Guia da Semana

Tesouro na locadora

O longa australiano 2:37 dispensa clichês e explora enredo de suicídio e segredos



Para quem não tem medo de fugir do previsível, nada mais gratificante do que arriscar e se surpreender. Foi assim quando fui ver 2:37, um filme australiano lançado em 2006 e que aqui só passou na Mostra de Cinema de São Paulo. Felizmente, desde 2008, este filme está disponível em DVD e é minha dica desse mês para quem está à procura de um cinema menos óbvio e muito mais intenso que o "basicão" hollywoodiano despejado por aqui.

Nesta película, o diretor Murali K. Thalluri, não esconde suas fontes. E embora beba delas com evidência, o faz com acuidade e manejo, deixando sua assinatura evidente, como quem vai na esteira, mas sem deixar de caminhar com as próprias pernas.

As fontes a que me refiro são duas: Beleza Americana, filme de 1999, dirigido por Sam Mandes, e Elefante, de 2003, dirigido por Gus Van Sant. Se do primeiro (Beleza Americana), Thalluri se utiliza apenas de parte de um conceito temático, no segundo (Elefante) ele imerge mais densamente, trazendo até os mesmos planos sequenciais e a mesma estrutura narrativa, entrelaçando cenas que se revelam de dois ou mais ângulos, ligadas por fios diferentes, além de partir de um mesmo princípio: um dia num colégio secundarista, sob a perspectiva cotidiana dos próprios alunos, revelando a crueldade cítrica e a pressão intensa que existe nesse universo de aparências e máscaras.

Contudo, o filme não se estreita unicamente como uma referência a Gus Van Sant e seu Elefante, ainda que a estrutura narrativa e até o clima sejam idênticos. No caso de 2:37, há um prelúdio incisivo que o difere e que modifica toda sua estrutura tensional. Se em Elefante, a lentidão chega a cansar, restando ao expectador somente um interesse no que aquilo vai dar afinal, em 2:37 temos de súbito, logo no início, o desfecho e isso faz toda a diferença para a sustentação do enredo.

Às 2h37 da tarde ocorre um suicídio numa sala trancada do colégio. É o ato misterioso que abre a história e será ele o fio condutor de toda uma tensão regressiva e crescente, ampliada lentamente pela imersão na vida dos jovens estudantes cujas aparências escondem segredos tão dolorosos que qualquer um pode ser o suicida misterioso.

Volta-se para muito antes disso e o dia se inicia comum e cotidiano para os alunos, todos exibindo sua normalidade superficial. Temos ali os principais estereótipos desse período da vida: o casal de irmãos ricos que vão para a escola de Mercedes, a garota linda e popular, o atleta que namora a garota popular, o desajustado que quer chocar a todos e que é usuário de drogas, o rejeitado e excluído por sua deficiência física e tudo mais que cerca e entrelaça esse universo.

É a partir de então que se vai tecendo uma teia de segredos, aflições e desarranjos íntimos na vida de cada um dos personagens. Entrecortado por depoimentos em uma provável sessão de terapia e aprofundando o expectador naquele dia da vida de cada um dos personagens, vão surgindo no filme, gradativamente, revelações cada vez mais assustadoras e surpreendentes. Saltam de dentro da normalidade os monstros ocultos sob a superfície das aparências: bulimia, rejeição, homossexualidade, gravidez indesejada, incesto, egoísmo, solidão, estupro, humilhação.

Mergulha-se nos segredos de cada um até o ponto em que se tem convicção absoluta de que qualquer personagem teria suas razões para o suicídio. Resta saber quem. E essa é a chave que quando desvelada trará um desfecho não apenas surpreendente, mas avassalador. Um desfecho que de tão aberto e improvável, é o único que realmente poderia explicar tudo, e nos deixar ainda, atado ao pensamento, um leque razoável de reflexões e possibilidades. E é esse desfecho que torna o filme tão surpreendente e tão profundo, dando um enlace perfeito e um nó definitivo na teia que se formou até então. Exatamente, às 2h37 da tarde de um dia comum, numa escola comum, com alunos comuns.

Quem é o colunista: gordo, ranzinza e de óculos.

O que faz: blogueiro, escritor e metido a crítico de cinema.

Pecado gastronômico: massas.

Melhor lugar do Brasil: qualquer lugar onde estejam meus livros, meus filmes, minhas músicas, meus amigos e minha namorada.

Fale com ele: rogercodegm@gmail.com ou acesse seu blog

Atualizado em 26 Set 2011.

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