Guia da Semana



Em um universo de acesso restrito até para os nativos da "terra dos bravos", como diz o hino deles, não posso deixar de destacar o surgimento, na primeira década deste século, de três sobrenomes que já figuram no panteão de grandes diretores de cinema nos EUA. Nomes de pronúncia e sotaque improváveis em meio a uma hegemonia, digamos, anglo-saxônica, no modo de se pronunciar nomes. E não bastando terem conquistado o merecido respeito da crítica e do público, une-se ao imprevisível o fato de compartilharem a mesma pátria-mãe e serem amigos.

Cuarón, Iñarritu e del Toro. Muito mais do que a nacionalidade mexicana, entre esses três nomes viceja e respira um cinema autoral, de veios fortes ligados a suas origens culturais, e fiéis à arte que se faz a 24 quadros por segundo.

Cada um desses diretores já tem no currículo, ao menos, um filme que posso chamar de assombroso: expressão que guardo exclusivamente para aqueles longas que me arrebatam de maneira avassaladora e me deixam sem palavras ao fim da sessão.

Alfonso Cuarón é diretor de E Sua Mãe Também, um filme que revela um olhar crítico sobre um México pobre à beira da estrada. O trabalho é um road movie que tira de um argumento inicial aparentemente óbvio (a exploração e a descoberta da sexualidade de dois adolescentes com uma mulher mais velha) a projeção de nuances sociais dentro da insustentável realidade do desconsolo, seja ele social ou íntimo.

Já Alejandro González Iñárritu nos surpreende com sua narrativa desestruturada chamada 21 Gramas. Um drama intenso no qual a vida de diversas pessoas se ligam inesperadamente pela tragédia particular de cada um. A perda, a morte, o medo, o desespero e a esperança de cada personagem se constroem na tela em uma edição não-linear. O filme, e toda sua estrutura narrativa, deixa de se montar na tela para ser montado dentro de nossa percepção, por meio de um caos aparente, no qual o caótico é apenas o reflexo do desconcerto da vida diante do trágico.

Por fim, Guillermo del Toro surpreendeu a crítica (e a mim) com sua fábula de contornos sombrios O Labirinto do Fauno. Um filme visualmente extraordinário, que visita o escapismo da fantasia infantil sem a inocência do encanto, recheado pela violência dos homens e pelo terror da imaginação. Uma história de fantasia, mas dentro do qual o universo imaginativo infantil não abre suas asas por aventuras felizes, mas se afunda no porão dos medos, das aflições e da esperança na fuga de uma realidade atroz.

Os exemplos acima mostram como esses três diretores permanecem comprometidos com suas visões particulares de cinema e narrativa e de como exploram possibilidades, mantendo-se fiéis às suas concepções artísticas, sejam estéticas ou narrativas. Alcançaram o sucesso sem abrir mão da qualidade e preservam não só a amizade como a ajuda mútua, onde o projeto de cada um sempre recebe o auxílio dos demais. A consolidação dessa relação de amizade e cinema se deu com a criação da Cha Cha Cha, a produtora que os três fundaram e que poderá lhes garantir alguma independência na realização e produção de filmes. O primeiro fruto foi exibido aqui no Brasil, por meio do Festival de Cinema Latino-Americano, com o filme Rudo e Cursy (Rude e Brega) que, dirigido por Carlos Cuarón (irmão de Alfonso Cuarón), foi produzido pelos três amigos.

A lição que esses três mexicanos vem dando ao cinema vai além da película e dos 24 quadros por segundo. Estabelece-se em fronteiras outrora difíceis de cruzar - como a cultural - e trilha caminhos que unem a amizade, valor máximo entre os homens, ao cinema, valor máximo da fantasia e do sonho.
Quem é o colunista: gordo, ranzinza e de óculos.

O que faz: blogueiro, escritor e metido a crítico de cinema.

Pecado gastronômico: massas.

Melhor lugar do Brasil: qualquer lugar onde estejam meus livros, meus filmes, minhas músicas, meus amigos e minha namorada.

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Atualizado em 6 Set 2011.