Guia da Semana

O Segredo do Grão

O filme, com atores amadores, ganhou o César 2008, o maior prêmio do cinema francês

Foto: Divulgação


Com a 34ª edição da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo em andamento, sempre me vem à cabeça lembranças de filmes vistos em outras mostras. Filmes que marcaram e ficaram gravados em minha lembrança, com afeto e carinho. Um desses filmes que vi na Mostra do ano passado e que me impressionou bastante chama-se O Segredo do Grão , e pode ser encontrado em DVD para quem quiser conferir.

Vencedor do César 2008 - o mais importante prêmio do cinema francês -, nas categorias de melhor filme e melhor direção, O Segredo do Grão (La Graine et le Mulet) conta a história de um imigrante árabe radicado na França chamado Slimane Beiji, de sua numerosa e falante família e de seu velho sonho de abrir um restaurante.

Para dar vida a uma história de família - e à aventura humana para inaugurar o restaurante - o diretor tunisiano Abdel Kechiche se valeu de coragem e determinação. Escalou um elenco de atores amadores e os deixou livres para improvisar. Tudo para evitar a todo custo a artificialidade. Antes, porém, os preparou em longos ensaios, nos quais se buscou uma perfeita sintonia entre os atores. Valeu a pena o esforço, pois no filme tudo funciona perfeitamente. E talvez daí venha o maior segredo de La Graine et le Mulet.

Percebe-se no filme uma nítida franqueza no realismo e na naturalidade com que as cenas são montadas, com o encadeamento da narrativa. Uma franqueza presente na belíssima sequência do almoço em família ou nas discussões dos problemas e pequenezas da intimidade familiar e até numa estonteante cena de dança do ventre. São partes de uma fórmula e de um risco assumido pelo diretor que, no final das contas, se revelam acertados, trazendo para a tela sentimentos, explosões, dramas e realidades tão cotidianas e comuns a todas as famílias.

Tudo gira em torno de Slimane: velho, cansado, introvertido e silencioso. Ao seu redor, eclodem as tempestades da família: alegrias, ressentimentos, frustrações, amores. E é também para ele que todos se voltam no esforço coletivo pela realização de um sonho seu.

É daí que advém a beleza mais pura do filme. Ele retrata cada um com suas pequenas intrigas pessoais, mas também mostra o amor pelo pai, apesar das diferenças. Um homem saído de casa, separado da esposa e que vive com outra mulher e com a enteada, para quem também é pai, digno de amor e dedicação.

Sendo uma família árabe, perpassa todo o filme o sentimento de tradições culturais. Um sentimento de origem que em certa medida conflita com a nacionalidade francesa dos mais moços, já nascidos no estrangeiro. Um sentimento de não-pertencimento e, ao mesmo tempo, de nacionalidade. Porque são franceses, mas também árabes.

E toda essa riqueza de questões e abordagens entre família, cultura, identidade e problemas converge, por fim, no projeto pessoal de Slimane: abrir um restaurante num barco. É a dedicação de todos em torno desse projeto e o esquecimento momentâneo das diferenças em função do pai e de seu sonho que mais comovem e embelezam o filme.

O diretor não deposita nesse objeto do sonho um artificialismo dramático. O que há é a grandiosa demanda da aventura humana. A vida em seu estado natural, sem grandes assombros, com todo seu significado de simplicidades. Por isso, a trama não se permite a obviedade de grandes reviravoltas, o que não tira a tensão do filme, presente até mesmo no prosaico gesto de levar uma panela ao fogo.

É aí que se nota o quanto o filme nos ganhou, o quanto estamos com os personagens, o quanto nos tornamos parte daquele sonho e torcemos por seu sucesso. E quando, sem grande alarde, o desastre parece se anunciar e o insucesso parece certo, já estamos presos, já fazemos parte da família de Slimane.

Surge então - como se já não tivesse mostrado um talento ímpar durante todo o filme - a jovem atriz Hafsia Herzi, que protagoniza uma longa dança do ventre da qual é impossível tirar os olhos. Talvez o ponto alto do filme, não apenas pelo denso e inesperado erotismo, mas pelo que seu gesto dedicado representa como parte de sua contribuição pelo sonho daquele velho homem dentro do silêncio lacônico.

O desfecho de O Segredo do Grão é súbito e pode, num primeiro momento, parecer destituído de sentido, como se toda a riqueza de sua construção levasse para o vago, o lugar-comum. Mas um olhar mais atento dos últimos gestos dos personagens revelará a amarração de todas as pontas. Fechados os dramas de cada um, sem que isso represente necessariamente um final, mas apenas a continuação. E por trás de tudo isso o significado maior da vida de Slimane. Um filme belíssimo e raro.


Leia
 as colunas anteriores de Rogério de Moraes:

Duas Semanas de Filme

O chato (ou não)

Marco para o Cinema



Quem é o colunista: gordo, ranzinza e de óculos.

O que faz: blogueiro, escritor e metido a crítico de cinema.

Pecado gastronômico: massas.

Melhor lugar do Brasil: qualquer lugar onde estejam meus livros, meus filmes, minhas músicas, meus amigos e minha namorada.

Fale com ele: rogercodegm@gmail.com ou acesse seu blog

Atualizado em 6 Set 2011.

Compartilhe

Comentários

Outras notícias recomendadas

Apresentador Jimmy Kimmel comandará o Oscar 2017

Notícia foi confirmada pela revista Variety

Assista à nova prévia de "Tamo Junto", comédia estrelada por Sophie Charlotte e Fábio Porchat

Longa apresenta humor repleto de referências da cultura pop

Bertolucci revela que houve estupro em cena de "Último Tango em Paris" e revolta Hollywood

"Queria sua reação como garota, não como atriz", disse o diretor

História do palhaço Bozo será contada nos cinemas; assista ao trailer de "Bingo: O Rei das Manhãs"

Elenco terá Vladimir Brichta, Leandra Leal e Pedro Bial

Ator de “Power Rangers” faz homenagem à Chapecoense durante a CCXP 2016

Elenco do filme participa da terceira edição da feira de cultura pop em São Paulo

Veja os melhores cosplays da Comic Con Experience 2016 (CCXP)

Evento acontece no São Paulo Expo entre 1 e 4 de dezembro