Guia da Semana

"Sou um musiquinho"

Mostrando um Caetano totalmente "despido" de pudores, o documentário Coração Vagabundo leva o cantor às telonas durante a turnê A Foreing Sound

Fotos: Luciana Prezia/João Sal

O filme exibe imagens da turnê A Foreing Sound onde Caetano passou por São Paulo, Nova York, Tóquio e Kyoto

Ele já foi muito criticado e até chegou a ser exilado. Hoje, o aclamado Caetano Veloso transpassa a barreira dos palcos para estampar, nas telonas, um documentário gravado e dirigido pelo jovem cineasta Fernando Grostein Andrade. Intitulado Coração Vagabundo, o filme mostra o cantor baiano à vontade em suas viagens, com seus pensamentos, alegrias e angústias.

Além da porção humana do músico, o diretor preferiu fugir do rótulo biográfico. Para isso, retrata durante 42 dias e de forma intimista a estadia de Caetano longe de sua terra natal. O filme também exibe imagens da turnê A Foreing Sound, que passou por São Paulo, Nova York, Tóquio e Kyoto, e é homônimo de seu único álbum gravado totalmente em inglês.

Sem censura

O documentário ainda reúne depoimentos de amigos e admiradores. Passando por palcos de todo mundo, incluindo o requisitado Carnegie Hall em Nova York, Caetano recebe elogios do músico David Byrne, da modelo Gisele Bündchen e dos cineastas Michelangelo Antonioni, que comenta em visitar o músico na Bahia, e Pedro Almodóvar, que ressalta também a admiração por Paula Lavigne (empresária, ex-mulher do cantor e produtora do filme, ao lado de Raul Dórea).


Caetano Veloso, Paula Lavigne e Fernando Andrade durante o lançamento do documentário em São Paulo

Visitando templos budistas, conhecendo novas culturas e fazendo confissões enquanto caminha por ruas de Nova York, Caetano faz questão de mostrar seu desconforto com algumas situações, como entrevistas nas TVs estrangeiras, e se coloca transparente, afirmando não ser simplesmente "um cara de São Paulo que já acha que nasceu no mundo".

Nesse embalo, Paula Lavigne recebe o diretor e o leva até o cantor, que está fazendo a barba, totalmente nu, no banheiro. A atitude surpreendeu até mesmo o jovem, que ainda não tinha a intenção de criar um longa, quanto mais incluir essas imagens. "Achei que não iam autorizar a cena da nudez, mas a Paula adorou. Fiz uma viagem e fui guiado pela emoção. Fugi da biografia e preferi um recorte para mostrar a força do trabalho dele pelo mundo. Quanto mais longe íamos, mais retratava sua identidade. Deixamos a Bahia de fora, porque o Caetano por si fala de lá", conta Fernando Andrade.

Projeto

Além de passagens do cantor durante ensaios e trechos de shows, o filme registra um Caetano íntimo de sua equipe de músicos, afirmando ter engolido muitos sapos na vida, comentando sua religiosidade, abraçando árvores em Nova York e até fazendo japoneses arriscarem suas letras em português. Os debates foram surgindo ao longo do tempo enquanto o diretor, também cinegrafista, vai captando cenas do músico longe de sua casa, em Santo Amaro da Purificação, na Bahia. "Não gosto de me ver e nesse trabalho consegui fazer isso, sem desagrado. Não participei em nada da edição e nem liguei de aparecer pelado. Me disseram que o trabalho ficou superficial, mas acho que foi fundo em muitas coisas, tanto minhas quanto do diretor", analisa Caetano.


O cantor afirma que ele é apenas uma gota num oceano de pessoas que admira no mundo da música

Supremacia americana
 
Um dos temas citados no documentário é a questão da influência da música internacional na vida do cantor. Considerado um dos músicos de maior notoriedade fora do Brasil, Caetano afirma que as canções americanas são as melhores do mundo e responde a uma crítica feita pelo compositor e músico Hermeto Pascoal em uma revista, chamando-o de "musiquinho" por considerar o som norte-americano mais importante do que o brasileiro.

Caetano rebate afirmando ser um "musiquinho, sim" e também um "poetazinho". E completa defendendo que os Estados Unidos geram ainda muita influência na música mundial e que ele é apenas uma gota num oceano de pessoas que admira. "Viajando eu vejo e sinto que adoram a música brasileira. No entanto, a música americana foi evidência em todos os demais países, até no Brasil. A força dela no século XX é nítida. Isso um dia pode mudar, mas, até hoje, a supremacia americana influencia muito a todos", comenta o filho de Dona Cano.
   
Mente criativa

Formado em administração, Fernando Grostein Andrade foi estudar Direção na University of Southern California (USC) e Roteiro na University California, Los Angeles (UCLA). Inspirado em documentários de sucesso como Tokyo-Ga (que influenciou muito o cinema japonês) e The Rolling Stones - Shine a Light (dirigido por Martin Scorsese), o garoto mostra a que veio. Com influência, ainda, de seu grande ídolo nacional, João Moreira Salles, aos 28 anos o jovem diretor faz de Coração Vagabundo trabalho de gente grande.


Com apenas 28 anos, o diretor Fernando já produziu grandes trabalhos e é uma das promessas do cinema nacional

Aos 21 anos, produziu o curta-metragem De Morango, tornando-se o primeiro diretor brasileiro a fazer um filme em alta-definição. O curta foi exibido no Festival Internacional de Palm Springs, na 27ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo e abriu o Festival Internacional de Brasília. O sucesso chamou a atenção de Paula Lavigne e, a partir de então, surgiu o contato com Caetano. Convidado para a dirigir o videoclipe da música Você Não Me Ensinou a te Esquecer, tema do longa Lisbela e o Prisioneiro, o clipe estreou e logo ganhou notoriedade nacional.

Para Caetano, Fernando foi exigente, até demais, e buscou fazer o melhor. "Ele foi obsessivo com a coisa de fazer o filme. Quando se está sendo filmado, de certo modo as coisas mudam. Mas eu busquei ser natural, até por conta da liberdade que criamos. Às vezes, não estava de muito bom humor devido às muitas viagens, queria dar uma escapada dele, só que não tinha jeito. Ele pedia muito e eu tinha que ir" lembra o cantor, aos risos.


Atualizado em 10 Abr 2012.

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