Guia da Semana

O não Amor

Os traumas do passado e a violência física e psicológica. O novo filme-documentário de João Jardim mostra que a crueldade do cotidiano está muito mais próxima do que parece

Fotos: divulgação

Julia Lemmertz dá voz ao personagem Alice

"Ela (agressão) surge das coisas mais triviais das relações humanas. Tudo é pretexto, é uma necessidade de agredir. É quase fisiológico, sabe? Aí depois que você dá vazão a essa porra desse instinto horroroso, aí você se arrepende". (Eduardo Moscovis interpretando Fernando, em Amor?)

Premiado em novembro de 2010 no Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, o longa-metragem Amor? tem como pano de fundo esse sentimento tão universalmente louvado. Mas, aqui, o objetivo é falar das diversas formas de violência que as relações íntimas podem gerar. João Jardim - diretor dos documentários Janela da Alma (2002), Pro Dia Nascer Feliz (2006), e co-diretor de Lixo Extraordinário (2010), indicado ao Oscar 2010 - leva para o cinema uma mistura poética entre documentário e ficção.

Com base em uma pesquisa sobre relações amorosas marcadas pela agressão, João Jardim reuniu, em um ano, 60 depoimentos de agressores e agredidos e extraiu deles oito histórias reais. Para evitar constrangimentos e não sofrer censuras jurídicas por parte dos depoentes, ele procurou a verossimilhança nas interpretações de Julia Lemmertz, Ângelo Antonio, Eduardo Moscovis, Lilia Cabral, Mariana Lima, Fabiula Nascimento, Silvia Lourenço, Claudio Jaborandy e Letícia Colin para dar voz aos relatos.

Seja por amor ou ódio, é impossível ficar impassível aos 100 minutos da obra. As curtas histórias provocam no público desconforto, sadismo e até reconhecimento dos próprios instintos ou de seus semelhantes. Confira a entrevista que o Guia da Semana teve com o diretor, que denuncia o caráter explosivo e a inquietante mistura do binômio amor e violência.

Guia da Semana: Como surgiu a ideia de relatar esse assunto tão polêmico e controverso em um longa metragem?
João Jardim:
O filme fala como uma relação afetiva entre casais pode chegar a conter violência, mas não é propriamente um filme sobre violência. Uma das vontades surgiu de fazer um filme sobre o tema amor. A outra veio do fato de que a gente lê muito essas questões de violência entre casais e percebe que elas nunca trazem o aspecto mais subjetivo, a evolução, como uma relação começa de uma maneira afetiva e vai desenvolvendo para essa coisa de alguém oprimindo alguém. Eu tinha muito interesse em explorar esse universo, do jogo de poder que acontece com um casal, do acordo entre eles para que aquilo vá evoluir ou mesmo do sadismo de alguns e masoquismo de outros.



Para o filme, João Jardim colheu 60 entrevistas

Guia da Semana: Teve algum fato ou notícia que chamou atenção para o assunto?
Jardim:
Tem o caso Eloá, tem o da mulher da Barra da Tijuca que matou o marido e fugiu, enfim, foram várias notícias, isso acontece o tempo todo, porque todas as notícias são drásticas, mas não tem nenhuma específica. O pitoresco mesmo e mais relevante é essa coisa comum de só reportar o fato como se houvesse uma doença, alguém que faz uma aberração. Queria ver o que está por trás disso e achei que dava para fazer um filme interessante sobre o lado mais corriqueiro desse tipo de violência.

Guia da Semana: Quantos foram os depoimentos colhidos até chegar nesses oito relatos?
Jardim:
A gente fez muita pesquisa. A primeira foi de relatos e a outra foi sobre as pessoas que lidam com esse tipo de assunto. Mas foram em torno de 60, e o que me fez escolher os atores foi a capacidade das pessoas de contarem a história de forma imagética, de forma que, quando a gente veja, imagine os personagens.

Guia da Semana: Como foi feita a escolha dos atores?
Jardim:
Eu procurei pessoas que incorporassem para elas as histórias. É uma questão de propriedade, eles tinham que se apropriar. Buscamos atores com bastante recurso, que tivessem essa possibilidade de transfigurar para as telas sendo eles mesmos, fiéis as suas próprias essências.

Guia da Semana: Alguns relatos mostram certa peculiaridade, como no depoimento interpretado por Eduardo Moscovis, em que fica com o celular ligado enquanto narra os motivos que levavam a agredir suas parceiras. Os depoimentos foram reproduzidos fielmente?
Jardim:
Quase completamente. Aquilo ali foi reproduzido quase que igual ao modo que as pessoas falaram. O interessante é isso, o texto tem algo de documental, embora todas as imagens sejam ficcionais. Os atores usaram as suas próprias roupas, eles não tiveram figurino nem maquiadores. A busca foi de fazer uma coisa meio ficção, meio documentário, com foco no conteúdo mesmo daquilo que está se dizendo.

Guia da Semana: Eu gostaria de comentar sobre isso, já que a parte documental está muito presente nos seus trabalhos. Por que sempre busca esse viés?
Jardim:
Até agora as ideias que tinham me ocorrido eram de documentário. Esse filme tem a coisa bem híbrida, da ficção com documentário. Eu acho que o mundo hoje em dia faz a gente pensar por nós mesmos, e as formas que tenho encontrado de expressar as minhas opiniões foram essas.

Guia da Semana: Dos relatos que você encontrou, qual mais chocou?
Jardim:
Acho que me impressiona muito o relato interpretado por Lilia Cabral, pelo fato de ser uma história em que envolvia violência, foi superada, e o casal permaneceu junto. Também fiquei impressionado com o relato de Ângelo Antônio, que mostra um homem tão luxuoso, culto, falando de um comportamento tão exacerbado. Impressionaram muito a inteligência e a lucidez dele, ao mesmo tempo em que tinha uma falta de controle tão grande com as emoções.

Guia da Semana: De certa forma, quem assiste ao filme acaba vendo muito pessoas, relações ou situações próximas...
Jardim:
O legal é que isso não foi intencional e foi uma das coisas que mais me surpreendeu quando ficou pronto, porque recebi esse tipo de comentário várias vezes. Isso foi uma das coisas mais surpreendentes, como as pessoas se veem. Como diria o Nelson Rodrigues, de perto ninguém é normal.


Eduardo Moscovis encarna o agressor Fernando

Guia da Semana: Depois da pesquisa e do documentário pronto, como você vê essa relação entre amor e violência?
Jardim:
Eu vejo que isso é uma coisa muito insidiosa, ela chega devagarzinho e pode pegar um grande número de pessoas. Quando nos damos conta, a gente já está muito envolvido e não consegue sair.

Guia da Semana: Nos relatos, vocês trabalham com vários tipos de relacionamento e atingem todas as opções sexuais. Poderíamos dizer que esse tipo de violência não tem cara nem sexo?
Jardim:
Existem, aquelas pessoas que têm essa predestinação e no primeiro encontro você já percebe, mas existem também aqueles que você só percebe depois. A mulher também exerce essa função, mas, na sua maioria, parte do homem. Tem sempre essa coisa do sádico e do masoquista, e a dependência acaba sendo das duas partes, tanto do agressor como do agredido.

Guia da Semana: Você teve alguma inspiração na hora de montar o filme?
Jardim:
Não tive nenhuma referência. Foi uma coisa que eu trabalhei muito em função do conteúdo, pelo tamanho dele eu fiz com a maior liberdade possível. É super despretensioso, porque partiu da inspiração minha, da equipe, dos atores, tentando seguir nenhuma referência.

Guia da Semana: Como você vê a semelhança que muitos críticos veem com o documentário Jogo de Cena, do Eduardo Coutinho?
Jardim:
Ele usa o mesmo artifício do Jogo de Cena, mas é um artifício que já foi usado muitas vezes por filmes nacionais e estrangeiros. O Jogo de Cena é muito focado na questão da interpretação, por isso dá a troca de atores e não atores. O nosso usa do mesmo artifício cinematográfico pra falar de coisas que as próprias pessoas não falariam na frente das câmeras. Eu não me incomodo com a comparação, acho bom pelo filme do Coutinho ser um ótimo filme.

Guia da Semana: Você pretende passar alguma mensagem para o público?
Jardim:
Não tem nenhuma mensagem predestinada do que quero passar. Normalmente eu não trabalho muito com isso, quero que as pessoas pensem e acreditem no que quiserem. Ele é um filme sobre amor, ou não, nê, porque a pergunta do título questiona isso. É para as pessoas verem e viajarem, mas não tem uma mensagem, conclusão ou lição.

Guia da Semana: Saindo um pouco do filme, eu gostaria que você comentasse a participação do documentário Lixo Extraordinário e essa indicação para o Oscar.
Jardim:
Foi um presente, uma super oportunidade, muito legal. Foi bom ter ido, foi ótimo o filme ter essa repercussão. Passei seis meses no filme e o trabalho em Gramado levou comoção a vários países. Foi muito positivo mesmo.


Ficha Técnica
Amor?
Título original: Amor?
Diretor: João Jardim
Elenco: Lilia Cabral, Eduardo Moscovis, Ângelo Antônio e Júlia Lemmertz
Tempo de duração: 100 minutos 
Ano de lançamento: 2010

Atualizado em 10 Abr 2012.

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