Guia da Semana

Os sonhos de Neil Gaiman

Escritor conversa com nosso correspondente sobre seu best seller Coraline e o Mundo Secreto

Los Angeles


Sempre envolvido com grandes idéias, talento fora do comum e dom para maravilhar a cada novo livro, Neil Gaiman encontrou a felicidade cinematográfica com Coraline e o Mundo Secreto, animação em stop-motion de um de seus best sellers, que mistura fantasia, terror, suspense e coragem numa única história e única personagem. Coraline Jones (voz de Dakota Fanning) é o ponto chave de uma aventura que nasceu na literatura. O fato de ser dirigido por Henry Selick, diretor de O Estranho Mundo de Jack, só aumentou a relevância. Aproveitando o lançamento do filme, Neil Gaiman falou com nosso correspondente, em Los Angeles. Confira.

Quando você notou essa possibilidade de explorar novos mundos e jornadas de autodescobrimento presentes em seus livros?
Neil Gaiman:
Não tenho a menor idéia. Essa é, provavelmente, uma daquelas coisas que acontecem quando você imagina que faz algo totalmente diferente e empolgante a cada novo livro, mas, quando colocam todos os livros em ordem, cai a ficha ´olha fiz tudo relacionado, veja só´. E eles se parecem. Definitivamente, existe esse tema na minha obra ficcional que possibilita o personagem a atravessar um portal e chegar a outro lugar que, embora semelhante ao nosso, seja totalmente diferente.

É algum tipo de "síndrome de Alice no País das Maravilhas"?
Neil Gaiman:
Pode ser, pois Alice no País das Maravilhas foi um livro que li, reli e reli tantas vezes que ele, provavelmente, foi gravado no meu DNA antes de me tornar escritor. 

Você já imaginou que Coraline seja um título - filme ou livro - capaz de ter esse efeito de longo prazo nas crianças? Ser algo formador como Alice foi o seu caso?
Neil Gaiman:
A coisa mais esquisita sobre Coraline é que ele foi publicado há sete anos. E sete anos é tempo demais para parâmetros infantis. Muita gente que leu por volta dos onze anos de idade vem falar comigo agora e as experiências são fantásticas. Coraline foi realmente um livro seminal para algumas gerações. É uma sensação estranha encarar tudo isso e eles acham que eu seria muito mais velho do que sou, me sinto culpado por não parecer um bom velhinho (risos). Aliás, são essas pessoas que estão ansiosas pela estréia do filme e pensando: "é bom terem feito direito ou alguém vai morrer!" (gargalhadas).

E a escolha de Henry Selick para dirigir? Deu certo?
Neil Gaiman:
Acho que ele mandou muito bem.

Você tem que dizer isso obrigatoriamente, confessa!
Neil Gaiman:
Humm, não, acho que o contrato desse não me obriga a elogiar. Por exemplo, o contrato de A Lenda de Beowulf me proíbe terminantemente de dizer nada ruim ou maldoso sobre o filme até o fim dos meus dias (risos).  Aliás, o negócio de Beowulf é o seguinte: será muito interessante ver onde os filmes de motion capture vão chegar daqui a dez anos, pois nada do que eles conseguiram seria possível sem esse filme. O que me impressionou nesse projeto foi o fato de terem gastado US$ 160 milhões num longa-metragem 3D para adultos, sem nenhuma tentativa de atrair crianças. Há toda a discussão sobre ter funcionado ou não, mas, como roteirista, tinha minhas dúvidas sobre a capacidade daqueles rostos transmitirem as emoções para funcionar bem e perdemos muito ali. Como romancista, escrevo o que as pessoas vão imaginar. Sou como o cara que constrói a casa e mostra para você, leitor. Agora, como roteirista, faço uma espécie de planta baixa e mando as especificações. Dois anos depois me chamam para ver e acabo comentando coisas do tipo: ´humm, notei que vocês colocaram o banheiro no meio da cozinha´ e alguém responde ´pois é, ninguém nunca tinha feito isso antes, por isso achamos legal fazer, não é bacana?´; ou então, ´e essa cor púrpura no lugar o branco, também mudou´, e a resposta ´sabe a namorada do produtor? ela tem certeza de que essa cor vai ficar melhor´ (gargalhadas).

E quanto a Stardust?
Neil Gaiman:
Esse eu também posso dizer o que bem entender. E gostei. O que acho mais interessante sobre Stardust é que daqui uns vinte anos, alguém pode querer refilmar e fazer algo diferente da visão que foi para os cinemas e, mesmo assim, ser tão interessante e dentro da proposta do livro. Sempre soube que o filme ficaria daquela maneira, pois a escolha do diretor define o tipo de filme que podemos esperar. Matthew Vaughn nunca faria algo à la Tarantino, Steven Spielberg ou Tim Burton, seria algo dentro do estilo dele. E foi o que aconteceu com Coraline. Terminei o primeiro tratamento e, mesmo faltando algumas páginas, pedi ao meu agente que enviasse a cópia para Henry Selick. Adorei O Estranho Mundo do Jack, sou um dos três seres humanos no mundo que notou que, embora o nome de Tim Burton esteja no título, o filme foi dirigido por ele e não pelo Tim (risos) e pelo fato de ter levado meus filhos para assistir a James e o Pêssego Gigante. Pensei: ´há algo interessante sobre esse cara´.

E o que é esse ´algo interessante´?
Neil Gaiman:
Especialmente no tocante à animação stop-motion, toda a atenção aos detalhes e a disposição de seguir a história de acordo com o necessário. Foi um processo muito longo para nós dois, por exemplo, quando o livro foi publicado em junho de 2002. Fiz uma leitura completa em São Francisco e, quando acabei de ler, três horas e meia mais tarde, tinha gente gritando ´leia de novo! Leia de novo!´ (risos). Henry estava lá. Ele acompanhou todo o processo de Coraline. Houve um momento em que os direitos do livro expiraram e fiz o que ninguém recomenda - fui até contra a norma da escola de escritores - e permiti a renovação gratuita. Queria que ele fizesse.

Há duas reações comuns sobre Coraline: gostei do livro, mas estou triste por meus filhos serem velhos demais para isso; e, gostei do livro, mas vou pensar duas vezes antes de mostrar para meus filhos. O filme seguirá esse caminho?
Neil Gaiman:
Acho que sim. Mas há uma terceira reação que pouca gente nota, pois não está presente nas críticas ou na internet: a reação das crianças. O que me fascinou, em Coraline, como livro, foi notar adultos encarando como horror - acham absolutamente assustador - e crianças vivendo uma grande aventura, como se estivessem lendo dois livros totalmente diferentes. Muito adulto se assusta por conta de memórias reprimidas da infância, mas a garotada não tem nada reprimido ainda, então, eles encaram de uma nova forma. Além disso, como adulto, você encara Coraline como a história de uma "criança em perigo" e esse é um dos gêneros literários mais assustadores possível, especialmente se você for um pai. Mas, para crianças, é algo do tipo James Bond. Eles se identificam com Coraline e sabem que, no fim das contas, ela vai se dar bem. Adultos já ficam com o pé atrás, pois me conhecem e ficam na dúvida se algo terrível vai, ou não, acontecer. Não há dúvidas para as crianças e elas gostam de enfrentar algo grande e assustador. Parando para pensar, vencer algo trivial é coisa do Disney Channel e não leva a lugar nenhum.

Um dos elementos mais marcantes da sua obra é o forte simbolismo. Em Deuses Americanos temos um graveto que se transforma em lança e, em Coraline, vemos botões representando um mundo bizarro e assustador. As histórias nascem ao redor dos símbolos ou eles são assimilados ao longo da criação?
Neil Gaiman:
Basicamente, todos esses símbolos são ferramentas que sempre estão à disposição do escritor. Agora, com os botões, estamos falando de algo muito esquisito para mim. Se alguém me desse uma máquina do tempo, garanto que antes de usá-la para zanzar por aí lutando contra vilões e alienígenas, eu voltaria vinte anos na minha vida para me dar um recado: ´em algum ponto no próximo ano, você terá a idéia de escrever um livro chamado Coraline, que ela terá uma Outra Mãe e ela terá botões pretos no lugar de olhos. Quando acontecer, por favor, escreva quando e como foi, pois você vai passar o resto da vida falando sobre isso´ (gargalhadas). Nunca prestei atenção e, realmente, não achei que isso se tranformaria num livro.

Leia as matérias anteriores do nosso correspondente:

Teri Hatcher:  mãe sob medida

Watchmen: cada vez mais perto

Encontro Notável: Gollum e Capricórnio
 


Quem é o colunista: Fábio M. Barreto adora escrever, não dispensa uma noitada na frente do vídeo game e é apaixonado pela filha, Ariel. Entre suas esquisitices prediletas está o fanatismo por Guerra nas Estrelas e uma medalha de ouro como Campeão Paulista Universitário de Arco e Flecha.

O que faz: Jornalista profissional há 12 anos, correspondente internacional em Los Angeles, crítico de cinema e vivendo o grande sonho de cobrir o mundo do entretenimento em Hollywood.

Pecado gastronômico: Morango com Creme de Leite! Diretamente do Olimpo!

Melhor lugar do Brasil: There´s no place like home. Onde quer que seja, nosso lar é sempre o melhor lugar.


Atualizado em 6 Set 2011.

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