Guia da Semana

O Último Suspiro

O Dia em que a Terra Parou chega para alertar a humanidade e salva o ano ruim da Fox, com remake à altura do original de 1951

Los Angeles


A seqüência de filmes com temática ambiental que acometeu Hollywood não poderia terminar de forma melhor. Depois do fracasso de The Happening e da poesia de Wall-E, O Dia em que a Terra Parou surge como soco na cara de uma civilização à beira do colapso, mas pouco interessada em seu futuro. Sem o medo nuclear que motivou o original de 1951, o novo filme de Keanu Reeves deixa claro: ou fazemos algo, ou algo fará alguma coisa com a gente. A mensagem é entregue de forma competente e acertada para o público de hoje.

Klaatu é um alienígena enviado à Terra. Sua função é salvar o planeta. Sim, o planeta, não os humanos. Esse conceito reverbera na ficção científica desde a primeira versão de O Dia em que a Terra Parou e encontrou portavozes famosos como o agente Smith, em Matrix, que nos compara a um vírus destruidor. Agora a mensagem original retorna aos cinemas, com nova roupagem, elenco de famosos e todo seu discurso de urgência. Na primeira versão, o perigo era o holocausto nuclear, que tanto influenciou o mundo por conta da Guerra Fria. Mas agora não há armas ou guerras envolvidas. O erro está mesmo em nossa raça.

Por isso, uma raça mais inteligente decide preservar o ecossistema terrestre. E estamos no caminho. Ótimo argumento para colocar todo mundo em risco logo de cara. A sempre linda Jennifer Connelly surge como uma das cientistas envolvidas na investigação sobre um objeto prestes a se chocar com a Terra. Mas em vez de uma grande explosão apocalíptica, somos confrontados com um emissário. Como bom emissário, há uma mensagem, uma necessidade de contato, mas todas as tentativas são infrutíferas, por conta da postura militar norte-americana, que faz o que bem entende em prol da segurança nacional. Crítica direta e atual, mas curiosamente reciclada do roteiro original de Edmund H. North. Algumas coisas realmente não mudam, para azar dos norteamericanos que se vêem incapazes de fazer qualquer coisa para evitar a tragédia.

Em O Dia em que a Terra Parou temos apenas uma arma capaz de impedir o fim do mundo: a compaixão e a inteligência. Por mais que Jaden Smith e Jennifer Connelly se esforcem para mostrar a Klaatu que merecemos outra chance, o melhor momento do filme envolve Keanu Reeves e John Cleese, num diálogo fantástico, mas sem palavras.

A direção de Scott Derrickson é objetiva e permite que o filme siga seu curso sem grandes tropeços, mas vai atrair a atenção de espectadores mais radicais na escolha pelo modo como o robô indestrutível Gort se apresenta. Sem dúvida não haveria espaço para um sujeito dentro de uma fantasia, como no filme de 1951. As novidades envolvendo o modo como ele se comporta foram bastante arriscadas e funcionaram para o novo roteiro.

Embora seja mais um filme que levante a lebre do "qual a validade do remake?", O Dia em que a Terra Parou não conseguiria grande atenção caso fosse apenas relançado nos cinemas. A linguagem não faria sentido para boa parte do público atual. Seu estilo de atuação pesado e a pouca verossimilhança dos efeitos especiais de 1951 poderiam causar risos na geração iPod. O original sempre estará à disposição de quem conheceu Klaatu com o rosto de Michael Rennie e direção do genial Robert Wise. Mas o novo filme se faz necessário no mundo de hoje. Mais de 50 anos se passaram e a ameaça ainda existe. Sob outra forma, mas está lá.

Sorte da Fox, que conseguiu salvar um ano marcado por fracassos qualitativos e com apenas alguns momentos de felicidade nas bilheterias. E bom também para Keanu Reeves, que está de volta ao topo, com um papel que ficou na gaveta por 15 anos e sempre teve o galã como personagem principal.

O Fator Keanu Reeves

A vocação de Keanu Reeves para astro de ficção científica não é coisa nova. Aliás, a maioria de seus sucessos aconteceu dentro desse gênero. Entretanto, ele sempre fez as vezes de mocinho. Seja em Johnny Mnemonic, As Aventuras de Billy e Ted ou no clássico Drácula, Reeves foi construindo seu caminho enquanto aproveitava cada oportunidade de estrelar romances à la Casa do Lago - que também tem seu pezinho no fantástico. Embora Neo tenha sido o maior acerto de sua vida, interpretar Klaatu se mostra mais perfeito ainda, por conta de algo que só ele sabe fazer: ser inexpressivo.

Não que o ator seja assim o tempo todo. Mas essa é uma realidade com a qual ele convive e treina constantemente. Keanu não esconde suas limitações e por isso é conhecido como um dos atores mais aplicados em termos de preparação. Exatamente por isso, simular um alienígena desprovido de emoções se torna algo difícil hoje em dia. Obviamente, um bando de atores metidos a gênio tentaria agregar algo ao personagem e dar seu toque pessoal, enquanto Reeves se encaixou bem na função. O diretor só precisou dizer a ele: "vai lá, mantenha seu rosto imutável e mande ver nas suas falas". E pronto! Nasceu Klaatu.

Esse é um ponto bastante positivo para o filme, uma vez que encontrar uma interpretação tão genuína assim evita os clichês de gênero ou algumas das canastrices do filme original. Reeves entregou um pouco desse estilo no terceiro Matrix, quando interagia com as máquinas - seres também desprovidos de emoção - que tinham interesse apenas em sua mensagem e função, não em suas reações. Assim é Klaatu, um personagem já histórico, que será capaz de cruzar a barreira de ícone da ficção científica para as revistas femininas, por conta da união entre os apreciados traços de Reeves e um personagem que vai decidir o futuro da humanidade.


Quem é o colunista: Fábio M. Barreto adora escrever, não dispensa uma noitada na frente do vídeo game e é apaixonado pela filha, Ariel. Entre suas esquisitices prediletas está o fanatismo por Guerra nas Estrelas e uma medalha de ouro como Campeão Paulista Universitário de Arco e Flecha.

O que faz: Jornalista profissional há 12 anos, correspondente internacional em Los Angeles, crítico de cinema e vivendo o grande sonho de cobrir o mundo do entretenimento em Hollywood.

Pecado gastronômico: Morango com Creme de Leite! Diretamente do Olimpo!

Melhor lugar do Brasil: There´s no place like home. Onde quer que seja, nosso lar é sempre o melhor lugar.


Atualizado em 6 Set 2011.

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