Guia da Semana

Alfabetização Precoce

Oportunidade ou exagero?

Foto: Sxc.Hu


A alfabetização é precocemente introduzida nas escolas com a intenção de acelerar o processo de aprendizagem. Muitas já começam o processo em turmas de alunos de 3 ou 4 anos. Tal fato remete a uma reflexão sobre as etapas do pensamento cognitivo e nos leva a alguns questionamentos.

Em primeiro lugar, precisamos lembrar que o processo de escrita e leitura tem uma complexidade que exige um grau determinado de amadurecimento neuromotor na criança. Estaria o cérebro, nesta idade, suficientemente desenvolvido para absorver essa grande carga de informações?

Algumas crianças - são raros estes casos -, podem demonstrar interesse pela leitura desde cedo, aprendendo espontaneamente a ler um texto. Mas, do ponto de vista neurológico, a criança só está pronta para ser alfabetizada por volta dos 6 anos. O que não significa que algumas crianças não fujam à regra e a alfabetização aconteça aos 4 anos e, com outras, aos 9 anos. Nestes casos, não há com o que se preocupar, já que o processo aconteceu naturalmente. O problema é grande quando os pais buscam escolas que oferecem alfabetização antes do tempo.

Na primeira infância, brincar deve ser a única responsabilidade da criança. Propiciar atividades lúdicas, como forma de desenvolver a percepção e alimentar a curiosidade infantil, é o dever da escola e dos pais. Apressar o aprendizado, pulando importantes etapas, pode gerar problemas no futuro.

Há casos de crianças que chegam ao Ensino Fundamental desmotivadas. O brincar tem papel importante na construção do conhecimento e no desenvolvimento infantil, levando a criança a se descobrir, compreender a si mesma e seus sentimentos e o funcionamento do mundo em que vive.

A brincadeira espontânea e a fantasia são atividades essenciais no desenvolvimento infantil e que irão propiciar o aprendizado e a alfabetização no momento oportuno. Brincando, a criança está formando as bases necessárias para adquirir a linguagem escrita.

Ao estimular uma alfabetização precocemente, diminuindo o brincar na primeira infância, estaremos interrompendo e, consequentemente, comprometendo a formação destas bases tão importantes. A alfabetização começa muito mais cedo do que os pais imaginam, pois ler não é simplesmente decifrar letras. A aquisição da escrita tem um papel fundamental no desenvolvimento cultural e psíquico da criança, pois dominar a escrita significa dominar um sistema simbólico extremamente complexo que envolve grande amadurecimento neuropsíquico.

O brinquedo do faz-de-conta, o desenho e a escrita são momentos diferentes de um processo de desenvolvimento. O ato de escrever deve ser cultivado, mas jamais imposto. Experiências comprovam que as crianças, que são alfabetizadas antes de vivenciar plenamente estas etapas podem apresentar, no futuro, problemas como desmotivação, desinteresse, inquietação ou apatia e stress.

O processo de construção das frases é de extrema complexidade cerebral. Se desde muito cedo as crianças receberem uma carga de informações maior do que estão prontas para processar, elas ficarão sobrecarregadas e irão apresentar dificuldades emocionais e de coordenação motora ampla, isto é, de controle corporal, perdendo a graça e a agilidade características da infância.

O conhecimento vai muito além dos números e das letras. De que vale saber escrever se não sabe pensar! A família e a escola precisam investir e estimular a curiosidade para promover a investigação na descoberta de um mundo fantástico, cheio de cores e cheiros, repleto de sons diferentes e de vida para ser explorada.

Pesquisas revelaram que muitas crianças que manifestam o interesse pela escrita em idade precoce o fazem, principalmente, porque convivem com livros e com adultos que leem e escrevem rotineiramente. Ao imitar seus pais e prestar atenção em suas ações, essas crianças dão início a um importante processo de aprendizagem, o que não significa que estão prontas para ser alfabetizadas ou introduzidas no mundo das letras. Isto significa, apenas, que estão sensibilizadas para a descoberta deste mundo. Porém, o processo de alfabetização vai muito além disto.

O processo de alfabetização tem início e estabelece suas bases quando a criança está manipulando e explorando os objetos, descobrindo suas propriedades, quando está imitando alguém, quando reproduz - à sua maneira - o que viu, sentiu, experimentou e conheceu. Quando dá nome às coisas que estão a sua volta; quando está adquirindo noções de classificação e seriação, quando tem oportunidade de ouvir, contar, ler e dramatizar histórias, oportunidades que lhe permitem construir as operações mentais que antecedem o ato de ler.

A infância tem muitos detalhes e encantos. É a idade da sutileza e da sensibilidade. Atropelar o seu curso normal provoca prejuízos que serão levados para toda a vida. Exercitar a paciência, aguardando o momento oportuno para vivenciar todas as importantes fases da criança, é uma lição de sabedoria que pais e educadores necessitam aprender para respeitar.
Quem é a colunista: Eliana de Barros Santos.

O que faz: Psicóloga, pedagoga e diretora pedagógica do Colégi Global/Escola Globinho de São Paulo.

Pecado gastronômico: Um bom vinho tinto

Melhor lugar do mundo: Vancoucer, Canadá.

Fale com ela: colegioglobal@uol.com.br

Atualizado em 6 Set 2011.

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