Guia da Semana

As crianças e o horário de verão

A medida que pretende economizar energia atrapalha o sono e a rotina das crianças

O sorridente despertar de Pietro


São 6h20 e o despertador de Maria Fernanda Oliveira enche o quarto com seu apito repetitivo. As janelas escuras denunciam que o dia mal tomou o lugar da noite lá fora, mas ela sabe que o mais difícil está por vir. Com cuidado, abre a porta do quarto de Ingrid Estela Oliveira, sua filha de 6 anos. O abajur ainda está ligado e ao lado dele uma pilha de livros de histórias infantis que leu na noite anterior com esperança de fazer a criança dormir no horário de costume, por volta das 21h. Chama pelo nome da filha uma, duas, três vezes. Ingrid cobre a cabeça. Passa a mão pelo seu corpo, dá um beijo no rosto desejando bom dia. Nada.

Querendo ganhar tempo, despe a pequena de seu pijama e começa colocar o uniforme da escola com ela dormindo mesmo. Penteia, coloca o tênis, e agora começa conduzir Ingrid até o banheiro, onde lava seu rosto. Finalmente a menina começa dar sinais que está desperta, reclama de sono, diz que ainda está de noite. Mas não tem escolha, toma seu café e desce bocejando pelo elevador.

Não muito longe dali, Irene Nunes tem um dia longo pela frente, mas está com muito sono, na última noite, sua filha Luíza Ferrante, de 6 anos, ficou brincando com vizinhas até tarde e, depois, ainda empolgada, não queria saber de dormir cedo. A garota sempre dormiu tarde. E nesses dias do ano em que o sol faz companhia por mais tempo, o pique para brincar triplica. Por conta disso, Irene mudou Luiza para o horário vespertino na escola. A menina gostou "Eu adoro o horário de verão, minha mãe me deixa ficar na casa da minha vizinha até depois da novela das seis porque ainda é de dia. E agora não fica brigando comigo quando não durmo porque vou pra escola só à tarde".

Não foi difícil para a Luiza perceber que alguma coisa mudou, que o horário de verão chegou, afinal, ele muda a rotina de milhares de pessoas. Esta é uma medida tomada para diminuir o consumo de energia e entrou em vigor em 19 de outubro. Participam dele, 11 estados brasileiros das regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste: todos precisaram adiantar os relógios em uma hora. A iniciativa do Governo Federal justifica-se pela claridade natural que a estação proporciona. Há quem goste muito dessa época, e há quem discorde, é o caso do Dr. Israel Zecker, pediatria do Hospital Brasil. Ele é enfático ao questionar o horário de verão: "O esforço para adaptação não equivale ao pequeno benefício que essa medida traz. Talvez valha a pena em estados como Belo Horizonte, mas definitivamente não compensa".

Segundo Dr. Israel, não é só o horário que muda, o corpo também sente os impactos de uma hora de diferença. Parece pouco, mas o nosso organismo fica alterado, e, principalmente, o das crianças. O tempo de descanso reduzido gera um desgaste natural que é sentido, ainda mais acentuado nas primeiras semanas. A rotina ajusta o corpo: poucas horas antes de acordar, a temperatura sobe e o hormônio cortisol atinge seu pico no organismo, afastando a sonolência. No entanto, quando a rotina muda, seu ciclo biológico é alterado e o organismo não consegue se preparar. Resultado: a criança acorda cansada e rende menos nas suas atividades e na escola.

Kauê na escolinha


Uma pesquisa conduzida por laboratórios de cinco países sul-americanos, incluindo 9.251 pessoas do Brasil, mostrou que 46% da população sente algum tipo de desconforto com o começo do horário de verão. Esse desgaste tem efeitos nas crianças, que podem ter distúrbios no metabolismo, e até conseqüências cardíacas e neurológicas. Dr. Israel alerta que a ansiedade gerada na garotada para que se adapte à nova rotina e a falta de repouso suficiente pode trazer problemas sérios.

Há quem consiga se adaptar, por outro lado, tem quem atravesse a estação inteira com problemas, situação comum entre os notívagos, cujo rendimento é maior no período noturno, eles demoram mais para entrar em sintonia com a mudança no relógio.

Algumas mães dão sorte, á o caso de Camila Battistini, mãe de Pietro, de quatro anos, e Fabrício, de um ano e quatro meses, na casa dela o horário de verão não afetou em nada. Tanto Pietro quanto o caçula não têm problema nenhum com a cama. Os garotos dormem cedo e a hora de acordar é tranqüila. Camila achou que Pietro pudesse ter alguma dificuldade quando o horário de verão chegasse, mas o pequeno acorda sempre bem disposto. É quase uma raridade.

Ana Paula Rossi sabe disso, ela é mãe de Kauê Rossi Pivato, de 4 anos. Kauê tem um dia cheio de atividades: Passa meio período na escolinha e depois vai para creche. Para isso, Ana precisa acordá-lo às 7h, o que já não era uma tarefa lá muito fácil, ficou mais complicada com o horário de verão, que segundo Ana, foi muito sentido pelo menino e por ela também. Ana precisou adquirir algumas táticas para acordar seu filho sem que o pequeno fosse acometido por um tremendo mau humor pela manhã. O processo é lento: Começa a fazer carinhos, sussurrando o nome de Kauê. Chamar em voz alta jamais. E quando a noite cai, nova tática, a televisão é desligada, pois ele quer assistir todos os desenhos, e para o nível de animação ir caindo aos poucos, Ana coloca-o na cama um pouco antes da hora e passa a lhe contar histórias. E para que ele não fique impaciente, vem a vez dele, que contar histórias para a mãe. E nessa troca de histórias incríveis de mãe para filho, a tranqüilidade se instala na casa de Ana. Aos poucos Kauê vai se acostumando, e aos sábados, a primeira pergunta que faz ao acordar é: "Mãe, hoje preciso ir pra escola?".

O rendimento na escola pode ficar comprometido com a chegada do horário de verão, mas isso pode ser evitado, é o que garante a professora Márcia Ploretti. Ela leciona para uma classe de 25 alunos entre 5 e 6 anos, na EMEI Clarisse Lispector, e conta que para as crianças ficarem dispostas logo cedo, promove atividades que as deixem ativas e promovam interação. Ou seja: biblioteca só mais tarde, agora é hora brincadeiras educativas e muita conversa com os alunos. Tem funcionado, até agora ninguém dormiu em sala de aula. Márcia afirma que o tempo de adaptação é curto: "Os pais precisam estar atentos a uma rotina regrada, assim, mesmo que no começo as crianças sintam um pouco as diferenças com o horário de verão, rapidinho elas se adaptam: é questão de duas semanas no máximo".

Integrando a classe de Márcia está Clara Barbosa Olmedo, de 5 anos. Na casa dela, todos os dias por volta das 21h, a mãe Fabiana Olmedo faz um ritual: A televisão é desligada, a luz diminuída, até a voz se transmuta em sussurro, aí vem o banho quentinho, a historinha da fada e pronto. Esse é o momento preferido de Clara, "Gosto da hora de dormir porque a mamãe fica comigo e conta história, ela é boazinha e eu durmo logo para agradar ela. Não gosto quando me acorda e ainda está de noite".

Para que o horário de verão seja mais gostoso para pais e filhos, o Dr. Israel deixa algumas sugestões: É importante tomar muito líquido; Mantenha uma rotina sem muito desgaste físico, no começo da mudança de horário; Programe-se para dormir mais cedo e adote uma alimentação leve, que não exija do seu organismo muito esforço para digestão.

Atualizado em 1 Dez 2011.

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