Guia da Semana

O cinema por um mundo melhor

Foto: New Line Productions
Damon Wayans e Spike Lee no set de filmagem de A Hora do Show

Não resta dúvidas de que o cinema, além do puro e simples entretenimento que nos proporciona, e a exemplo de outras manifestações artísticas, tem o intuito de retratar a realidade num discurso muitas das vezes transformador, reflexivo e sobretudo indagador frente aos problemas existentes na sociedade.

Dito isto, o cinema como veículo de pensamento e reflexão nos privilegiou com grandes obras que abordaram temas diversos, embora completamente únicos, as diferenças entre os seres humanos: sua raça, sua ideologia e seus contrastes sociais.

Realizadores como Spike Lee nos apresentaram a realidade cruel dos conflitos raciais, mesmo que por muitas vezes escondidos em cômicos eufemismos. Em Febre da Selva (Jungle Fever, 1991), a colisão entre dois mundos diferentes (os negros e os latinos), etnias que mais sofrem com o preconceito, são colocadas frente a frente numa nítida exposição da existência da intolerância entre as próprias minorias. Em A Hora do Show (Bamboozled, 2000), denuncia o preconceito e o estereótipo dos negros na televisão americana.

Já a obra do cineasta inglês Ken Loach, do recente e premiado Ventos da Liberdade (The Wind that Shakes the Barley, 2006, foto), vencedor da Palma de Ouro no Festival de Cannes, está pautada num cinema politizado e militante, que exprime uma precisa visão política na realização de trabalhos com crível rigor panfletário na apresentação dos fatos como eles realmente são, sem qualquer omissão e total cumplicidade a favor dos menos favorecidos, na representação dos choques culturais entre os diferentes povos. Seus filmes transitam da guerra civil espanhola, como em Terra e Liberdade (Land and Freedom, 1995), à discriminação racial inserida num ambiente político, como em Pão e Rosas (Bread and Roses, 2000). Neste, duas mexicanas que trabalham nos Estados Unidos lutam por melhores condições de trabalho. Mesmo no ácido curta-metragem inserido no filme 11 de Setembro (11´09"01, 2002), relaciona a data do atentado a outro acontecimento, no caso a tomada de poder do governo de Allende por Pinochet no Chile em 1973.

E este cinema engajado que grita a favor de uma igualdade utópica, não é privilégio do cinema dito "independente". Hollywood nos seus áureos tempos se pôs a serviço de uma causa produzindo inúmeros filmes que tinham como tema à exclusão do negro na sociedade.

O ator negro Sidney Poitier se notabilizou por estrelar trabalhos no qual interpretava negros sempre inseridos numa sociedade norte-americana racista e preconceituosa. É inesquecível seu trabalho em Adivinhe Quem Vem para Jantar (Guess Who´s Coming to Dinner, 1967) e no mesmo ano em No Calor da Noite (In the Heat of the Night, 1967), em que interpreta um detetive suspeito de assassinato numa cidade do Mississipi só por ser negro.

De uma forma direcionada, o cinema também foi usado como arma ideológica para a construção do socialismo por Lênin, líder da revolução bolchevique que decretou a nacionalização do setor e criou uma escola de cinema estatal. Serguei Eisenstein foi o maior representante desta vertente cinematográfica, que objetivava propagar uma cultura de origem proletária em defesa da arte fundada no coletivismo trabalhista, em prol da manifestação de energia de classe, espontaneidade e inteligência revolucionário-socialista no processo artístico. Entre seus filmes se destaca A Greve (Statchka, 1924), considerada a primeira criação revolucionária do cinema, que mostra a luta do proletário até a tomada do poder desde as manifestações, as lutas clandestinas, prisões e greves. E também Outubro - Dez dias que abalaram o mundo (Oktiabr - Dessiat Dnei Kotoye Potriasli Mir, 1928), filme realizado em comemoração aos dez anos da Revolução de 1917 liderada por Lênin.

Foi também através de um cinema engajado no âmbito social, embora escondido pelo riso, pelas trapalhadas e confusões de um vagabundo de bengala e chapéu de nome Carlitos, personagem criado por Charles Chaplin, que fomos presenteados por belos exemplares de uma contudente crítica relacionada à exclusão social. Em seus filmes percebemos a miséria e a fome como Em Busca do Ouro (The Gold Rush, 1925), a exploração do trabalhador em Tempos Modernos (Modern Times, 1936), o preconceito social, as injustiças da sociedade e a perseguição em O Grande Ditador (The Great Dictator, 1940). E é na década de 40 que surge na Europa, mais precisamente na Itália arrasada do pós-guerra, com o lançamento do filme de Roberto Rossellini, Roma, Cidade Aberta (Romma, Città Aperta, 1944-1945), o neo-realismo italiano que se caracterizou pelo uso de elementos da realidade na representação social e econômica.

Mas é com Ladrões de Bicicleta (Ladri di Biciclette, 1948), de Vittorio DeSica, que o Neo-Realismo produz uma das obras mais expressivas e emblemáticas de sua estética, ao contar a história de um homem recém-empregado que tem seu instrumento de trabalho - a bicicleta - roubado, e assim ameaçado de perder o emprego, num conturbado período no qual a classe trabalhadora urbana encontrava-se assombrada pelo desemprego.

Já no Brasil surge o Cinema Novo, inspirado pela estética Neo-realista, com filmes voltados à realidade brasileira e com uma linguagem adequada à situação social da época, cujo os temas mais abordados estariam fortemente ligados ao subdesenvolvimento do país. Dentre os cineastas que aderiram ao movimento estavam Nelson Pereira dos Santos com Rio, 40 Graus (1955), considerada a obra inspiradora do movimento, seguido por Glauber Rocha, de Deus e o Diabo na Terra do Sol ( 1964) e Terra em Transe ( 1967).

O cinema jamais deixou de pensar o mundo, refletir sobre seus problemas, buscar respostas e clamar contra as injustiças.

É evidente que as mudanças tardam a acontecer, se um dia vierem realmente a acontecer, mas o certo é que está tudo registrado para sempre na imortal memória do cinema. E se um dia pararmos para refletir sobre um frame que seja, de um dos filmes acima citados, pode ser um bom começo.

Fotos: Divulgação / capa: www.sxc.hu

Quem é o colunista: Pedro Giaquinto, 31, formado em artes cênicas e letras. Seu maior objetivo no momento é conseguir financiamento para seu curta-metragem Roda, Vida Gigante.

O que faz: É produtor e escreve críticas sobre filmes em outros sites.

Pecado gastronômico: massas em geral.

Melhor lugar do Brasil: São Paulo no feriado.

Fale com ele: pedrogia@gmail.com

Atualizado em 6 Set 2011.

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