Guia da Semana

O Stradivarius de Bergman

A norueguesa Liv Ullmann, de passagem pelo Brasil, fala sobre sua vida, carreira e da relação com o cineasta sueco

Foto: Gabriel Oliveira
Liv Ullmann ao lado do cartaz da mostra em sua homenagem, na Cinemateca Brasileira, em São Paulo.

Liv Ullmann é norueguesa, mas nasceu em Tóquio, no Japão, e detesta bacalhau. A atriz sempre é lembrada como a musa do cineasta sueco Ingmar Bergman, com quem viveu por cinco anos e fez onze filmes, mesmo não considerando nenhum destes o seu principal trabalho. A mulher foi considerada um grande símbolo do feminismo, sem nunca concordar com as idéias do movimento. Apesar das contradições em sua vida, a atriz e diretora de 69 anos mantém suas convicções de quando era mais jovem. "Durante a vida, não mudamos tanto".

O trabalho pelo qual Ullmann é mais lembrada é também o primeiro que fez com Bergman, Persona, que ele escreveu para ela e Bibi Anderson ao perceber a semelhança entre as duas. Bibi, musa do cineasta, perdeu o posto para Liv, que passou a ter também um romance com o diretor, do qual nasceu a filha Linn. Porém, Ullmann considera seus melhores filmes, dois que fez com o também sueco Jan Troell, Os Emigrantes, de 1971, e O Preço do Triunfo, de 1972, sobre uma família da Suécia que tenta a vida na América. Após 45 anos como atriz, lançou-se diretora de longas-metragens, em 1992, com Sophia.

Em visita ao Brasil, a atriz tenta mostrar um pouco de sua carreira não tão conhecida por aqui, principalmente ofuscada pela genialidade de Bergman, com quem fez seus filmes mais conhecidos. Liv conta, porém, que o diretor tinha consciência de sua importância. Meses antes de ele morrer, ligou para ela e não se intimidou em dizer "você é meu Stradivarius", diz ela com os olhos marejados. Não é a primeira visita da atriz ao país, há 14 anos já havia vindo para um projeto com crianças de rua. Desta vez, participa de uma mostra em sua homenagem na Cinemateca Brasileira, em São Paulo, que exibirá seus principais filmes como atriz e diretora.

Foto: Gabriel Oliveira
Liv Ullmann, em coletiva de imprensa, se emociona ao falar de Ingmar Bergman.

Assim como os cineastas com quem trabalhou, Ullmann tem uma preocupação com o conteúdo de suas obras. "Infelizmente muitos dos filmes que são feitos apelam para uma parte preguiçosa da gente, e fazer um filme é uma oportunidade enorme de criar uma experiência inesquecível que pode mudar a vida de quem assiste", diz. A cineasta acredita que vivemos em um mundo triste e que o cinema poderia nos fazer refletir sobre ele, como acontece em Cidade de Deus e Central do Brasil. Liv, que teve uma infância protegida, pôde conhecer as dificuldades do mundo nas salas escuras, principalmente nos filmes do italiano Vittorio de Sica, em que aprendeu a conviver com um mundo diferente do dela.

Outro motivo da vinda da estrela é a reedição de seu livro Mutações, de 1976, pela editora Cosac Naify. Mesmo depois de tanto tempo, Liv não acha que muita coisa mudou em seu modo de pensar desde então, por isso acredita que a obra está atual. "Sou aquela mesma pessoa que escreveu há quase 35 anos". Dedicado à filha Linn Ullmann, que depois se tornaria escritora, o livro auto-biográfico conta um pouco sobre a infância da atriz, sua juventude, os amores e sua relação com a filha. Mesmo imaginando que se tratasse de um retrato feminino, Liv ainda tem respostas também de homens que se identificaram com a obra.

E mais do que feminino, muitas mulheres na época chegaram a acreditar que fosse um livro feminista, tornando a atriz em um símbolo do movimento. Como a obra foi traduzida em muitos idiomas, ela ficou conhecida assim no mundo todo, o que foi um susto, porque não era o que ela queria passar. Ao contrário de um manifesto pela causa, ela apenas escreveu sobre sua vida íntima. "Eu nunca me enxerguei como uma feminista, mas eu sempre acreditei que somos iguais, homens e mulheres, que todos temos o mesmo valor", revela Ullmann. Mesmo assim, confessa que se não fosse a fama, iria preferir se dedicar a um só homem durante toda a vida.

Foto: imdb.com
Liv Ullmann ao lado de Ingmar Bergman durante as filmagens de A Hora do Lobo, de 1968.

No livro ela revela parte de sua relação com Ingmar Bergman, com quem viveu entre 1966 e 1971, mas com quem trabalhou por muitos anos. É dele o roteiro de dois de seus cinco filmes, Conversações Privadas, de 1996, e Infiel, de 2000, enquanto ela é atriz do último filme dele, Sarabanda, de 2003. O filme é uma seqüência de Cenas de um Casamento, 30 anos depois. Originalmente feito como série de televisão, o filme de 1973 era como um "mea culpa" do diretor pelo fim do relacionamento.

Durante as filmagens de Sarabanda, Liv conta que houve um fato cômico entre os dois. Bergman a queria nua em uma cena e, como ela acredita que era para ver se seu corpo ainda era bonito depois dos 60, não aceitou. Os dois discutiram e ela, assustada, saiu correndo dele, que foi atrás por todo o estúdio, mesmo com seus 85 anos. Quando perceberam o ridículo da situação, riram, mas envergonhados, fingiram que a briga foi maior do que aconteceu. "Ingmar era muito infantil e eu sou muito infantil", revela.


Se estiver em São Paulo, confira aqui a programação da mostra sobre Liv Ullmann.

Ingmar Bergman, morto em 30 de julho de 2007, será um dos homenageados da 32ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo.

Atualizado em 6 Set 2011.

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