transcendental, místicas ou religiosas. A questão da realidade paralela, tema de ambos os filmes citados, também é presente neste longa.

Os habitantes de Pandora têm uma relação intrínseca com a natureza, exuberante e muito mais desenvolvida que a da Terra, com florestas fluorescentes que parecem o fundo do mar e animais com características pré-históricas, que lembram muito O Parque dos Dinossauros, de Steven Spielberg. Outra semelhança que salta aos olhos é a relação entre Sam e Naityri com a do casal que protagoniza Pocahontas.

Os paralelos com outras produções são infindáveis, mas apesar de bastante convencional do ponto de vista narrativo, o grande trunfo de Avatar é o uso de efeitos visuais de ponta que permitem uma imersão inédita na história dos filmes em 3D. Assim como em sua criação na década de 50, esta tecnologia procura atrair público para o cinema com o argumento de que a pessoa viverá uma experiência que não pode ser alcançada nem com o melhor dos home theaters. Assistir Avatar em 3D é muito similar, guardadas as devidas proporções, a experiência de estar em um dos simuladores dos parques da Disney.   

Depois de ver o filme em uma sala 3D e em outra convencional, posso dizer que a primeira proporciona um grau de envolvimento emocional imensamente maior com a produção, ao passo que a segunda dá maior liberdade ao espectador de refletir sobre o roteiro, muito rico apesar dos clichês.

James Cameron faz duras críticas ao imperialismo norte-americano que só enxerga os países de acordo com seus interesses comerciais e subjuga outras culturas, o que se torna evidente quando um dos líderes da missão de destruição ignora a importância da árvore mãe de Pandora e se refere aos na´vis como uma "horda de aborígenes". As referências ao massacre dos índios na América são perceptíveis. Há uma analogia explicita a política de governo de George W. Bush adotada nas guerras do Afeganistão e Iraque na fala do personagem do coronel Miles Quaritch (Stephen Lang) que inicia o bombardeio ao planeta dizendo combater "terror com terror".

Apesar da mentalidade bélica que permeia o desfecho, de obter a paz pela guerra, outra mensagem do longa é que a chave para o futuro da humanidade está em retomar o contato perdido com a natureza, abolindo a ideia de que os recursos naturais devem servir ao "desenvolvimento", algo que vai além da sustentabilidade, debatida a exaustão atualmente, e é incompatível com o capitalismo.


Quem é a colunista: Jornalista e cinéfila Cyntia Calhado.

O que faz: Repórter do Guia da Semana.

Pecado gastronômico: Pizza, chocolate, açaí...

Melhor lugar do Brasil: Onde se tem paz.

Melhor filme que já assistiu até hoje: Como é impossível escolher um, fico com a obra dos diretores Pedro Almodóvar, Eric Rohmer, Walter Salles e Domingos de Oliveira.

Para falar com ela: cyntia.calhado@gmail.com ou acesse seu blog  ou site

Atualizado em 6 Set 2011.

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