A redação "tema livre"

Ela aparece na volta às aulas, no vestibular e em entrevistas de emprego, ou seja, nos momentos mais inoportunos!

Última publicação: 06/09/2011

Na infância, a redação "tema livre" é diversão
Foto: Photocase.de

A redação "tema livre" é uma antiga conhecida de todos, desde o ensino fundamental, quando logo no primeiro dia de aula, ao voltar das férias escolares, os professores lançam essa missão com o intuito de criar uma atmosfera de descontração e integração entre os alunos, promovendo aquele alegre reencontro. O que esses pequenos ainda não sabem é que esta tarefa os perseguirá pelo resto de suas vidas, nos momentos mais inoportunos, quando o que mais se precisa é de um tema para escrever.

Mas, para uma criança que volta das férias, uma redação "tema livre" é algo absolutamente conveniente, já que eles podem contar alguma aventura que lhes tenha rendido algumas palmadas, omitindo este detalhe, é claro. A televisão também pode ser uma ótima fonte de inspiração, pois no período de férias, as emissoras criam uma programação especial para os pequenos, despejando uma infinidade de desenhos animados, filmes de super-heróis, viagens interplanetárias, entre outras coisas. Mas, neste caso, os jovens escritores colocam-se dentro da aventura e juram por tudo que é mais sagrado que estiveram em Marte, na companhia de extraterrestres ou salvaram uma bela princesa da torre mais alta do castelo localizado no monte mais alto do Himalaia, tendo antes, executado com uma espada, os mais terríveis monstros guardiões da jovem princesa.

Os interesses vão mudando com o passar do tempo, mas em todos os momentos lá está ela, a maldita redação "tema livre". Já não bastasse o nervosismo por estar frente-a-frente com o vestibular, o que se encontra no final da prova? A redação "tema livre". Nesta hora, o que o aspirante a universitário mais quer é um buraco para se enfiar e, assim, poder criar uma história que o salve daquela desesperadora situação. Apesar de ter lido tudo de Machado de Assis, Eça de Queirós e Mário de Andrade, entre outros, não há Brás Cubas, Primo Basílio ou Macunaíma capazes de ativar o cérebro em busca de palavras que se encaixem formando frases para um texto claro e objetivo e, acima de tudo, legível.

O mais surpreendente é, quando se está em busca de um emprego e, após aquela angustiante entrevista em que o candidato se esforça para demonstrar a mais absoluta tranqüilidade diante do entrevistador, este lhe entrega uma folha de papel em branco e uma caneta, pedindo-lhe para escrever uma redação "tema livre". As pernas bambeiam, as mãos ficam ainda mais trêmulas, o coração dispara e a boca fica seca. Voltam as lembranças daquelas tão divertidas férias escolares da infância e daqueles livros obrigatórios para o vestibular, mas esses recursos já foram utilizados em outra fase da vida.

O mais provável é que o candidato busque inspiração nas notícias dos principais acontecimentos do mundo, mostrando-se uma pessoa bem informada. Aí vale de tudo: superaquecimento global, narcotráfico, guerra do Iraque, mudança na maioridade penal, mensalão, pesquisa de células tronco, catástrofes naturais, criminalidade em São Paulo e no Rio de Janeiro, entre outros temas. Mas se nada disso for suficiente para que a imaginação produza um texto coerente, busque essa ira que te acompanha desde sua ingênua infância e escreva sobre esta perseguição implacável e inconveniente da redação "tema livre"!

Quem é a colunista: Criz Tomaz.

O que faz: Jornalista.

Pecado gastronômico: Salgados de todos os tipos.

Melhor lugar do Brasil: Maranhão (pena que ainda não conheci...).

Fale com ela: criz.tomaz@gmail.com

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