Guia da Semana

Quem sabe numa próxima

O polêmico Do Começo ao Fim, novo trabalho do diretor Aluízio Abranches, não convence ao forçar naturalidade em relação de amor entre meio-irmãos

Foto: Luiza Lemmertz


As expectativas do público - majoritariamente homossexual - eram grandes. Um filme brasileiro que trata do amor de dois irmãos tocava na ferida com dois temas considerados tabus pela sociedade: homossexualidade e incesto. Com um trailer incessantemente visto no YouTube, Do Começo Ao Fim teve sua estreia adiada duas vezes por problemas de edição até ser, finalmente, exibido na abertura do 17º Mix Brasil - Festival da Diversidade Sexual, que exibe filmes de diversos países com temática LGBT (Lésbicas, Gays, Bissexuais e Transgêneros). A doce espera, porém, teve gosto amargo. 

Não podemos deixar de assumir que o cinema brasileiro vem tomando rumos cada vez mais diversos, com filmes artísticos e/ou polêmicos. Descobrimos direções de arte realmente primorosas em filmes como Cinema, aspirinas e urubus e Budapeste. Assuntos delicados, como a homossexualidade em obras como Madame Satã, Cazuza - O Tempo não Para e A Festa da Menina Morta (estreia na direção de Matheus Nachtergaele). Já o renomado Lavoura Arcaica levantou a questão do incesto em uma família tradicional libanesa no Brasil. Do Começo Ao Fim talvez tenha sido vítima do próprio burburinho que se esperava refletir no boca a boca que atrai multidões aos cinemas.

O diretor e roteirista Aluizio Abranches (Três Marias, Um copo de cólera) foi além: decidiu unir homossexualidade e incesto em uma produção que conta a história de dois irmãos que desenvolvem uma relação de amor incondicional desde a infância e que perdura até a idade adulta, quando se tornam amantes.

Julieta (Júlia Lemmertz) é uma médica, mãe de dois filhos: Francisco (Lucas Cotrim na infância e João Gabriel Vasconcelos na fase adulta) e Thomás (Gabriel Kaufman na infância e Rafael Cardoso na fase adulta). Casada pela segunda vez, o primogênito Francisco é fruto de sua relação com Pedro, um empresário argentino (Jean-Pierre Noher) e Thomás é seu filho com o atual marido, Alexandre (Fábio Assunção).
O elenco conta, ainda, com Louise Cardoso como Rosa, melhor amiga de Julieta.

A amizade de Thomás e Francisco resiste ao tempo e vai dando sinais de uma relação mais íntima que o normal. Todos ali percebem o que está por vir, mas não há o fator repulsa ou preconceituoso que se veria em um filme com tal temática. Vê-se, na verdade, Thomás e Francisco como amantes que precisam enfrentar a separação, quando o mais novo recebe um convite para treinar natação para as Olimpíadas fora do Brasil. 

Abranches, também autor do roteiro, tenta mostrar que o incesto pode surgir sem traumas, de forma natural, em um ambiente familiar amoroso e libertário: "Por que toda vez que se fala de incesto é de forma trágica?", pergunta o diretor. Mas o filme perde em ritmo, roteiro e desenvolvimento.

Com fade ins e fade outs que contam o filme como se fossem pequenos capítulos narrados por Thomás, os diálogos perdem em veracidade, não deixando que o espectador mergulhe completamente na história. É uma fragmentação incessante e desnecessária que torna o filme incômodo, mas se sustenta na interpretação segura de Júlia Lemmertz, a melhor do elenco. Além disso, na metade do filme, a personagem de Louise Cardoso simplesmente desaparece da trama, sem nenhuma explicação, deixando que a história se desenvolva com o trio - que se torna central - formado por Fábio Assunção, Rafael Cardoso e João Gabriel Vasconcelos. 

Mais do que tratar de incesto e homossexualidade, Abranches quis contar uma história de amor, como fez Ang Lee em seu bem sucedido e premiado O segredo de Brokeback Mountain, mas sem a densidade dramática que consagrou o diretor taiwanês. Com uma fotografia bem cuidada do suíço Ueli Steiger (10.000 a.C. e O dia depois de amanhã) e música de André Abujamra (carregada de belas notas de piano), Do Começo Ao Fim teve produção da Pequena Central, de Marco Nanini e Fernando Libonati, em parceria com a Lama Filmes e contou com um orçamento de cerca de R$ 2 milhões, com gravações realizadas em Buenos Aires e Rio de Janeiro.

 Já nas cenas eróticas convincentes - carregadas de beijos e com nudez frontal dos rapazes - o filme ganha pontos nos belos e simpáticos atores, que reaparecem, na fase adulta, já como amantes. Fica a pergunta: "quando esse romance começou?". Não se sabe. Perdeu-se, assim, o ápice da trama: a descoberta, o primeiro beijo, enfim. E há em Fábio Assunção - e boa parte do elenco -  uma "naturalidade" diante dessa relação velada que ninguém comenta, mas todos desconfiam.

Parece que não foi dessa vez que o público homossexual viu-se retratado na tela com a delicadeza, veracidade e respeito merecidos. Quem sabe numa próxima...

Quem é o colunista: Um jornalista aficcionado por cinema de A a Z.

O que faz: Dono do blog Dial M For Movies e redator do Portal da Propaganda.

Pecado gastronômico: Lasanha.

Melhor lugar do Brasil: Qualquer lugar, desde que eu esteja com meus amigos.

Para Falar com ele: leonardo.g.freitas@gmail.com

Atualizado em 26 Set 2011.

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