Guia da Semana

Reaprendendo a viver

Em Como Esquecer,, Júlia é uma professora que precisa se recuperar do fim de seu casamento de dez anos, e divide suas angústias com amigos que também passaram por perdas

Foto: Divulgação


Em um de seus mais famosos romances, A Paixão Segundo GH, a escritora Clarice Lispector conta a história de uma mulher que, após matar uma barata, sente-se perdida em seus pensamentos e devaneios sobre a vida e a morte. Na segunda página desta espécie de "diário", a personagem diz: "É difícil perder-se. É tão difícil que provavelmente arrumarei depressa um modo de me achar, mesmo que achar-me seja de novo a mentira de que vivo".

O trecho de Clarice através da alma de GH - e vice e versa - caberia perfeitamente no momento em que Júlia, a professora universitária de literatura inglesa interpretada por Ana Paula Arósio, passa desde o começo de Como Esquecer, mais recente longa de Malu de Martino (Mulheres do Brasil, Ismael e Adalgisa). Após o término de um relacionamento amoroso de dez anos com Antônia, ela entra em um tufão de sentimentos acarretados pelo término desta intensa e complicada relação.

Baseado no livro Como Esquecer - Anotações Quase Inglesas, de Myriam Campello, o livro foi adaptado a 12 mãos (Sabina Anzuategui, José de Carvalho, Douglas Dwight, Daniel Guimarães, Luiza Leite e Silvia Lourenço) para contar, de forma quase onisciente, essa travessia de superação de um amor perdido. Isso porque acompanhamos Júlia tanto na tela como na narração do longa, revelando as suas mais secretas intimidades.

Acompanhada pelo melhor amigo, o homossexual Hugo (Murilo Rosa), ela vai levando esse dia a dia de forma pesada, melancólica, com altos pontos de depressão. E nesta angústia de seguir adiante, mesmo não estando pronta para tal, Júlia é invadida, a todo o momento, pelas lembranças de Antônia, sempre ausente em corpo e presente como lembrança. E assim, Hugo, que ainda sofre com a morte de seu grande amor, e Lisa (Natália Lage), uma moça abandonada pelo namorado após a descoberta da gravidez, decidem dividir com Júlia uma casa nova, em uma região afastada no Rio de Janeiro.

Júlia, que quer sofrer a dor do único modo que sabe, cria um escudo que impede que qualquer pessoa se aproxime dela, inclusive a aluna Carmen Lygia (Bianca Comparato), uma jovem persistente que tenta um contato maior com a professora. E nesta casa, onde três pessoas lidam com o fim de uma relação (seja a morte, o abandono ou o término), mudanças podem acontecer com a chegada de Helena (Arieta Correia) e Nani (Pierre Baitelli).

Com boas interpretações do trio central - especialmente Ana Paula Arósio, que se entrega ao personagem e se despe de qualquer vaidade - uma fotografia opaca e uma trilha intimista, Como Esquecer traz um clima melancólico essencial e, embora algumas atitudes dos personagens possam soar estranhas ao espectador, fica a pergunta: quem pode julgar o modo na qual cada um lida com a própria dor?

E o dia após dia de uma pessoa com um coração partido tem suas consequências: seja um novo amor, uma segunda chance ou, até mesmo, o modo de ser (ou agir) como é descrito em outro trecho do livro de Clarice Lispector: "Se tiver coragem, eu me deixarei continuar perdida. Mas tenho medo do que é novo e tenho medo de viver o que não entendo". E segue-se assim, até sentir-se pronto para amar novamente. 

Leia as colunas anteriores de Leonardo Freitas:

O mundo era delas

Mundos isolados e conflitantes

Quando o inesperado acontece

Quem é o colunista: Um jornalista aficionado por cinema de A a Z.

O que faz: Dono do blog Dial M For Movies.

Pecado gastronômico: Lasanha.

Melhor lugar do Brasil: Qualquer lugar, desde que eu esteja com meus amigos.

Para Falar com ele: leonardo.g.freitas@gmail.com ou o siga no twitter (@leogfreitas)

Atualizado em 6 Set 2011.

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