As marcas da cesárea

O corte feito na pele acima da linha dos pêlos púbicos pode ser escondido pela calcinha, mas incomoda a mulher que tem que carregar a marca para o resto da vida. Saiba quais são as técnicas que podem suavizar essa cicatriz

Última publicação: 06/09/2011

Por Carolina Tavares




O preço que se paga pelo dom feminino da maternidade, apesar de ser um privilégio, tem seus incovenientes: dores, menstruação, contrações e, por fim, um corpo modificado. Hoje, médicos lutam pelo parto normal, mas o índice de cesarianas no Brasil chega a quase 90%.

Com um tempo de recuperação que varia de pessoa para pessoa, a cesariana dá um trabalho e tanto para o organismo. São muitas camadas de tecido para cicatrizar, do útero até a parede do abdômen. Essa cicatrização às vezes pode não ser bem feita, causando problemas internos e externos.

"A cicatriz no útero vai ter efeito na próxima gravidez, quando pode ocorrer problemas como placenta prévia (quando ela fica no colo do útero) e deslocamento prematuro da placenta. Quando a mulher possui essa cicatriz, também fica vulnerável a uma ruptura", explica a professora do Departamento de Saúde Materno Infantil da Faculdade de Saúde Pública (FSP) da USP, dra. Carmen Simone Grilo Diniz.

Mesmo assim, ainda existe um outro tipo de problema que a mulher pode enfrentar. Ele não causa riscos maiores, mas faz parte de uma questão estética e, diferente da cicatriz interna, tem solução.

Depois do parto, a abertura feita pelo bisturí demora pelo menos quatro semanas para cicatrizar e um mês para se definir. Em algumas pessoas ela segue um processo normal e fica imperceptível no prazo de seis meses a um ano. Em outras, dependendo da propensão do organismo, ela pode inflamar e se tornar um quelóide ou uma cicatriz hipertrófica.

Quelóide é uma cicatrização exagerada e volumosa que pode acontecer em algumas partes do corpo como barriga, tórax, braços e lóbulos da orelha. O cirurgião plástico Wandemberg Barbosa explica que existem muitos estudos relacionados ao assunto. As pesquisas começam a chegar à conclusão de que o quelóide pode ser um processo genético ou espontâneo. Já a hipertrófica é apenas um engrossamento da cicatriz comum.

O diretor da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica, Douglas Jorge, explica o que pode causar a reação. "O quelóide pode surgir espontaneamente (quelóide verdadeiro) ou após uma lesão tecidual (cicatriz queloideana) decorrente de trauma ou infecção. Algumas vezes, um eventual fator desencadeante pode passar despercebido. É mais comumente observado na raça negra e nos orientais, embora também possa aparecer na raça branca", diz.

Os cirurgiões George Luís Pereira e Benedito Soares contam que a correção futura de uma cicatriz de cesariana muito raramente terá um impedimento clínico. Eles procuram fazer uma programação através de exames pré-operatórios de sangue, urina, raio-X de tórax, eletrocardiograma e avaliação do risco cirúrgico pelo cardiologista. Este preparo bem feito e um programa cirúrgico adequado têm por objetivo prevenir os riscos inerentes a qualquer tipo de cirurgia.

Como tratar a quelóide?

Na cesariana, o corte é feito em um local onde não há tensão muscular. Por esse motivo, a mamãe só vai desenvolver o quelóide caso tenha disponibilidade genética ou algum outro fator que agrave a cicatriz. A escrituária Juliana Voltolini, que sofre do problema, afirma que as orientações do seu médico caso a questão se agravasse, era de pulsar a pele que estava sobrando e terminar o tratamento com uma pomada. Ela está correta.

Caso uma pessoa desenvolva o problema, o tratamento é simples. Uma das opções é fazer a ressecção da cicatriz e, 48 horas depois, aplicar o processo de betaterapia, um tipo de radioterapia. É importante ressaltar que não se deve corrigir qualquer cicatriz antes de seis meses de sua evolução, pois existe risco de ser desnecessário ou até piorar sua aparência nesta fase.

Outra sugestão é a infiltração da substância corticóide através de injeção, cremes ou fitas. Existem já alguns trabalhos que utilizam laser para retirar o quelóide e a massagem freqüente também pode trazer resultados.

O número de pessoas que acaba com a cicatriz é de 60% a 70%, mas tudo depende da resposta do corpo ao tratamento, que pode não ser o retorno desejado em 30% dos casos, quando o médico analisa o que pode ser feito. O custo varia de acordo com a pessoa e o recurso que for melhor indicado para ela segundo seu médico. A dermatologista Denise Steiner explica que "a cicatriz pode ficar pouco evidente mas não desaparece totalmente".

Depois da cirurgia, há cuidados a serem tomados com o local do problema. É importante não pegar sol, pois os raios solares estimulam a irritação da cicatriz. Também é preciso deixar o lugar da cirurgia em repouso, fazendo curativos com a fita micropore ou com silicone. Após quatro semanas, já é possível observar os resultados, mas o médico deve indicar cuidados preventivos e manter o corticóide.

Os especialistas alertam que se deve aguardar alguns meses antes de indicar um tratamento cirúrgico, pois algumas cicatrizes hipertróficas são classificadas como queloideanas, mas com o tempo melhoram espontaneamente.

Ele lembra também que uma cicatriz nunca desaparece, pois este é um fenômeno da natureza que caracteriza uma resposta a uma agressão no tecido da pele. Ocorre que algumas pessoas desenvolvem cicatrizes de tão boa qualidade que são pouco perceptíveis.

Por que parto normal?

Recuperação rápida, indolor e sem seqüelas. Um parto normal fisiológico sem intervenções possibilita um corpo saudável e de volta ao normal em apenas seis semanas. No início dos tempos, essa era a única opção, mas hoje há outras possibilidades.

Existe também o parto normal com intervenções, quando o médico faz um corte na vagina para facilitar a saída do bebê, mas de acordo com os médicos, "não há justificativa científica para esse tipo de procedimento".

Por último, há a cesariana. A pretensão de não sentir dor acaba no pós-parto. Enquanto a mulher que fez parto normal aguarda o útero voltar ao tamanho original, a mulher de cesária aguarda que cada camada da pele cicatrize, demorando mais tempo para se recuperar.

Outro fator interessante é que, na nova mamãe de cesariana, o contexto hormonal é diferente da pessoa que teve o bebê naturalmente. O hormônio que faz com que a mãe crie o vínculo com o filho e produza o leite é fabricado em menor escala, por isso, começar a amamentação é difícil. Os riscos de infecção e hemorragia também são maiores e a cicatriz uterina pode complicar uma segunda gravidez. A professora da USP afirma que melhor mesmo é não realizar a operação.

Glossário

Aprenda os nomes dos tratamentos

  • Intradermoterapia - Indicada para o tratamento de cicatrizes hipertróficas. Ela consiste na injeção de substâncias que estimulam a produção e a reorganização das fibras colágenas, além de impedir o aumento das propriedades que causam o espessamento da cicatriz.
  • Betaterapia - Tipo especial de radiação utilizada para restabelecer a organização do tecido.
  • Oclusão - Uso dos curativos de silicone para comprimir a região lesada. Ela ajuda a hidratar as células, melhorando seu metabolismo e a circulação local.

    Fonte: plasticaebeleza.terra.com.br



  • Colaboraram:
  • Wandemberg Barbosa - (11) 3060 8495 / (11) 3081 6791
  • Douglas Jorge
  • Denise Steiner
  • George Luís Pereira Soares e Benedito Soares Vieira

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