Guia da Semana

Quem tem medo de Botões?

Coraline é um momento especial na carreira cinematográfica da obra de Neil Gaiman, que finalmente recebe a atenção necessária

Los Angeles


Há algo único no estilo de Neil Gaiman, quase mágico. Repletos de jornadas transformadoras, visões diferentes do marasmo do dia-a-dia e desafios ao mais valente dos leitores, seus livros fazem por merecer o culto e os ótimos resultados nas vendas. Porém, a transposição para outras mídias - especialmente o cinema - ainda não era capaz de fazer jus aos seus méritos literários. Até agora, na estréia de Coraline. O termo fabuloso cabe perfeitamente para definir esse longa-metragem stop motion que mescla toda a fábula transformadora de Gaiman com o visual promovido por Henry Selick (O Estranho Mundo de Jack), especialmente na versão 3D.

"Fazer um filme desse tipo em 3D é algo inigualável, pois o stop motion é um dos poucos estilos que merece essa sensação de profundidade e realismo", disse Henry Selick ao Guia da Semana. "O que faço é diferente de toda essa animação por computador. Cada personagem, peça e elemento de cenário realmente existe, então poder incorporar essa noção de que há algo atrás dos personagens e coisas é um sonho se tornando realidade". E ele não poderia estar mais certo. Entretanto, um elemento adicional fez toda a diferença em Coraline: a bela trilha sonora do francês Bruno Coulais.

Coraline aborda o tema recorrente de Gaiman - reinvenção pessoal após visitar outro mundo, normalmente, por conta de um portal - ao mostrar a pequena Coraline Jones indo parar no mundo de sua "Outra Mãe", em princípio perfeita, e o oposto de sua verdadeira mãe, uma profissional cujo trabalho vem em primeiro lugar. Claro que tudo parece lindo no início, mas, pouco a pouco, ela percebe estar presa numa armadilha mortal. Os habitantes desse outro mundo têm algo em comum: todos possuem botões pregados no lugar de seus olhos. Bem, quase todos, exceto pelo gato, um personagem astuto, capaz de cruzar os dois mundos, se tornando um verdadeiro "guia espiritual" de Coraline.

O personagem do gato é curioso, pois agrega toda a característica mística dos gatos da antiguidade, com a esperteza atribuída à raça pela literatura - vide O Gato de Botas -  fazendo também as vezes de consciência de Coraline, ou, no mínimo, algo que delimite as fronteiras da coragem da jovenzinha, que precisa de muito mais que bravura para encarar sua jornada.

Seguindo sua vocação literária, Coraline não se caracteriza como um filme totalmente focado em adultos, por conta de seu conteúdo assustador e sombrio, ou para crianças, que o encaram como uma grande aventura. "Afinal, toda criança sabe, lá no fundo que, no fim das contas, Coraline vai se dar bem, mesmo passando por grandes apertos", explica Neil Gaiman. Henry Selick concorda com a dubiedade, mas aproveitou para relembrar os primórdios dos desenhos animados. "Embora não soubesse direito se seria um filme infantil ou adulto, não deixei o elemento assustador me intimidar. Já parou para pensar que o início da Disney era totalmente assustador? Branca de Neve, Bela Adormecida, Bambi e até mesmo Fantasia eram histórias aterradoras. E inúmeras gerações se apaixonaram do mesmo jeito".

Curioso notar que, ao contrário do que muita gente pensa, Coraline não é um filme de terror. Ele tem elementos assustadores e incômodos, mas nunca chega a ser uma trama assustadora por vocação. Especialmente por isso, o filme pegou classificação livre no Brasil e deve, sem dúvida, agradar a diversas camadas da população. Há tempos que não surgia um filme de fantasia com qualidade e capacidade para atrair famílias ao cinema (As Crônicas de Spiderwick foi o último nessa linha) sem precisar do apelo Disney ou de animais falantes. Bom, há o gato, mas ele é diferente.

O visual chama atenção, claro. Fazer o filme em stop-motion, totalmente em 3D (pioneiro nesse estilo) e entregar algo bastante verossímil até mesmo dentro da proposta alucinante do livro, faz com que Coraline se sustente com as próprias pernas. O nome de Gaiman ajuda? Em partes, pois o autor goza de grande fama em alguns nichos, mas ainda não está na boca do povo como Anne Rice ou qualquer autor de besteiras adolescentes que ganham adaptações aos montes e depois desaparecem. Deve se tornar cult em pouco tempo, mas, dificilmente, alcançará o sucesso de O Estranho Mundo de Jack, que muita gente atribui inteiramente a Tim Burton, que escreveu o roteiro. Se há um erro nesse longa-metragem, pode ser a semelhança da identidade visual entre os mundos de Jack e Coraline. É uma assinatura visual característica do estilo de Selick, também vista em James e o Pêssego Gigante, mas que impede seus filmes de terem diferenciais próprios no quesito visual. Tudo é executado de maneira soberba, mas a impressão de "já vi isso antes" é inevitável.

Depois da adaptação inglesa quase mambembe de Neverwhere e do tropeço hollywoodiano com Stardust - O Mistério da Estrela, Neil Gaiman finalmente ganha uma adaptação digna de seu trabalho. Coraline é um filme memorável em seu gênero e com plena capacidade para encontrar novos seguidores, especialmente pais em busca de bons conteúdos para apresentar a seus filhos. É magia pura, no melhor dos sentidos e que merece ser conferida com muita atenção. Afinal, no menor dos detalhes reinam as maquinações de Neil Gaiman e as soluções para o desafio de Coraline.

Quem é o colunista: Fábio M. Barreto adora escrever, não dispensa uma noitada na frente do vídeo game e é apaixonado pela filha, Ariel. Entre suas esquisitices prediletas está o fanatismo por Guerra nas Estrelas e uma medalha de ouro como Campeão Paulista Universitário de Arco e Flecha.

O que faz: Jornalista profissional há 12 anos, correspondente internacional em Los Angeles, crítico de cinema e vivendo o grande sonho de cobrir o mundo do entretenimento em Hollywood.

Pecado gastronômico: Morango com Creme de Leite! Diretamente do Olimpo!

Melhor lugar do Brasil: There´s no place like home. Onde quer que seja, nosso lar é sempre o melhor lugar.


Atualizado em 10 Abr 2012.

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