Guia da Semana

Perda, ausência e regresso

Se quer curtir um filme no fim de semana em casa, ao lado de seu (sua) amado(a), a dica do colunista é Canções de Amor

Foto: Imdb.com

"Não me ame muito, mas me ame por muito tempo", foi a frase que marcou Fernanda, minha namorada, depois de vermos o filme Canções de Amor, de Christophe Honoré. Lês Chansons D'Amour, no original em francês, é um filme de 2007 e será hoje minha dica para quem procura um bom filme para ver em casa no final de semana.

Dividido em três partes - a perda, a ausência e o regresso - o filme fala de forma delicada sobre as complexidades das relações amorosas, com os personagens se envolvendo em triângulos amorosos, explorando suas liberdades sexuais.

Como o título não esconde, Canções de Amor é um musical e isso já pode ser suficiente para que muitos torçam o nariz e nem queiram vê-lo. Preconceito puro, do qual não me excluo. É verdade que os musicais compõem um gênero que desagrada a muitos, que não conseguem "entrar" na trama justamente pelo artificialismo que a inserção de canções causa no filme. Pior ainda se o filme for uma ópera ou opereta, todo cantado, como o visualmente impecável La Boheme, de Robert Dornhelm, ou o deliciosamente divertido Beijo na Boca, Não, de Alain Resnais.

Canções de Amor não foge do gênero, mas se destaca por qualidades que, acredito, podem vencer a resistência dos mais refratários. Isso porque neste filme, as canções não "atravessam" o ritmo da narrativa e a complementam com um encaixe azeitado e uma poesia sensível e criativa. Os arranjos também são elaborados e o conjunto das canções desenha a história com belíssima delicadeza. Uma bela delicadeza que me arrebatou a um ponto inesperado, fazendo-me pela primeira vez ver beleza onde antes não via nada.

Louis Garrel interpreta Ismaël, um jovem jornalista que namora Julie (Ludivine Sagnier), que acrescenta à cama deles Jeanne (Chiara Mastroianni), num aberto triângulo amoroso.

Mas a relação entre Ismaël e Julie é turbulenta, ora pelo ciúme, ora pela incerteza dos sentimentos. Aqui, o amor ganha os contornos das relações existencialistas, conturbadas e discutidas sob a luz do intelecto. Mas Honoré não se entrega a uma monótona e monocórdia tese ou a debates soporíferos sobre o ser e o nada. Não deixa, contudo, de homenagear a Nouvelle Vague de Truffaut e Godard, com um plano marcante do revolucionário e renovador movimento do cinema francês dos anos 60: um plano frontal dos personagens na cama, cada um lendo um livro diferente.

Mas então acontece a perda.

Na segunda parte - a ausência - vivenciamos entre as canções a difícil adaptação e o árido recomeço. A ausência em questão cria nos personagens o sentimento de desencaixe e a busca, sem muito rigor ou objetividade, de algum tipo de conforto. Mas todos se mostram perdidos, patinando em um limbo cinzento, queimando lentamente suas dores e suas ausências próprias. Cada um tocado e compungido a sua maneira frente à perda irreparável.

É quando surge Erwann (Grégoire Leprince-Ringuet) e sua insistente devoção ao amor. Disposto até o cansaço para conquistar quem ama, irá conduzir aquele que se perdeu na ausência para o caminho do regresso, ainda que por vias nunca antes caminhadas. É justamente por essa inversão inesperada que se dá a beleza do filme que, com as canções de amor, mostra que as transposições de sentimentos são todas, sempre, justificadas pela beleza do gesto.

Christophe Honoré mostra um talento extraordinário naquilo que o filme mais se destaca, o jogo de cena. Para um filme feito de canções, nada mais complementar para as músicas do que este jogo de cena. E nisso o filme se mostra pródigo. A beleza das letras, das composições e da história se completa com o jogo de cena, construindo assim uma harmonia que está além das palavras, mas que se encerra delicadamente em cada gesto.


E não se pode deixar de falar de Paris, que o diretor enquadra sob uma perspectiva de solidão, com uma textura refinada de tristeza e desamparo, mas cuja beleza nos salva de qualquer desespero.

Canções de Amor venceu e derrubou meus preconceitos com gêneros e me entregou uma experiência de cinema que me arrebatou abertamente, iluminando minhas retinas para a beleza do gesto, acima de qualquer gênero. Porque como muito bem captou Fernanda, não importa que se ame muito, mas que se ame por muito tempo.


Leia as colunas anteriores de Rogério de Moraes:

Pelo Cinema e Pela Cultura

Obra clássica

Travessia de Herói

Quem é o colunista: gordo, ranzinza e de óculos.

O que faz: blogueiro, escritor e metido a crítico de cinema.

Pecado gastronômico: massas.

Melhor lugar do Brasil: qualquer lugar onde estejam meus livros, meus filmes, minhas músicas, meus amigos e minha namorada.

Fale com ele: rogercodegm@gmail.com ou acesse seu blog

Atualizado em 10 Abr 2012.

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