Guia da Semana

Paz, justiça e liberdade

A trajetória que levou à criação do Comando Vermelho visto sob a ótica de seus fundadores ganha as telonas com o longa 400 contra 1

Foto: divulgação/ Carolina Born


Brasil, década de 70. Enquanto os militares instituíam a repressão e censura, muitos jovens eram encarcerados por expressarem suas opiniões políticas. Nas celas, o convívio com os presos comuns servia para unir os dois grupos perante as injustiças que o sistema penitenciário corroborava. Além dos presos comuns adquirirem respeito pela disciplina e companheirismo dos revolucionários de esquerda, aos poucos assumiram essas virtudes para montar o que seria a polêmica organização que controla até hoje o crime em muitas favelas do Rio de Janeiro, o Comando Vermelho (CV).

Em cartaz a partir de 6 de agosto, o longa 400 contra 1 - Uma História do Crime Organizado é baseado no livro autobiográfico de William da Silva Lima, um dos principais fundadores do CV. A película aposta em cenas com truque de edição e ritmo dos videoclipes, aliando ao realismo documental para estrelar Daniel de Oliveira e Daniela Escobar a frente do elenco. Confira a entrevista do diretor Caco Souza, que conta suas principais impressões em seu primeiro longa-metragem.

Guia da Semana: Como surgiu a ideia de falar de um tema tão polêmico como esse, sobre a origem do Comando Vermelho?
Souza:
Fiz há algum tempo um trabalho como documentarista de curtas sobre o assunto e queria montar meu primeiro longa baseado em uma história real. Fui atrás do tema ditadura e exílio - uma coisa que queria contar -, mas o livro do William me chamou mais a atenção por essa consciência do coletivo, da postura política, enquanto aconteciam coisas importantes no país, a formação desse grupo era uma delas.

Guia da Semana: Você não teve receio de mexer com essa temática e fazer apologia ao crime?
Souza:
É lógico que o tema é complicado, mas a nosso objetivo era falar da origem de um grupo que não é o Comando Vermelho de hoje, que trafica drogas e prega essa violência. Estamos falando de um grupo que surgiu de assaltantes de bancos na década de 70. O que vem depois está fora do alcance do filme e do meu interesse.

Guia da Semana: Esse é seu primeiro longa metragem, você que trabalhou fazendo documentários e peças publicitárias. Quais as principais diferenças que sentiu nesse novo projeto?
Souza:
A diferença é contar a história de uma maneira grande, sem ficar cansativo. Então você tem que saber como amarrar isso, ter um cuidado com o fator histórico, mostrar a violência, ao mesmo tempo em que faz recortes estéticos crus, mais próximos e mais impactante para a narrativa. O desafio era trabalhar com histórias rápidas, em uma linguagem menos cadenciada. Unir essa estética do cinema com o documentário, que rende boas histórias, conteúdo, procurar amarrar as duas coisas e ver no que dá.

Foto: divulgação/ Daniel Chiacos


Guia da Semana: No filme, você usa cenas recheadas de referências pop, como no ritmo, trilha sonora e até a edição, com trejeitos de Quentin Tarantino. Essa foi sua ideia?
Souza:
Sempre quis fazer um filme Pop - mas pop no sentido de popular, não pop como uma coisa gratuita, tentando parecer com outros filmes. O funk e soul, que estavam na trilha marcadíssima do Max de Castro e muito forte nos anos 70, não foi uma coisa gratuita. Achei que ajudou muito para fugir daquele clichê dos anos 70, de unir carioca, morro e samba. Não tenho nada contra samba, adoro, mas a gente não queria estereotipar. Tínhamos uma cena funk e soul muito legal nessa época e, se não preservar, daqui a pouco ninguém mais vai saber quem era Tim Maia, já que Gérson King Kong ninguém fala mais, a não ser algumas pessoas dos bailes funks do Rio de Janeiro.

Guia da Semana: De certa forma, a união dos presos políticos com os comuns em Ilha Grande resultou no surgimento de ideais que culminariam no CV. Como você vê esse desenrolar da história?
Souza:
Tem até um relato do William que fala sobre isso. Ele comenta que a convivência dos presos políticos com os comuns é uma coisa que acontece a mais tempo, desde a época de Vargas, no Estado Novo. Lá eles começaram a difundir o hábito de leitura e aquela coisa toda. Nos anos 70, logo após o golpe, jornalistas, marinheiros e sargentos foram presos e levados para o presídio Lemos de Brito, onde os contatos foram mais intensos, com formação de leitura, grupos de estudo, biblioteca organizada, trabalhos manuais - tudo isso em um tempo em que não existia separação.

Guia da Semana: E quando ocorreu essa separação?
Souza:
Essa separação aconteceu nos anos 80, com a lei de Segurança Nacional. É claro que, durante todo esse tempo houve uma troca de experiência entre eles, mas não é determinante você apontar que eles ensinaram técnicas de guerrilha, de resistência. Foi uma troca de ambos os lados e tinha a coisa de conduta, de organização de grupo, coletivo, da união fazer a diferença. Fica claro que essa troca de experiência e convivência fortaleceu esse grupo, a única forma de resistência que eles poderiam colocar ali dentro. O que vem depois já extrapola a nossa história. Aquele é um momento isolado, pelo fato dos maus tratos, torturas e repressão. Não era só a pressão do sistema carcerário, era a pressão dos quadrilheiros do próprio presídio. Então os presos encontraram uma maneira de se diferenciar, formando um coletivo para enfrentar a ditadura e os inimigos de dentro do próprio presídio.

Guia da Semana: Para realizar o filme, você manteve contato com William, autor da biografia que inspirou o longa. Conte como foi essa relação?
Souza:
Sempre foi muito tranqüilo, desde a primeira vez que fui no presídio do Bangu 3, com autorização da Secretaria de Assuntos Penitenciários, do Rio. O William sempre esteve muito consciente da importância dele para a organização, que suas histórias e relatos pessoais eram fundamentais para a realização do filme. Tinha muito material de pesquisa e, cada vez que voltava para a prisão, checava com ele, discutia e conversava, no sentido de engrossar a história para transformar o personagem principal em um cara mais humano, nem um herói e nem um vilão. Minha preocupação era - apesar do filme ser em primeira pessoa - ser o mais isento possível.

Foto: divulgação/ Daniel Chiacos


Guia da Semana: E em relação aos nomes dos personagens, você usou os reais ou preservou a identidade?
Souza:
Tirando o próprio William, e o PC (Paulo César Chaves) que nos autorizaram a citar os nomes, os outros presos foram preservados. Como muitos morreram e não tínhamos contato com as famílias, preferimos omitir e não entrar em nenhum tipo de confusão. Muitas vezes agregamos duas ou três pessoas em um personagem só, porque eram muitas pessoas que participaram da história.

Guia da Semana: Você teve muitas dificuldades até chegar ao nome do Daniel Oliveira para protagonista?
Souza:
A gente queria o Daniel desde a escolha da história. Como sabíamos que iríamos contar a história dos anos 70/80, escolhemos pelo vigor, pelo seu modo de atuação, pelo entendimento que ele tem dos personagens. Para mim, ele era o cara!

Guia da Semana: William Lima chegou a ver o filme montado?
Souza:
Não. Está foragido desde 2008 e perdemos o contato. Espero que ele assista, mas como ele vai assistir, só Deus sabe. A última vez que tive contato foi em 2006, quando produzi o  Resistir, o documentário que fiz com ele, Alípio e André Borges, o último um preso comum.

Guia da Semana: Você acha que o Comando Vermelho mudou muito suas características, desde o seu surgimento para cá?
Souza:
Assim como a sociedade de uma maneira geral, mudou demais. A gente passou de um momento em que as pessoas acreditavam que o mundo poderia ser comunista, para um mundo totalmente capitalista. Então é uma coisa que você repara até no crime. No filme, por exemplo, mostra que o crime da época tinha divisão igualitária do dinheiro, mas agora o tráfico funciona como uma empresa, com os chefes, funcionários que ganham de acordo com a sua função, com salário mesmo. Transformou-se em uma empresa do sistema capitalista.

Atualizado em 10 Abr 2012.

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