Guia da Semana

O Vizinho: racismo e violência em filme incômodo

Samuel L. Jackson cria um sujeito odioso e explosivo que usa a lei como escudo para moldar o mundo a sua volta

Los Angeles


O drama O Vizinho é incômodo. Não por ser uma grande crítica social ou por causar espanto às pessoas, mas sim por seus excessos. Tanto pelo elemento racial altamente discutido quanto pela vitalidade com que Samuel L. Jackson vive o personagem principal, o longa-metragem marca muito mais pela ojeriza que seus interlocutores provocam do que pela obra em si. Tudo isso para contar a história de um policial negro extremamente racista, abusivo e violento, algo que o Departamento de Polícia de Los Angeles luta para expurgar de suas fileiras.

Uma primeira leitura de O Vizinho pode assemelhar sua trama ao suspense Obsessão Fatal, com Ray Liotta. Entretanto esse longa-metragem (produzido por Will Smith) aborda os abusos policiais pelo aspecto racial e paranóico que domina os Estados Unidos, onde o filme estreou antes da eleição de Barack Obama. A premissa de que ter um policial como vizinho é bom cai por terra quando o oficial em questão se revela extremista e adora posturas fascistas perante seus vizinhos - um casal birracial interpretado por Patrick Wilson ( Pecados Íntimos) e Kerry Washington ( O Último Rei da Escócia).

Tudo acontece com o pano de fundo dos incêndios que varreram a Califórnia no ano passado, garantindo a analogia de que tudo ali está prestes a ser consumido pelas chamas. No caso de Jackson, as chamas são de ódio racial e falta de senso comum, enquanto os vizinhos precisam redefinir sua vida como casal e decidir se lutam ou fogem dos ataques de seu vizinho radical. Há exageros por todos os lados. Jackson causa desconforto. Wilson tenta ser Keanu Reeves em Virando o Jogo, mas o pacifismo não resolve e a agressividade alheia cerceia suas reações.

É um jogo de poder ali com o cidadão comum perdendo de lavada antes de a partida começar. Claro que o desfecho moral é necessário ali, porém nada acontece como deve afinal, mais exageros permeiam a conclusão do filme. As questões relevantes à discussão sobre relacionamentos birraciais, racismo, por parte do policial negro, e os exageros da polícia são assuntos que surgem, mas ficam em aberto, assim como o destino da pequena comunidade de casas de luxo onde vivem os personagens.

Tudo pode terminar em cinzas por conta do incêndio, ou pode ter sido apenas mais um elemento que, como todo o restante, foi apresentado, serviu para mostrar como o ódio pode transtornar uma pessoa (sem a relevância de Dia de Fúria) e ficou para trás, assim como a lembrança dos incêndios. Quem sofreu um pouco com isso foi o Departamento de Polícia de Los Angeles que levou anos para mudar sua imagem de violento e agressivo, mas ainda tem que ver uma faceta complicada como essa ganhando as telonas.


Quem é o colunista: Fábio M. Barreto adora escrever, não dispensa uma noitada na frente do vídeo game e é apaixonado pela filha, Ariel. Entre suas esquisitices prediletas está o fanatismo por Guerra nas Estrelas e uma medalha de ouro como Campeão Paulista Universitário de Arco e Flecha.

O que faz: Jornalista profissional há 12 anos, correspondente internacional em Los Angeles, crítico de cinema e vivendo o grande sonho de cobrir o mundo do entretenimento em Hollywood.

Pecado gastronômico: Morango com Creme de Leite! Diretamente do Olimpo!

Melhor lugar do Brasil: There´s no place like home. Onde quer que seja, nosso lar é sempre o melhor lugar.

Atualizado em 6 Set 2011.

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